Abissal
Elton Daniel Leme

Abissal

Parte II — Crônicas, Volume I

Uma voz no abismo

Capítulos3
Crônicas119
Publicação2025
EditoraLeme Editorial
Transição

Interlúdio para as crônicas

A poesia abriu a primeira ferida. Fez sangrar o verbo contido. Mas agora, é hora de deixar que as palavras desçam ao cotidiano. Que ganhem ossos, rugas, cicatrizes. Que troquem a leveza da metáfora pela carne da experiência.

As crônicas que seguem adiante não nasceram para encantar. São filhas da lucidez fatigada, da perplexidade diante do humano, da ironia que nos salva da ingenuidade e da ternura que insiste, mesmo quando o mundo endurece.

Se a poesia foi meu gesto de escuta, a crônica é minha resposta. Se antes escrevi com as mãos sujas de alma, agora escrevo com os olhos bem abertos. Mas não abandone ainda a sensibilidade. Ela continua por aqui, escondida nos desvãos do sarcasmo, entre as dobras do desencanto.

Aqui, o autor já não caminha descalço no campo simbólico. Ele calça as botas da crítica, da memória, da observação do mundo que o contaminou. A tinta agora vem misturada à poeira do tempo, ao mofo das ideias que sobrevivem, ao hálito amargo do espanto.

Mas nem tudo é amargura. Há lampejos de humor. Pequenos gestos de afeto no meio da prosa crua. Porque mesmo a crônica, quando escrita com o coração alquebrado, pode conter um sopro de poesia.

Então, respire fundo. A travessia continua. O mar muda de cor, mas a embarcação é a mesma. As palavras ainda são o leme. E eu sigo, sem mapa, sem promessas, mas com os olhos voltados para o horizonte onde talvez a lucidez encontre, por fim, alguma paz.

Abertura

Introdução sem muita explicação

As águas abissais eram sua morada e o que você vai ler nessa segunda parte do livro são as crônicas mais líricas, existenciais, antagônicas e filosóficas.

Mas a profundidade aqui exposta vai mostrar um caminho contrário no qual emergiu a superfície e o autor sendo contaminado pelo mundo raso e rasteiro.

Na terceira parte do livro, você, caro leitor, vai encontrar as crônicas mais ácidas, mordazes e sarcásticas. É claro que um pouco de humor pode ser percebido entre as ironias.

Bem, não sei se você vai chegar a um apogeu ao fim do livro. Leia como quiser. Talvez, faça como eu e tenha que percorrer o caminho de volta para ver se consegue se reencontrar.


07

Crônicas de um náufrago

Há silêncios que não nascem da paz, mas do cansaço. Silêncios que vêm depois do grito rouco, depois da queda funda, depois do esgotamento de toda tentativa de fuga. Silêncios que não pedem licença e apenas se instalam.

“Enfim nasce meu silêncio” não é apenas um verso, é um rito de passagem. Um limiar onde se compreende, enfim, que para continuar é preciso desnudar-se dos ruídos que abafam, dos papéis que aprisionam, das ilusões que prometem salvação.

A segunda parte deste livro ergue-se como uma jangada improvisada, montada com os destroços do naufrágio anterior. Se nas poesias o verbo ainda sangrava em metáforas, aqui ele se expõe em carne viva. Cada crônica é um mergulho, não mais em águas desconhecidas, mas nos abismos já percorridos e reconhecidos.

Não se trata mais de buscar redenção, mas de aceitar a companhia da sombra. De olhar para a própria deriva sem desviar o olhar. A voz que agora escreve é a mesma, mas exausta de gritar. É o náufrago que aprendeu a escutar as marés internas, e que, depois de tanto resistir, passou a nomear o indizível com mãos que já não tremem por medo, mas por verdade.

Entre ruínas e redescobertas, nasce, enfim, a urgência de dizer o que resta quando tudo o mais se esgota e, ainda assim, a vida insiste em sussurrar. É nesse entrelugar, entre o grito e o silêncio, entre o fim e o começo, que estas páginas acontecem.

Nem lamento, nem euforia. Apenas a palavra como escuta. A escuta como ponte. E a escrita como bússola: não para encontrar o caminho, mas para continuar, mesmo sem mapa.

Ah! Quisera você uma introdução prosaica Para compreender os bastidores cerebrais Da confecção dessas crônicas que seguem adiante Mas convidei novamente a poesia Com uma velha parente esquecida Em fotos envelhecidas Dum tempo em que eu desejava Me entender e ser entendido Ou ter algo próximo a um propósito Buscava um sentido Mas os olhos me mostravam a pungência De todos que estavam perdidos E na verdade ela sempre foi a anfitriã Acompanhando minha rota A apontar paisagens despercebidas Mesmo vilipendiada e olvidada Nunca se ressentiu contra mim E cantava ao longe sua melodia Estive surdo e cego Insensível e endurecido Mas um dia todas fortalezas racham E pródigo voltei Mas não por ter usufruído da abundância E sim por não ter gasto os talentos Poesia conselheira Em suas linhas tortas Me endireita
O fio tênue da meada

Busco algo mais valioso do que o sono recoberto com sua crisálida, algo que me instigue a romper o casulo e ensejar o inebriante ímpeto de vida. Antes, as palavras fluíam por mim como um rio caudaloso. Agora, caminho pela aridez do meu silêncio, tentando garimpar algum orvalho de saber que tenha sido preservado da noite que antecedeu o fulgor da ideia.

Tento preservar o interesse e sua mutualidade, sem deixar que se rompam as filigranas que nos encantam, nem as insignificâncias que nos distanciam. No entanto, estou fatigado de toda essa perseguição ativa. Nem a busca, nem a luta, nem a conquista valem algo. Quem se esforça por alguém ou algo está fadado ao fracasso, pois demonstra o interesse e o interesse é desprezado com frequência.

Talvez a dúvida seja o maior combustível para o coração, e o alimento para os intelectos combalidos. O desassossego é a dádiva que nos tira da inércia, a angústia que não aceita mais os discursos intermináveis. Quero quem me cace como um famélico, com a determinação de quem há muito tempo se consome num catabolismo frenético.

Não importa se pelas vias do sentimento ou da cognição, almejo quem me persiga como o buscador da verdade. Mas certamente desprezarei tudo que seja menor do que a devoção. Prefiro a passividade e o sinal sutil da possibilidade. Deixei apenas a ponta do novelo emaranhado para quem possa me encontrar e, aos poucos, quebrar a estátua que me tornei.

Não me é mais possível sair da condição em que me encontro, petrificado pela severidade das eras estéreis. Já fui muito compreensivo outrora, e agora não quero mais fazer esse esforço vão. Estou perdido e não quero mais me encontrar. Naufragado em mim mesmo, sigo a esmo na minha teimosia férrea. Quero a paixão do possível. A ternura do animal. O olhar implacável da sedução.

Garimpeiro de si

Defronte ao muro da imbecilidade que erguemos com esmero ao longo dos anos, ficamos paralisados. Pedimos auxílio aos mestres, mas eles se mostram ocupados demais com os afazeres que julgam urgentes. Após nossas súplicas, consentem em nos ouvir e nos atribuem tarefas específicas, cujo sentido oculto, claro, não nos é evidente de imediato.

Ordenam que vendamos nossa subjetividade, em trocas de moedas de ouro. E assim, fracassamos. A joia do abstrato sempre será tomada por réplica pelos leigos. E a oferta é sempre um valor ínfimo. Regressamos desanimados. E ao relatar o ocorrido aos anciões do conhecimento, com serenidade, nos encorajam a seguir tentando.

Depois, buscamos os especialistas que possam avaliar a joia do saber e percebemos que não devemos vendê-la, por mais tentadora que seja oferta. O profundo conhecedor de relíquias ao analisar a peça com atenção, vai revelar que ela tem um valor significativo.

Exultantes, voltamos para contar aos mestres a descoberta – estes por sua vez sorriem. Somos como uma joia, únicos, complexos, de valor imensurável. Mas para quem olha sem profundidade, não passamos de falsificações ou metais sem valor.

Como toda parábola, o valor está no que ecoa além da história. Começamos como garimpeiros de nossa própria essência e talvez estejamos aos poucos nos tornando avaliadores de preciosidades interiores, para um dia chegarmos à maestria.

Não há tragédia maior do que permanecer soterrados entre os cascalhos do mundo, afundados no lodo dos lagos, ignorados... ou sem saber o próprio valor.

A eternidade das promessas

De vacilo em vacilo, sigo me erguendo das quedas reiteradas. Prometo disciplina em troca de pequenos milagres. Quando o inesperado acena com sua remota probabilidade, insisto em acreditar, pois minha esperança é um fogo imorredouro a crepitar.

Sempre ansioso com o vir-a-ser, me esmero em influenciar os bastidores para chegar onde desejo. Não aceito de forma alguma não lograr minha intenção. Meu itinerário é de ilusão e respectiva desilusão.

Invejo aqueles que apenas desfrutam os frutos do destino, sem expectativa ou apego. Admiro quem consegue fazer piada diária dentro de sua prisão.

Parece que a sorte sorri aos despreocupados e escarnece da seriedade dos crédulos. Ando sisudo, cético e irritado, embora meu semblante esconda isso sob uma imagem de coragem e confiança. Não sei até quando serei humilhado antes de receber o respeito que almejo.

Tudo que amealhei é um monte de entulho na forma de saber obsoleto. Nunca obtive vantagem alguma pelo esforço de buscar o conhecimento. Quem me forjou, o fez com a propriedade de perecer e lutar para se reerguer. Queria apenas a fé e o abandono, mas infelizmente despertei da letargia dos animais. Queria um simples sim ou fim.

Chaga Aberta

Bem agora sinto um grande incômodo. Não em estar a sós comigo mesmo, mas por ter que manter essa companhia incômoda. A todo momento, uma perturbação que não cessa de exigir: o movimento, a consciência, a produção, o desempenho, a qualidade, o sentido, a sobrevivência etc. É um eterno "ter que" que violenta a despropositada odisseia do ser humano neste planeta.

Tenho buscado não o relacionamento, mas um querer revitalizante, tal qual o ermitão desprovido de desejos há longos evos. Algo em mim morreu e está causando a erosão dos meus jardins psíquicos. Não sei mais o que tenho a dizer sobre o mundo enquanto fenomenologia, nem sobre as pessoas insignificantes que nele habitam.

Parece-me que da boca das pessoas nada é emanado além da mentira. E busco, sofregamente, um pingo do genuíno fel remediador. Sei que, atualmente, as pessoas buscam o autoengano e todo mundo tem a ilusão de ser um influenciador, mas estamos apartados, buscando grupos de interesse que definitivamente não se ouvem.

Acho que começo a perceber um traço desesperador do engano de que falava há pouco: é a ausência do diálogo. Não consigo distinguir quando isso acontece — e quando estou disposto, verdadeiramente, a ouvir a outrem ou a mim mesmo. Continuo entorpecido, mas tento encontrar o que existe em mim e que seja uma centelha de vida.

Morada do arquiteto

Percorro os corredores de um casarão antigo e tudo está tão iluminado que parece possível perceber todos os seus nichos e recônditos. Tateio as paredes e os móveis e tudo parece de uma solidez absurda.

Repentinamente, a luz se apaga e a escuridão abala os pilares da realidade, pois é a alma que ilumina o corpo, da mesma forma que a claridade torna a habitação momentaneamente conhecida aos nossos olhos.

Em dado momento, as paredes desabam e pego um pedaço em minhas mãos; os fragmentos revelam partículas cada vez menores, e ao sondar a ínfima parte vejo apenas espaços vastos. Minha noção de concretude, então, é dinamitada. O terror se apodera de mim, e o que sinto é apenas o caos interno, poucas vezes compreensível à totalidade que insisto em chamar de Eu.

Os sons se misturam entre minha própria voz interna e os ruídos alheios, mas algo sussurra de local incerto. Nem sei em qual parcela de mim confiar. O que aglutina esses pedaços é o elemento mais seguro de minha singularidade, dando a coesão necessária para seguir sem me desmontar a toda hora.

Isto que me diferencia do todo é o elemento indivisível e teimoso que não permite o eterno engano, dentre as inumeráveis armadilhas do ambiente. Pressinto que tudo é um jogo que não pode ser desligado da tomada, situado nesta casa sem interruptores.

O programador dá risadas a cada sucesso e destila impropérios diante da lista de erros gerados, mas não pode quebrar o computador nem contar o placar para ninguém.

Para além das cercas

Escrevo para reconstituir a verdade, intricadamente miscigenada com erros variados e copiados habilidosamente.

Fazer confusões é minha especialidade, por isso recapitulo quais foram as porcarias das quais me apossei ao longo da trajetória de linearidade duvidosa.

Grafar essas letras não é uma escolha para um ser atormentado pelas dúvidas e hesitante em mostrar uma confiança ridícula. Mas é igualmente inescapável o confronto com as crenças íntimas (talvez não tão particulares), o que descamba num paradoxo pleno de ironia.

Afinal, conviver consigo mesmo é companhia das mais teimosas, por mais que tentemos obliterar as vozes repetitivas de censura e incentivo. Fugir da própria realidade só pode resultar em doenças que servem como defesa contra nós mesmos.

Tento recobrar a lucidez, remontando a épocas de certa clareza intacta, no afã de restaurar a percepção sem exagero de distorções. Tudo se amolda às dimensões que deliberadamente atribuímos, em detrimento da existência de uma unicidade extrínseca.

Seria o mundo um epifenômeno da existência, ou estamos todos interconectados? Ambas as opções são idênticas. Portanto, não há resposta. Talvez fosse reconfortante crer apenas no caos evolutivo, no surgimento de complexidades a partir do nada, na existência sem propósitos.

Sei apenas que há uma consciência que grita e movimenta meus músculos. Não fosse sua presença remota e insistente, seria eu apenas um boneco de marionete. Algo me diz que incomodo forças ditadoras ou talvez ninguém esteja nem aí.

Dentre os ditadores apolíneos

Minha alma sempre pertenceu à turma das bacantes. A poesia é essa presença que desregula a força apolínea dos ditadores caretas. Tentei impor certa ordem aos meus escritos, mas precisei de muita disciplina para não cair no enfado. Ainda assim, apreciei minha obra, pois é isso que gostaria de trazer ao mundo: um espaço onde são banidas as porcarias doutrinárias.

Em certos momentos, até penso que seria interessante agir com constância. Mas logo abandono. Representar sempre a mesma personagem me enfastiaria. Sei que preciso contracenar, e alguns papéis exigem opositores de naturezas variadas.

Ser o louco, o (des)preocupado, o galhofeiro, o bondoso, o arrogante, o inflexível e tantos outros epítetos que adoram me atribuir, é apenas o que solicitam. E eu, por vezes, não posso recusar. Talvez, de realidades paralelas, esperem que eu reviva situações existenciais para lapidar o diamante do meu cerne sutil. Mas sou luz difusa e incontida.

Dos banquetes da vida, quero experimentar um pouco de tudo o que me agrada. Aprazível é a sensação do movimento e da liberdade, mesmo que ilusória. Sempre me cobraram uma obediência férrea, tentando me colocar em trilhos enferrujados.

Sei que serei ceifado por conta das minhas ironias incontroláveis, mas já não suporto as mentiras impostas. Alguns caminhos não têm retorno, apenas paradas onde se contemplam portos repletos de curiosidade.

Por que seria divinamente coagido a fugir de situações que mais se parecem com testes progressivos?

Não quero mérito algum. Quero viver a vida segundo os sentidos, mesmo que enganadores. Ou, então, que me apontem o rumo seguro, longe das armadilhas engendradas em instâncias superiores.

Peixe

Nunca aprendi a pedir. Meus olhos te raptaram para dentro do meu coração e caí na minha própria armadilha. Tão inesperado que esqueci o significado da palavra razão e se algum dia tive posse de algo que se aproximasse disso. Sempre fui um ser submerso em sentimentos, perdido em águas abissais. Por que jogou o anzol para as funduras do meu mar de descaminhos e profundidades enigmáticas?

Nunca quis ferir. Entretanto, urge em meu peito o desejo abrasador, um eterno consumir da chama inextinguível. Já não tenho coragem ou medo, pois se tornaram inúteis. Guardo agora essa vontade, que é o que pode me suster. Quando os sentimentos são sobejos, é preciso expulsá-los. Foi o que fiz e fatalmente atingi uma centelha que continha em si um amor encapsulado.

Nunca bati na porta. Estrela que explode por conter em si o mirífico brilho nunca observado a olho nu. Eu estava a sós dentre os corpos celestes que não se enxergavam, mas seus olhos se prenderam aos meus, na estranheza de um clamor sem palavras. Um convite silencioso e irrecusável. Seria loucura não ceder aos encantos e quando olhei para trás não havia mais caminho...

Deveres d’alma

O desânimo, penso eu, não ocorre pela falta de um propósito, mas por conta de nossa displicência em não o seguir. A alma abandona temporariamente o corpo, daí a etimologia (simplista) da palavra, remetendo a um ser desprovido da chama que anima sua rota. A fadiga ronda nossa rotina, pois sabemos que estamos desperdiçando tempo com coisas improfícuas, que não nos conduzem aos nossos sonhos. Com os pensamentos ocorre algo similar: o embate com inimigos invencíveis sobrecarrega a mente com o excremento dos atos infrutíferos.

Não podemos vencer a ignorância alheia, mas apenas ampliar nossa claridade no ambiente trevoso. Devemos estar atentos para não caminharmos a esmo ou permanecermos vulneráveis. Apenas é possível permitir a imprecisão quando se procura algo impreciso, mas é necessário identificá-la, logo que surja no horizonte dos eventos.

Assim, pressinto que o torpor que às vezes nos acomete difere do repouso necessário após o bom combate. Fazer algo em que não acreditamos, tendo essa clareza, até que é aceitável. Entretanto, não fazer algo que cremos certo não é tolerado pelo espírito.

Menciono esses termos etéreos e misteriosos para tentar descrever a fagulha sem a qual o corpo perece e que não surgiu do ventre do nada. Alguns querem depreciar o valor do ser humano ao enaltecer os eventos aleatórios, as imprecisões das grandezas, a finitude dos processos e as limitações da máquina humana.

Esqueceram-se, sobretudo, de exaltar a inteligência evidente na arquitetura das complexidades e das belezas, como se a assinatura de algo superior quisesse nos arrancar do entorpecimento. Lembro agora de um trecho de música que sempre gostei: “O que ninguém percebe, é o que todo mundo sabe...”. Talvez, nossa energia não se esgote totalmente nas ilusões persistentes da realidade.

Naus errantes

Seguimos por automatismo, se deixarmos o barco à deriva. As lembranças do timoneiro conduzem a embarcação, acostumada aos mares dantes navegados. Se quisermos, poderemos assumir parcialmente o controle, cientes das limitações daquele que influencia, mas é também arrastado pelas correntezas. Temos algumas escolhas diante da constante mudança de itinerários, se evitarmos os trilhos viciados da rotina férrea.

Em nosso firme propósito em busca do melhor, avistamos terras distantes, o que nos permite desfrutar a viagem. Saber enfrentar as atribulações do percurso sem deixar de reparar nas belas paisagens — eis a diferença entre o ofício e o sagrado. No horizonte desembocam as possibilidades, para nos fazer ver a linha distante e prosseguir sempre. Ao longo das margens enxergamos cenários feios e depredados, mas são apenas materializações oriundas do íntimo de seus moradores.

Enquanto alguns prenunciam a tempestade, outros fazem reparos no casco e sabem ler os traços do firmamento, sem desesperar diante da iminente tormenta. Se deixarmos a nau ao relento, a vida segue mesmo assim. Não há como impedirmos deliberadamente o fluxo, mas é possível optar por seguir em alguma direção.

Não há como ancorar a alma permanentemente a apenas um rincão, pois sua liberdade não permite tal grilhão. Apenas uma tábua boiando no mar revolto é necessária para a salvação e permite alguns momentos de calmaria.

Rio piscoso

Quais os caminhos que a vida percorre até determinado ponto, não sei dizer. Faltam-me perceber os bastidores invisíveis ou além da minha vista. Ao manipular deliberadamente eventos na trama intricada da existência, apenas altero rotas e me desvio do propósito inicial.

Nosso trabalho consiste em confiar que tudo ocorrerá da melhor forma, sem tentar adivinhar as conexões para garantir o sucesso. O olhar do observador tem poder de interferência: tudo o que é percebido sabe que foi contemplado por alguma consciência, seja por desejo, seja por curiosidade.

Nossa parcela de contribuição é ínfima diante da fonte de onde tudo provém, mas deve ser entregue com presença, integridade e certeza na outra fração.

A completude resulta da soma entre nosso fragmento de vontade e uma vastidão oriunda de nascentes misteriosas.

Só tenho o meu querer, como uma pedra lançada ao mar que oscila, irradia suas intenções e recebe, por vezes, ecos de resposta.

Postulados do Insondável

Certas verdades axiomáticas deixam um rastro indelével nas consciências que não querem absorver a incontestável auto-evidência, marcas luminosas que não são vistas devido ao baixo platô cognitivo e ao cansaço quase contagioso, derivado da exposição a essa luz perene.

O último esteio é o do saber que nos impulsiona para fora de nossa zona letárgica e nos faz pedra fundamental de um íntimo conhecimento ancestral. Tudo o que vem de áreas exógenas é princípio invasor que só é englobado com nossa anuência.

Assim como não devemos deixar qualquer um visitar nossa casa, também não é prudente permitir que qualquer baboseira filosófica impregne nosso psiquismo.

Algum resquício de ilusão sempre encobre nossa visão, e a cada camada existencial rasgada é um degrau percorrido no mundo das formas. Talvez nosso eu indivisível seja a derradeira escala da grandiosa viagem, e a cada “parada” acreditamos ser esta a definitiva morada do ser.

Desfeitas todas as ilusões, mesmo a da inquebrantável singularidade do espírito, ainda sussurra o princípio original inteligente, a proclamar e reclamar soberania.

Ao perscrutar a escuridão por detrás de nossos olhos fechados, sempre há uma voz a exigir seu império supremo, onde desabam as palavras e só se pode apegar às etéreas imagens.

O caráter provisório da verdade decorre do máximo que conseguimos absorver de sua limpidez. De todas as minhas ferramentas sensoriais, apenas uma é confiável; porém, as demais não conversam muito bem com ela.

Final de expediente

Hoje estou com fadiga mental de tanto antecipar situações, então decidi dividir tudo em doses homeopáticas, suportáveis para meu estado débil e digeríveis para aqueles que não aguentam a enxurrada de obviedades.

Meu processo criativo está emperrado ou suspenso; a máquina parece estar em reparo para a reciclagem das ideias. Nada interessante me ocorre e, provavelmente, não consiga transmitir uma única mensagem até o fim destas linhas vagas.

Escrevo, na verdade, para passar o tempo, unicamente com este propósito vão e santo. A mim também não me agrada este desperdício de palavras. Gostaria de ficar apenas observando o desenrolar dos fatos e cultivar o ócio, para agir no momento certo e escrever a quantidade certa de frases.

Trabalho inútil: milhares de braçadas contra a correnteza para nadar alguns metros no esforço de edificar esta crônica. Acumulei esforços e amontoei abstrações, mas o mundo espera que eu seja apenas o cavalo a puxar sua carroça e faça coisas tão concretas quanto moldar um tijolo.

Quem me dera ter o dom de fazer coisas simples e me dar por satisfeito, sem a pretensão de um final impactante. Quero acabar em reticências...

Sorriso idiota que estampa minha face

Outrora, impunha a mim mesmo o pungente estigma de pertencer à prole humana, agigantando em mim a descrença e a misantropia. Não que tais sensações incômodas tenham abrandado seu domínio, porém, não me vejo mais como um ser miserável e desprezível. A revolta em mim se tornou uma espécie de antídoto contra o fascínio dos imbecis professorais.

Meu humor, tecido a partir das mazelas quotidianas, oblitera o olhar triste da solidão. Quase ninguém percebe o que se passa por detrás desta minha indevassável blindagem. Minha sina é carregar o fardo comum a todas as pessoas: a imposição de estar recluso em si e de caminhar só.

As paisagens e transeuntes desfilam na minha retina, e não sei distinguir realidade de fantasia. Costumo ficar zangado ou mesmo encantado. Sou mestre em me envolver nas próprias ilusões com veemência.

O conhecimento que supostamente adquiri não retrocederá, mas posso dissipar suas nuvens. Só a dúvida e a angústia, cortadas ao meio pela faca da ambiguidade, rondarão meu frágil cérebro e o indisciplinado coração.

Teimo em perseguir resultados e me desacostumo do ócio. Pairam sobre mim pensamentos que plasmam sua presença tangível. Talvez seja bom estar perdido e perder os desejos em cada esquina. Forço-me para quê, se tudo redunda no persistente agora?

Faltou eu brindar efusivamente à tragédia e abraçar os infortúnios que tentam soçobrar minha nau errante. Rejeitei esta realidade sólida e fui nocauteado por sua presença imbatível. Tentarei achar graça na desgraça. Viver é uma aventura insólita que gostaria de dissolver como sal na água, mas isso já foi feito.

Soerguimento

Estou irremediavelmente misturado ao cenário, incapaz de agir com indiferença perante as sombras que se agigantam com ferocidade implacável. A contragosto, interajo com outros receptáculos, estes corpos que desfilam vestes orgulhosas e possessivas.

Meu olhar compassivo denuncia um coração teimoso, fadado às inevitáveis desilusões. Talvez eu precise apenas me entregar, confiar que o melhor acontece, mesmo que esporadicamente. Se o sofrimento é inevitável, tentarei ao menos palmilhar o caminho com leveza.

Toda a dor que repousa intrinsecamente em mim sei que não poderei compartilhar. Criar possibilidades é fácil, difícil mesmo é sustentar a criação, dar continuidade ao sopro vital que insiste em desenrolar-se por entre os espinhos. O sopro vitaliza. A palavra cristaliza.

Tentarei nutrir-me a cada dia, vigiar a cada instante as armadilhas engenhosamente preparadas. Toda construção é ameaçada por aqueles que não contribuíram para o seu erguimento. O planejamento, mesmo com mãos de esmero, não pode competir com vozes que apenas vociferam reclamações odientas.

Espero que minha confiança, meu otimismo, minha paz e minha alegria sobrevivam por si, a despeito das incessantes adversidades.

Casca de Cebola

Você e todos os outros percebem a "realidade". Quando damos atenção ao comportamento alheio, fatalmente convergimos para este mundo particular. Tal e qual a bondade nos puxa gentilmente, as personalidades rancorosas nos envolvem com seus tentáculos. Por isso, buscar o que é melhor se torna a prática mais saudável contra os vírus que se alastram ao nosso redor.

Compete a cada um os seus próprios problemas e ao grupo o que é comum a todos. A modificação tem princípio interno e passa por uma fase necessária de ação dinâmica, sem a interseção de elogios ou críticas. Agir e não apenas reagir, pois para toda ação há uma reação, mesmo que incógnita. Se acaso existe a matéria primordial, esta é amigável aos nossos planos ou repele o caos da imprecisão.

O sentimento pode turvar a limpidez do pensamento, mas seu controle gera uma soberania duradoura. Agarre-se às lembranças agradáveis, à beleza e àquilo que você gosta. Há um guia interno que o alerta quando o cérebro falha em suas incumbências elementares. Criamos nossa vida intencionalmente, com antecedência, da forma que desejamos.

Repense o vitimismo que marca a vida de muitas pessoas e não tenha receio de parecer ingênuo aos olhos dos eternos pessimistas. Tudo parece ter o poder de autorregulação, de expansão e continuidade. Se a vida é generosa nestes aspectos, devemos compartilhar essa prosperidade antes de compreendermos as coisas como realmente são.

Não adianta apenas menosprezar o ser humano e evidenciar suas limitações; é importante ressaltar a grandiosidade sem exageros ou falsificações. Só o pensamento bem direcionado pode curar as ilusões.

O manancial é ilimitado, e mergulhamos nessa fonte tais quais partículas inquebrantáveis de singularidade. Existe uma zona perene e pré-existente, pois não há como crer no fim.

Réu do conhecimento

Ainda não entendo minhas reações emocionais diante dos fatos, pois elas são incapazes de alterar a roda incessante dos acontecimentos rudemente impressos. Duvido que haja elegância ou caminhos inteligentemente preparados por instâncias superiores. Se ouso compreender os planos urdidos para meu deleite forçado, sou advertido como criança teimosa e ingênua.

Quando centelhas de conhecimento me são ofertadas, vêm diluídas, em doses homeopáticas para não me causar espanto. Nunca chegando às altas hierarquias, esbarro sempre na vigilância cega dos porteiros celestiais, que sabem tanto quanto os mortais, mas se arvoram ministros da verdade.

Anunciam o desejo de desenvolver meu lado espiritual, porém, cá embaixo, vigora a lei esmagadora da matéria e suas miragens insistentes. Se alguém criou o tabuleiro e as peças, desejava apenas uma dança orquestrada, sem interferência de copilotos fantasmas.

Não sei se a tentativa de fazer valer nossa vontade interior já foi frustrada de antemão, nem se estamos sendo punidos por termos regredido na suposta evolução.

Se o futuro já é sabido por alguém, foi reservado para ser consumido em si mesmo. Reconheço que nada sei. E o pouco que desconfio saber, provém do meu tumultuado mundo interior e das janelas que se abrem ao cenário externo.

Somos forjados para ignorar o que se opõe ao império dos nossos instintos. Se não quisermos interferir, algo em nós funciona automaticamente. Caso queiramos tomar as rédeas, exige-se esforço hercúleo para conduzir os cavalos.

Seguimos, por ora, à deriva. E, se notarmos algum auspício positivo, só o reconheceremos pelos frutos igualmente positivos. Por enquanto, não percebo nenhum.

Aforismos Conjugados

O pensamento inexoravelmente gera alguma ação, mesmo que intangível, que, por sua vez, solidifica o hábito, nem sempre observado. Assim, a rotina lentamente molda o caráter, o que pode selar nosso destino, caso o espelho em que nos vemos esteja distorcido ou nítido. Pensar é um esforço que não podemos delegar, tal qual nossas necessidades fisiológicas. Portanto, pense bem e pense direito.

Não me importo se por vezes repito frases alheias, a ideia boa é universal e não tem dono. Diante da auto-evidência da verdade, fico perplexo por nunca a ter enxergado nitidamente.

Os desejos também se cristalizam, qual grão de areia exposto a altas temperaturas. Cuidado com o que deseja aos outros, pois isso é como atirar carvões e querer sair limpo.

Aproveitar a vida é a maior homenagem a quem possa nos ter dado essa dádiva. Do que vale não retirar o embrulho que envolve nossos presentes? Frente à fugacidade, o apego é âncora, enquanto as tábuas de salvação nos escapam em meio ao mar revolto. Agarre as oportunidades. Apenas as deixe ir, se já tiver passado o trem.

Criar expectativas (principalmente falsas) é igual a construir castelos de cartas em meio a um furacão. Nada é certo, nem o que é esperado, nem o inesperado.

A tendência de um rio é se tornar oceano, diante da impossibilidade de retroceder seu curso natural, a menos que se queira ser apenas uma poça insalubre e isolada.

Você não vai resolver tudo sozinho, esqueça. E nem tudo depende dos outros, o que é, no mínimo, um paradoxo. Erguemos ostensivamente placas de mendicância, mas não ousamos acreditar na suspeita íntima da abundância e da riqueza de nosso íntimo.

Reuni estes aforismos e os despejei displicentemente nos leitores.

Não existem intrusos

O hábito da autoesculhambação talvez seja mais pernicioso do que o fenômeno da megalomania: enquanto um subsiste na ocultação de riquezas, o outro se sobrepõe na ostentação de virtudes desonestamente inventadas. De um lado, o vulcão a reter o fluido incandescente; do outro, a farsa insistente com camuflagem falha.

Nunca me senti confortável em encenar um papel, mas talvez seja apenas questão de vestir uma roupa. Como se sentir confiante sem sustentar uma postura congruente? Não se trata de fingimento ou invenção, mas de atitude, de se colocar num lugar apropriado. Achava a fé um instrumento da ingenuidade ou da aniquilação da razão, mas hoje entendo que crer repousa apenas na força que damos a um pensamento, refletindo unicamente nossa realidade pessoal.

O germe da imaginação só existe devido à via tangível de concretização, além das quimeras que confrontam o real sem aceitar os eventos que rompem o horizonte. Quero me livrar do fardo de ser um sonhador, pois ainda guardo um resquício dessa doença. Melhor ser obstinado e focar numa meta palpável do que perseguir o vento, como se pudesse aprisionar a vitalidade de seu sopro.

Não quero apenas ter o que gosto, mas aprender a gostar do que tenho. Preciso abandonar meus dramas, que só alimentam situações de complexidade desnecessária e terminam em becos sem saída. Muito bom é não fazer nada, quando não sei qual caminho seguir. Esvaziar a mente para receber alguma direção mais segura, a partir dos meus próprios sentidos internos.

Vejo um fluxo de facilidades e tento não complicar. Parar de cutucar a ferida deve bastar para me curar. Aceitar que o convidado só apareceu por ocasião de um convite é sinal de sabedoria e nos faz anfitriões dos bons e maus momentos.

Coração convalescente

Quando a potência dormita e sente o despertar do sentimento, a explosão é iminente e inevitável. Não há como trancafiar aquilo que comprova a vida em seu funcionamento visceral. O coração é o centro que te impulsiona na marcha corajosa de existir. Como um pássaro machucado, respirando debilmente frente à dureza dos fatos e ao assombro de realidades confusas, tentou apagar a própria centelha. Todavia, ninguém pode ceifar o que viceja no propósito de expressar amor e se sentir amado.

Algo gritou das profundezas abissais, pois havia sido jogado num poço de escuridão e esquecimento. Ao retornar de paragens inóspitas e remotas, trouxe nas mãos o diamante das certezas pulsantes. É impossível negar o que diz o coração, por mais ridículo que soe aos ouvidos dos incrédulos. O cérebro tenta domar esse cavalo em rompante selvagem, mas só consegue, com esforço, domesticar sua força impetuosa. O mundo ainda primitivo lhe turvou a visão, distorcendo o que é genuíno e o que é dor fugaz. Ousou romper as correntes que o ligavam ao mundo dos vivos (e dos que apenas fingem estar vivos). Buscou quebrar os elos com aqueles que o estimavam, sem enxergar a férrea realidade de acolhimento fraterno.

Enquanto os seres predatórios se confrontam em mentiras e violência, existe um lar que te recebe. Não viu o brilho do rústico metal e se cegou com o alucinante ouro falso. Mas ainda vai enxergar em si as belezas de uma simplicidade estonteante. Há algo que nos sustenta e aglutina todas as partículas. Volta do torpor e reintegra-te à família, feita por aqueles que nutrem o inefável sentir, sem as palavras inúteis que mais atrapalham do que ajudam. Agradece o que não é dito, mas existe e resiste incólume. Repele o que é dito, mas sobra solitário no vácuo do intangível. Retira a armadura para perceber o terno aproximar. E só impunha tua verdade guerreira frente às ilusões, para além das muralhas que te protegem.

Autodidatismo forçado

Respirou sofregamente. Desaprendeu o automatismo do viver. Seu sorriso estava enferrujado, restando apenas o sarcasmo. O olhar, opaco. A voz, estrangulada pela ironia. O corpo, tenso. O ar, pestilencial.

A dor instalou-se há tempos, acomodada como recompensa. Fora idiota, por livre escolha. Fracassou fragorosamente. Tudo o que recebeu veio inesperadamente. Nada veio da esperança. Restou desistir.

O destino gritava. Persistir em estratégias inúteis era estupidez. Sentia-se culpado. Os outros eram apenas projeções de sua patologia. Restou consigo.

Ensaia uma respiração revigorante. Não quer desistir de si, mas pressente que deve abandonar tudo para estar consigo. Anela por um olhar de compaixão, ignora o autoabandono. Precisa chorar o que reprimiu.

Precisa reconstruir uma ponte com a humanidade. Há quem tenha enganado e há quem tenha se deixado enganar. Resolve jogar fora suas coleções. Decide reaprender.

Primeiros Raios

Preciso abandonar o homem velho que me tornei, sedimentado em minhas manias e convicções deletérias. Larguei a liberdade, para me enroscar às ancoras de navios que se recusaram a seguirem os fluxos cambiantes.

A casca do casulo já não comporta o tom estridente das minhas vozes a gritarem hinos de autoengano. Nem sei precisar por quanto tempo me deixei ser ludibriado por doutrinadores fanatizados ou estultos mal-intencionados.

Minha mente devaneia por ideias que escapam do autodomínio imediato e me afastam da retidão necessária. É certo que não estou ao leme, há tempos me eximi deste mister. Se não sei bem a direção em que devo ir, é exatamente porque me esqueci de perguntar ao comandante ou perdi a bússola em paragens movediças do meu peito.

A mensagem que jogaria ao mar ficou enclausurada na garrafa que armazenei, aguardando meu próprio salvamento. A metamorfose, de fato, seria importante, mas, quando consegui divisar os primeiros raios, não continuei no trabalho de recapitular minha vida; fiquei apenas olhando as imagens externas num deslumbramento intelectual.

Meu receptáculo é deveras importante, só agora me atentei a este aspecto. Na natureza, nada é despropositado. Os sentidos são aproveitados de dentro para fora e devem respeitar a um centro de inteligência. Ainda não estou pronto para romper a dureza do meu traje, mas sei que devo me fortalecer antes de mais nada. Força, perseverança e flexibilidade me ajudarão nos passos vindouros. Prosseguirei nesta empreitada.

Diálogo Interno

As primeiras frases de um texto, tudo aquilo que importa. O que se segue depois, praticamente é um rastro que vai desaparecendo com as águas do esquecimento. Tudo o mais é uma invenção para desviar a atenção do real conteúdo, qual uma pérola engendrada vagarosamente numa concha dura. O sentido do que é escrito se esconde por detrás do artifício das palavras como se quisesse confundir e ao mesmo tempo suplicar pelo entendimento.

Quanta ambiguidade cabe em mim? Embora a simplicidade tenha se aproximado com seus braços amorosos, ainda tento flertar com a paz e a angústia. Em alguns momentos me entrego e abro as portas transparentes da sinceridade. Noutras horas, sou silêncio indecifrável e parece que nada tenho a dizer.

Aceitar a si mesmo talvez seja a chave para aceitar o mundo e vice-versa. Afetar o mundo e ser transformado por ele. Enxergar em si um universo e explorar essa aventura, se permitindo gostar do trajeto, das sensações inebriantes e da própria companhia.

Consegui dialogar um pouco comigo, sem cair num monólogo ditador. Não há mais nada a escrever nesse momento.

Abissal

Sou um ser de regiões abissais que, ao subir à superfície, fica aturdido. Desacostumado com o jogo de luz e sombra das aparências, me apavoro com a treva subjetiva e o brilho falso emanados pelas almas que bruxuleiam sobre o orbe. Busco o fulgor que me encantava outrora, pois não encontro nas pessoas nem a cintilância da singularidade, nem a angústia do inefável.

Agora me escondo em casulo de complexidade vã, feito da casca endurecida pelo escarnecimento. O humor que exalo é o fruto amargo de minha descrença, talvez desafiando a hipocrisia, talvez buscando a metafísica que me abandonou mordazmente. Em suma, faço um esforço inútil, pois já sei de antemão que, nesses casos, o fracasso é certo. Teimo ainda em enxergar o que há de bom no ser humano, mesmo tendo indícios reiterados que apontam para sua face esquálida de pequenez mórbida.

O fato é que quem sofre por causa de todas essas reflexões amargas sou apenas eu. A observação sistemática da miséria humana intoxicou meu ser e refletiu minhas próprias mazelas. Mesmo tendo me banhado outrora em águas de otimismo, continuo ignorando os indícios que apontam para a verdade massacrante. Não quis enxergar, de fato! Não soube o que fazer com minha solidão e com a tristeza que me rondava constantemente.

Encontro-me deveras perdido e atordoado agora, sem ter onde me escorar. Nem sei dizer se há uma alma a ocupar esse animal que sou e que perambula desnorteado pelo planeta. Só sei precisar que sou um mero escravo preso aos grilhões que eu mesmo escolhi. Grande parte do meu dia é inundada pelo tédio e pela vontade minguante de perseverar.

Alguma luz há de brilhar para que eu resgate o que sobrou de mim, pois devo percorrer o caminho de volta seguindo as migalhas que deixei. Por enquanto, prossigo assim mesmo... sem farol ou mapa.

Dentro dos muros da minha teimosia

Eis-me aqui novamente a falar consigo. Sempre foi assim, eu dando importância às palavras. A reflexão é algo profundo, mas o diálogo é raro. Quem me conhecer certamente saberá que não quero estar certo sobre as ideias que carrego, pois elas são efêmeras. Só faço questão mesmo é de mostrar quem sou sem sombras de dúvidas, embora eu não seja algo de estanque ou solidificado pela têmpera da personalidade. Sei também que é tolice tal desejo de se justificar ou querer ser enxergado. Quem tiver olhos de ver, saberá, sem precisar de explicações.

Afinal, não há ninguém perguntando como eu sou ou o que estou pensando. Então por que teimo em tentar dizer? Apenas vejo pessoas trazendo afirmações sobre coisas fora de seus domínios. Infelizmente, nos importamos com quem é importante para nós. Outra coisa deveras angustiante é quando tais pessoas falam sobre si mesmas e acreditam que não as entendemos, quando é exatamente o contrário.

O mecanismo de projeção é algo tão elementar que muitos ficam cegos, sem perceber as transferências de conteúdos pessoais. O fato é que não vou aceitar aquilo que não é meu. Cada qual com aquilo que lhe pertence. E o que é compartilhado deve ser celebrado como um privilégio. Sem mais... eu mesmo, no aqui e agora angustiante e ofuscante.

Guante de um atormentado

As polaridades causam um mal-estar que me faz reter o sopro vital e anular, em mim, a ação. Não consigo apreender todas as variáveis que trafegam ao meu redor, nas emanações que exsudam de mim ou nas forças predatórias alheias. Nem sei calcular as energias intencionais ou não que interpenetram essa carcaça humana. No olhar microscópico, sou só espaços e distâncias.

Um tremor inquieto percorre minha alma. Meu corpo quer expulsar a potência latente, pois teimosamente me observo e o vulcão interno dá seus alertas. Talvez deva deixar o automatismo animal guiar meus atos e o instinto auxiliar minha intuição. Talvez não precise perscrutar, mas apenas escutar.

As sutilezas são encobertas por minha ânsia frenética de agir, como se isso bastasse para movimentar as engrenagens da vida. A doença do resultado me acometeu, como se eu fosse o agente decisivo dos fenômenos. Sou parcela ínfima do todo, e minha baixa porcentagem de cooperação consiste em confiar na supremacia dos processos inconscientes.

Volto a uma condição primária (para não dizer infantil), onde a fé cobra sua importância ante a incompletude intelectual. Transbordo de inutilidades e, preocupado, insisto em não abandonar esses entulhos. Ante o nível de complexidade que conquistei, desconfio que o caminho poderia ser mais simples.

Refaço a jornada com sabedoria: não luto mais comigo, tampouco com a vida, sequer tento consertar o mundo. Encolho minha alma para ser novamente criança e conter em mim a imensidão daquilo que imagino.

Um “até breve”

Não creio que fenecer seja o cessar do existir humano, como um precipitar no vácuo absoluto, pois não conhecemos as linhas fronteiriças que determinam o que em nós é periferia e onde gravita nosso centro existencial. O laço da morte pode ser doloroso ou gentil, conforme nos prendemos ou nos soltamos da vida. Minha alma está arfando e o choro represado, pois não mais poderei vê-la na face deste planeta de assombros e maravilhas. Meu peito é pura pungência, por não saber como proceder diante do imperativo fatal do tempo e dos desígnios arbitrados para frágeis criaturas.

Onde tudo acontece, senão aqui dentro de mim? O resto é extensão da teia que me prendeu e protegeu. Muitas tardes passei na companhia devotada e maternal. O sentimento, eu sei, foi verdadeiro. O excesso de zelo era de difícil remoção, dada a eternidade do cuidado. Até poucos meses atrás, havia os passeios vagarosos… e sentar-se calada na calçada. Eu e meu violão, sem preocupação, quando podia simplesmente ser, sem tantos receios.

Até agora, meu cérebro não consegue processar essa transformação química da carne em pó. Uma vida inteira. Muitos dias de convívio. Pequenas coisas: uma receita de bolo, assistir a um programa de TV que eu não gostava, aceitar as coisas como são... Como sou fraco e tolo, mas agraciado no círculo dos afetos. Somente isso me permitiu sobrepujar o assédio desnecessário dos desafetos e sufocar minhas inclinações à violência. Não é sinal de santidade, mas rezo no silêncio das pausas, esquivando-me das palavras.

As plantas foram regadas por muito tempo e vicejavam ao sol da rotina e à chuva da lembrança. Confesso: tentei transparecer força, mas meu sorriso de garoto sempre me traiu. As dores venceram muitas batalhas, mas você se esquivou, como quem encontra merecido descanso após a labuta perseverante da vida. Você sempre ansiou por nossa atenção, pois a sua por nós era intensa.

Minha timidez escondeu meu carinho por ti, mas talvez ele venha a estampar-se na minha longevidade… e nas marcas indeléveis do enfrentamento deste mundo.

Longos haustos

Um período de recolhimento se fazia necessário, pois a alma estava encolhida, assim como as palavras tolhidas. As vozes tonitruantes disputavam a supremacia e eu não me escutava. A agitação era minha própria confusão, e meus atos redundavam em nada.

O esforço não leva a lugar algum e apenas atrapalha o fluxo natural. A fixação afasta as ideias, tal qual um pássaro que foge ao ser observado. Talvez importe apenas um sentir que contemple a fugacidade e disperse as imagens como nuvens sopradas pelo vento.

O único empreendimento digno é a sustentação íntima. Os estímulos externos e as interações não passam de distrações que testam nossa disciplina. De tanto acreditar, moldamos a fé conforme o que desejamos crer.

Deixei-me conduzir por eventos e personagens e acabei perdido, abandonando a morada eterna para fixar o olhar no mundo ordinário. Esqueci as possibilidades, a vontade que norteia meus atos.

A introspecção é minha salvação. Preciso buscar meu desejo, minha satisfação. Moldar meu caráter como quem escolhe uma vestimenta. Preciso me desintoxicar do veneno que consenti. Dispensar toda a carga alheia. Respirar, como quem procura novamente viver.

Mapa do tesouro

Quando essa instância denominada vida diz reiteradamente “não” às nossas investidas, talvez devamos aceitar a negativa, possivelmente por estarmos contrariando a primazia do espírito e suas necessidades impostergáveis. Um “não” é, fatalmente, um não — com ou sem razão.

Queremos desenhar o caminho à nossa frente e nos impomos os passos imaginados. Porém, não enxergamos os bastidores que conduzem nosso desejo (seja em qual camada da consciência for) até a “concretização” perceptível por nossos sentidos.

Quando foi que abandonei meus sensos interiores, para pautar minhas escolhas no mundo que me rodeia? A certeza que busco, qual um louco que não atina com sua própria desorientação, está aprisionada por mim mesmo em um compartimento desprezado do meu íntimo.

Já que não posso delimitar o que é parte de mim, ou qual parte é responsável pelos pensamentos, sigo os sinais grafados nos resultados de minhas ações e os alertas emitidos constantemente por minha bússola interior. Entretanto, sou mestre na arte de me enganar e pratico minha sina de protelar a felicidade (seja lá o que isso signifique).

Por entre as brechas concedidas por meus inumeráveis erros, fica nítida uma passagem para fora dessas ilusões. Mas hesito ante o brilho atemorizante de estar certo e meu medo incompreensível de ser confiante. Sou o último pilar em que posso me segurar, sem que as estruturas que configuram “o mundo” desabem.

Este amontoado de impressões que constitui meu frágil intelecto ajuda a preservar as imagens que me guiam. Se um mapa foi feito para nos dar as coordenadas rumo a um paradeiro, desconhecido e miraculoso, certamente foi escondido no local de mais difícil acesso: dentro de nós.

Um pingo de serenidade

Não sinto necessidade de escrever neste momento, porém o faço com a obrigação de quem semeia em todas as estações os mais diversos tipos de sementes. Um pouco pacificado, após perceber minhas próprias tolices, me cansei de criticar tanto os caminhantes aborrecidos desta vida.

Dentre os fantasmas que atravessam meu caminho, encontro algumas pessoas reais, que ainda demonstram pertencer ao mundo dos vivos. Traço algumas frases simples, toscas em seu propósito. Quero apenas sentir-me bem, na serenidade de quem cumpriu sua parcela ínfima.

O medo dos outros (internos) é a maldade em mim. O quanto reparo nos erros alheios é como um inconveniente persistente a afetar profundamente meu psiquismo. Ser uma pessoa melhor talvez irradie a proteção que tanto almejo.

Explicar por que ajo ao meu modo é cansativo. Muitos querem mostrar uma fachada, mas só conseguem expelir o que são pelos poros da pele. A burocracia dos comportamentos... formas para alcançar objetivos com lentidão. Fôrmas para tudo, para engessar nossos passos e extrair a naturalidade.

Não quero mais me moldar nem me modificar. Continuarei a repetir as mesmíssimas coisas, na firmeza que não se impõe. Se os outros continuam sua dança em torno do precipício, não me precipito. Tentarei não impedir os fluxos ou as ondas. Contornarei os muros com passos discretos. Assentado no bem, teimoso nesta intenção impensada.

Cordas que tanjo

Faço força para escrever a vida em prosa, contudo a poesia permeia meus passos. Busco em vão manter coerência nas palavras, nos sentimentos, nos pensamentos, nas ações… até mesmo no não-agir. Desperdiço meu tempo nessa louca empreitada.

Em certos momentos, desabam minha estabilidade, linearidade, sequência, razoabilidade, lógica ou qualquer outro conceito que denote segurança frente ao horizonte fictício.

Gosto de exaltar minha inteligência, mas sei que só existe a inteligência por detrás de tudo. Admiramos as coisas belas, nos inebriamos com os resquícios de amor... mas há apenas o contraste e uma única emanação amorosa.

Toda a sordidez moral dos “humanos” apenas me aponta para a sublimidade daquilo que experimento. Não quero me desviar dos cenários de descalabro, mas caminhar impassível diante das torres de horror erguidas por nós.

Mesmo que minha voz seja abafada pelos gemidos monstruosos da indiferença e pelas atrocidades inúteis da manipulação, transmutarei os rabiscos que imprimo em um canto.

Forjarei acordes.

Melodia.

Letra.

E assim, me regozijarei.

Com algumas notas de tristeza.

Ao chegar em casa

Ultimamente, tenho enfrentado um curioso dilema: chego a uma encruzilhada todas as noites. Ao regressar do trabalho, exaurido pelos milhares de estímulos imperiosos, busco um momento de solidão que me isole do mundo mendicante, da rapinagem emocional dos seres apegados. Desejo alguns instantes de paz e repouso. No entanto, também quero fazer duas coisas importantes. Procuro a leitura e a escrita, todavia parece que preciso escolher entre as duas por uma simples questão de tempo.

Cheguei à conclusão de que é melhor escrever. Assim, me livro de todo esse material tóxico que tentam me empurrar diariamente. É uma questão de sanidade, de sobrevivência, de libertação das teias pegajosas desta sociedade torpe e degenerada.

Minhas leituras me fizeram um ser obeso intelectualmente e agora preciso me livrar das gorduras prejudiciais que impregnam os conhecimentos avidamente devorados. O paladar, eu sei, se vicia em sabores intensos, mas isso camufla as sutilezas dos aromas e a delicadeza do gosto apurado.

Quero expurgar tudo aquilo a que dei guarida, na loucura coercitiva do quotidiano. Busco escapar das escassas e nefastas opções de entretenimento social.

Além das duas opções que mencionei (ler e escrever), também existe a possibilidade de conversar com um amigo, mas tudo passa tão rápido. O fim de semana se aproxima e, quando chega, já se extingue tristemente. São tantas impressões (isso daria uma música) que anseio compartilhar. Então escrevo. E infelizmente, tenho que terminar esse relato.

Já tenho outro tema em mente, mas deixo para amanhã

A iminência do fim

Gabava-se de sua autenticidade, mas o mundo jamais lhe pediu tal inutilidade. Deveria tê-la guardado como relíquia à sua própria sobrevivência. Reter o mistério diverge da falsidade. Pensou em si e descobriu que isso significava sentir, muito mais que pensar.

Desde criança, valorizava o império do sentimento, mas desviou-se. Sempre esteve certo em sua simplicidade pueril. O histrionismo e a verborragia o afastaram do centro. Decidiu se abrir à voz íntima, como quem apascenta ideias. Começava a perscrutar os escaninhos do coração.

Escrever poderia mitigar a dor. Calar, aliviar. Falaria se brotasse do coração. O espírito parecia etéreo demais. O coração, visceral. A verdade extravasa com vigor. A malícia busca atalhos na sutileza.

Estava no mesmo ponto de sempre, onde a intuição já advertira. Deveria ter crido nos olhos, nas palavras alheias, na consciência. Seu otimismo era apenas um desejo intelectual de alimentar a vaidade.

Na encruzilhada entre silêncio e palavra, se perdeu. Talvez tenha que seguir um fluxo que emana de si. O entendimento nunca se alcança. É um eterno devir. Precisa buscar a motivação para viver. O desconhecido o aturdiu. A iminência de um fim trouxe uma multidão de possibilidades assustadoras.

Feliz aniversário

Cada ano que corre pela minha lente ofuscada é um grão de areia que se esvai pela implacável ampulheta e que não tornará a ser virada. Tempo exíguo e irreversível. E no meu périplo pelo mundo, fui gradativamente relegando a poesia por pensar que ela era a perdição.

Empreendi uma jornada prosaica e destituída de beleza, imaginando que a realidade poderia me trazer algum juízo. Ledo engano, pois a acidez e o amargor da vida apenas contaminaram meu coração com o fel da desconfiança.

Caminho de retornar, eis o que restava. À minha frente, apenas um muro de ódio, ressentimento e tédio. E o único a ser devastado pela visão conspurcada sou eu mesmo. Resgatar o propósito, sem a ilusão pueril que dantes abraçava, é talvez um objetivo louvável. O autoengano, provavelmente, é uma fatalidade. Sendo assim, melhor se convencer daquilo que faça bem ao espírito. Quiçá a paz regresse nessa busca pela satisfação e das entranhas do meu inconformismo.

Não há destino senão aquele que forjamos, senão seremos moldados impiedosamente pelas engrenagens do mundo *ad aeternum*. Não é o tempo, mas a vida que urge como um pulsar que entumece o coração. Não quero que essa angústia abandone meu peito, mas que ela coabite com a vontade motriz.

Reconectar

Sempre escrevi para mim mesmo, mesmo que inspirado pelo mundo que me rodeia e pelas pessoas que compartilho a experiência da vida. Sempre um sussurro, um grito, um lamento. Como um náufrago que lança uma mensagem encapsulada dentro de uma garrafa, com a remota esperança da leitura. Quase como um animal, dormente em um casulo tecido pelos evos, numa perene metamorfose feita de silêncios e espasmos causados pela emoção. Assim, sempre me escondi na ilusão de uma transparência superficial. Mostrando e ocultando, espreitando e evadindo, fugindo e invadindo. Enfim, buscando a beleza eclipsada pelo quotidiano esmagador, perseguindo a inebriante dose de poesia. Tentei desvanecer e a poesia não me abandonou, indicando os perigos do intelecto tirano. Qual um bálsamo, mitigando as certezas que só traziam o devassar de uma tristeza despropositada, sem o escrutínio do sentimento que sempre me intuiu.

Não sabia como sair da abissal sensação e das circunvoluções de elocubrações estéreis, tentando forjar o saber conforme a teimosia do meu querer. Cri e descri e me fatiguei deveras. Mas esse sou eu, um coração que pulsa sofregamente e com esperança recalcitrante. Não. O medo nunca me afugentou. Encantei-me com as palavras e com os olhares, cativantes expressões do ser humano. Nunca me foram meros artifícios esvaziados e sim cores que habitam meu espírito. Quando o cansaço se espraiou em meu ser, percebi enfim que precisava transfigurar a resiliência em um intento forte. A paixão que desejava, um abrasador estado de consumação, na verdade estava engendrada nos meandros da minha singularidade.

Deixo hoje a lassidão, velha companheira dos anos, como algo que me fortaleceu para o agora premente. Afago esse passado e preparo o meu jardim.

Você surgiu, mas fui eu que me encontrei, nu no espírito. Enxerguei que o mirífico brilho esteve aconchegado em recônditos esconderijos do meu ser. E relembrei que estou comigo e pronto para reavivar esse amor sempiterno. Estou enfim enamorado pelo o que me causa a abrasadora centelha do porvir. Qual uma surpresa que só pode me trazer uma certeza benfazeja, assim me desfaço na ternura que pode transformar a minha vida e irradiar avassaladora.

Pueril

Questionando-me acerca de situações pretéritas da infância, lembro que sempre mostrei este lado pueril e que me domina ainda hoje, como se o resguardasse a despeito dos anos que pesam. Parece que sempre fiz questão de preservar tal identidade zombeteira, contrariando os seres sisudos que dominam o mundo com sua seriedade plúmbea.

A vida cobra a responsabilidade e nunca me senti apto a viver como foi convencionado. O imperativo da sobrevivência e da solidão atroz impôs que eu jogasse, atuasse ou dançasse, entretanto, um persistente incômodo ainda me assola. Entendo que a personagem é algo deliberado ou inconsciente, mas mesmo assim é uma máscara.

O mundo adulto é um incompreensível tabuleiro com regras idiotas, movimentos inúteis e trapaceiros que tentam burlar a todo tempo e custo. Sei que meu sorriso é um tanto abobalhado, deixando entrever uma aparente ingenuidade. Minha tristeza, no entanto, é uma crisálida pendurada nas trevas. Sou um misto de melancolia e alegria sincera. E a verdade é que sou um fracasso no quesito existencial.

A sabedoria que amealhei é vilipendiada pelos pragmáticos inveterados que tentam violentar a fôrma a caber no conteúdo. Aos poucos, fui me deixando contaminar pelo sopro pestilencial dos sofredores, ora me colocando num pedestal de mais desgraçado, ora de superior. Na verdade, faço parte da mesma família, com suas doenças e bênçãos intrínsecas.

Encarar a realidade ou forjá-la na mente, eis a questão que se impõe diante do inevitável. As respostas e sensações que derivam das nossas posturas são o nosso fardo. A consciência é o eterno farol. Voltando ao tema, posso dizer que não sei como me portar diante do mundo. Talvez deva aprender a como lidar comigo, para sofrer o mínimo possível a um ente humano.

O modo infantilóide de se portar é uma tentativa desesperada de chamar a atenção para necessidades negligenciadas, por conta do autoabandono sistemático. O desejo de ser servido, reconhecido e afagado gera uma postura subserviente de tentar agradar a todo custo.

A empatia em excesso é uma patologia que dissocia o ser e o afasta de seu cerne. Tenho mergulhado nestes estados perniciosos, assimilando teorias nefastas e caminhando para o abismo.

Preciso retornar ao mundo dos vivos, aprendendo a lidar com poucas premissas. A complexidade me tornou um ser tolo e distanciado de tudo. Preciso me livrar de todo o fardo inútil, desde as coisas, até as ideias e mesmo os singelos movimentos. Quem sabe a naturalidade volte para mim, com sua delicadeza própria.

Aquietando

A cada dia que passa, venho percebendo as vendas que eu mesmo amarrei em meus olhos. Meu orgulho diabólico, travestido de bondade, me impediu de ver os sinais cristalinos emitidos sistematicamente como flechas. Fui, por muito tempo, um idiota deliberado, sem me dar conta de que esse era o título mais apropriado à minha condição. Estive distanciado de minha alma, como um autômato que responde mecanicamente a comandos elétricos.

Equivoquei-me ao confundir a indiferença com qualquer outra coisa plausível e, com isso, permaneci alheio a mim. Não me preocupei com minha própria vida, como se não fosse um humano preso às teias existenciais e à animalesca condição de sobrevivência. Estive ocupado demais com o objeto de minha afeição, a ponto de não notar o autoabandono paulatinamente engendrado em meus escaninhos.

Qual cuidado dispensei a mim? Meus desejos foram ficando embotados e obscurecidos, por conta de minhas divagações intelectuais e inférteis. Sinto que, qual criança, preciso dar os primeiros passos novamente. O reaprendizado é mais árduo, porém proporciona dúvidas salutares.

Organizar a mente é uma das tarefas mais hercúleas. Para tanto, tenho me libertado dos pesos acumulados ao longo desta senda de ilusões persistentes. É a preparação para os términos, antes de recomeçar. Preparo a bagagem, pensando qual o mínimo que devo levar para encetar nova estrada. Quem sabe agora eu possa seguir com mais zelo minha intuição vilipendiada e retomar meus pendores atrofiados. Ocupar-me de mim mesmo: eis o que necessito.

Buscar pelo olhar de ternura e compreensão foi o que mais me desgastou. No momento, devo cingir apenas meu próprio calor, num movimento de autoproteção e fortalecimento. O foco que busco é um olhar para dentro, um respirar livre. Quero novamente lucidez e o egoísmo saudável que impulsiona à autorrealização. Destruir e reconstruir, por vezes, é ordem imperiosa advinda de rincões devastados. Com poucos elementos, tateando no escuro, mas respondendo com firmeza.

Prosseguir, sem negociar, aceitando unicamente minha singela crença. Nada tenho a perder. Se, porventura, cair o último pilar que me mantém onde estou, largo tudo e retorno ao porto, mesmo sem perspectivas.

Fiz sacrifícios que julguei importantes, mas que culminaram no aniquilamento do sentimento. Perder tempo é doloroso, quando não se assimila nenhum conhecimento duradouro. Procurei motivos para permanecer, quando deveria analisar as razões para partir.

Quando não se encontra o porquê de ir embora, talvez faça sentido ficar. Buscarei a segurança de uma fração de momento. Agir me impulsionará para possíveis soluções. Consultarei meu íntimo, mesmo que a dúvida espreite. Sigo com o necessário e sua consequente solidão.

A falácia da ação-reação

O mecanismo de análise mais sofisticado que muitas pessoas logram atingir é o da perspectiva limitada da ação e reação. O que antecede o fragmento visível tem por vezes aspectos insondáveis, quando e se alguém consegue observar com acurácia tal fenômeno. É admirável como alguns se investem do poder pleno de escanear o microuniverso em todos seus meandros intrincados e inabarcáveis.

O que aborrece é o tom convicto adotado, mas que não passa de uma pseudo-assertividade baseada em reles constatações de intelectos pueris. Pensam ter rompido a resistente membrana da aparência imediata, mas resvalam em visões morbidamente estereotipadas e que nem mesmo chegam a arranhar o símbolo.

As correlações quando não banais, recaem fatalmente em manuais sistematizados para cada mínima possibilidade idealizada. O bom senso parece já não resolver mais nada. A dualidade natural da existência deixa muitos seres aparvalhados ao buscar os extremos dos binômios, mas o resultado sempre está no meio do sinal da igualdade.

A magia também está inculcada nos seres mistificados e que associam situações mirabolantes aos triviais eventos quotidianos. A ciência também “regalou” uma multidão com a ingenuidade do controle absoluto das variáveis, logo nada escaparia do nosso julgo a não ser da perícia alheia sempre mais precisa e engenhosa.

A única reação possível para mim diante destes maníacos é o sono cataléptico. Dizem que o cérebro controla todo o corpo, porém quando ouço os narradores de cartilhas toda minha estrutura celular protege minhas sinapses contra estes dardos letais.

Quanta pretensão e presunção, supor que podem violentar as palavras a caberem no vaso incorruptível do abstrato. Mais importante é saber ouvir, porém certas coisas são inaudíveis para alma. Todo entulho que encobre a singeleza, todo o brilho que ofusca a chama calma e trêmula, todos os gritos que me distraem do silêncio. Quanto mais presto atenção ao que é dito, mais noto a avalanche de nulidades e absurdos, tanto ditos pelos tolos que se agitam, como proferidos pelos que vestem o manto emporcalhado das falácias.

De fato, quase não percebo o azo de trocar ideias, compartilhar impressões, debater discordâncias ou argumentar. Só há um vácuo entre os monólogos incessantes, um campo estéril de inteligência, um abismo que não traz nenhuma profundidade.

Não há ação, pois a maioria é arrastada. Não há reação diante da perplexidade. Em alguns momentos meus olhos começam a ficar marejados em face da emoção, mas logo interrompem seu curso diante da inexorável falta de resposta. Só um eco se propaga dentro desta caixa que me tornei. Pensar só me trouxe desconfortos, assim como quem começa a se coçar violenta e desnecessariamente.

Frases lacônicas

Muitos se sentem instigados pelo suspense das frases lacônicas, pelo mistério das palavras não ditas, pela incerteza que nos rouba a sensação de controle. A dúvida permeia o intelecto, sempre tão cioso de sua capacidade de abrangência, pois os sentimentos captam qualquer coisa de desassossego.

Querer ser compreendido é uma absurdidade, dar explicações pura inutilidade. Quem recebe a mensagem cristalina, estranha o fato desta não carregar nenhum traço de mistério. A incompletude gera, em si, uma estranha sedução. Desvencilhei-me de muitas tolices, mas que deixaram lacunas perturbadoras, um vazio que não permite que nada adentre em seus rincões.

Será, de fato, que é apenas um vácuo, onde não circula mais nada, ou estará repleto de algo que não sei precisar? Descrer foi minha maior descoberta, desde que me reencontrei parcialmente. Por enquanto, tenho que lidar com o tédio colossal da rotina despropositada, para buscar motivações que impulsionem minha existência.

Lembrar de tudo que até hoje cri, apenas me faz rir com amargura, assinalando minha estupidez recalcitrante. São placebos que consumi até ficar exaurido e dependente das muletas frágeis dos embusteiros.

Do mesmo modo que o discurso fantasioso teve o dom de enredar todos aqueles que outrora achincalhei, também caí nas mesmas teias do intelecto vaidoso e raivoso. As pessoas ficam encantadas com a possibilidade dos pensamentos mágicos e mitológicos se tornarem reais, porém, isso se trata de meras divagações alucinatórias e malsãs.

O raciocínio tenta a todo custo corroborar suas articulações, mesmo que caia em sofismas bizarros. Ser extremamente sincero, transparente e empático pode ter um efeito nocivo. Sim, eu sei disso. O sarcasmo me corrói e teimo em trazer minha opinião cáustica. Minha busca intrépida por explicações agora é um fraco suspiro que se esvaiu num rio de desalento.

Entender e ser entendido, meros subterfúgios para fugir de si. Mesmo assim, não há como se encontrar, de fato. Somos tão limitados que tateamos no escuro com base em um mapa gravado na mente de modo fragmentado.

Tento me recompor e retomar o raciocínio, para finalizar minha ideia. Escrever sobre um assunto tão obscuro me tirou o Norte. Ao meu ver, as frases lacônicas, assim como as longas sentenças, redundam num vazio abissal. Desisto de tudo e não acredito em mais nada.

Baldio

Tenho concentrado minhas forças em escrever utilidades, mas isso é apenas um inútil propósito. Talvez minhas palavras não sirvam nem mesmo a mim. Minhas críticas são apenas migalhas de certezas que ainda me trazem algum senso de pertencimento.

O silêncio pesa e me faz encarar o vazio que me cerca e a concretude da realidade esmagadora. Ser um trabalhador infatigável no ofício do auto-entorpecimento me faz sentir produtivo, ao mesmo tempo que me afasta do pensamento destrutivo. Não tenho conexões com nada ou ninguém, embora queira acreditar no contrário. Talvez tudo seja uma ideia que agasalhei no impenetrável recinto da intimidade inefável, em que o cérebro não consegue sondar.

O instinto de sobrevivência me move, nos subterrâneos do meu ser, ainda que eu teime em perseguir fantasias. Simultaneamente, o abandono me assombra com seu afã de liberdade. Terei que voltar o percurso para devolver todos os entulhos amealhados ao seu lugar de origem, ou devo simplesmente abandoná-los logo à frente?

Atualmente almejo ser mundano, pois nunca fui mais do que esta mera condição inexorável. Nem sei dizer por que recusei o hedonismo da realidade em troca da metafísica do sofrimento. A busca do impossível estava em meu coração, por conta da tolice da minha mente presunçosa. Aos poucos, a patologia do raciocínio me inundou com seu veneno inebriante, e fui cercado por pessoas igualmente adoentadas.

Tenho vasculhado o que sobrou de mim e ainda desconfio do que há de genuíno em mim. Estranho dizer isso, quando me vangloriava pela suposta autenticidade alicerçada em cima de absolutamente nada. Os sentimentos outrora me ocuparam apenas por força do intelecto tirânico e caprichoso. Se fui sincero comigo, nem sei dizer quando.

Percebo que recusei sistematicamente viver, em busca de ilusões que me dissociaram da realidade. Tenho tentado ocupar meu tempo lidando com os eventos e sua bruta evidência que repercute probabilisticamente.

Minha busca atual se resume a me sentir minimamente confortável comigo mesmo, mesmo sabendo que a fenomenologia da vida aponta para um processo decadente, desonroso e angustiante. Tanto o pessimismo potencializa meus sofrimentos quanto o otimismo me arrasta novamente para devaneios perniciosos.

Tento transmutar minha disposição e meu semblante desolado, porém a rotina que escolhi é intragável. E é dessa forma que termino meu singelo texto... em reticências amarguradas...

Monólito

Palavras, em quaisquer contextos, não podem ser devolvidas à origem. Se porventura plasmam a realidade tangível, gostaria de ficar em silêncio sepulcral para não desperdiçar esse manancial de possibilidades gráficas, signos da realização vertendo no vaso das formas.

Não saberia precisar a condição em que a alquimia das letras se converte em tijolos da realidade. Tampouco conseguiria afirmar que minhas gozações acerca do cotidiano conspiram em armadilhas cármicas.

Se há uma gestão espiritual a definir os rumos da pobre humanidade, deve se comprazer em criar artimanhas para punir meu ímpeto fanfarrão e imprimir em minha alma a seriedade dos altos píncaros evolutivos. Ou, quem sabe, o contrário ocorra, desfazendo meu semblante sisudo e mostrando a sapiência do humor.

Prefiro optar pela segunda hipótese, deixando a meu critério a dimensão dramática que dou à patética existência (recheada de maravilhas e desilusões).

Sempre tive aversão por representar uma personagem, o papel social a construir cercas e a sinalizar aos outros meus limites. Sempre tive vergonha de ser como sou naturalmente, mas nunca soube apreender a plenitude de meus recursos.

No fundo, um jogo é travado, no afã de exercer a experiência humana: uma máquina a conduzir a somatória de eventos vivenciados pelo espírito, a imposição sobre o eterno jogador. Como um sopro aprisionado numa garrafa, circulando dentro de um vasilhame emprestado para ser bebericado por uma divindade embriagada.

Tomo consciência de meus atos e vejo a torpe encenação a me enredar. Sinto que minha relutância em não querer participar desta sórdida novela fajuta é castigada com as torturas mais sádicas e pueris.

Estou quase consentindo em tomar parte no teatro da imbecilidade, mas disfarçando todo meu desprezo, como num laboratório sinistro de experiências sobrenaturais.

Meu mutismo será a marca dos sábios, e meu alarde será a expressão dos meus passos neste cenário de egos alucinados. Já nem sei diferenciar o impacto gerado por meus sentidos, seja na dormência reparadora ou no despertar fremente de experiências.

Outrora valorizava a sinceridade, todavia esta é a recompensa para poucos. Ao ofertar a tentativa desse valor supremo, o que ganhamos em troca é o escarro sanguinolento.

A verdade, assim como o legítimo gesto, deve ser cavada com as próprias unhas na terra endurecida dos erros e lavada com a água cristalina do desapego.

Não conseguimos lapidar essa pedra bruta, pois não há sequer beleza na sua impessoalidade existencial, apenas aspereza no seu resvalar implacável.

Palavras Desconexas

As palavras deixaram de me seduzir, como se um encanto tivesse sido quebrado e se dissipasse pelo ar. Apenas escuto meus próprios diálogos internos e não sei dizer ao certo se participo do jogo mundano.

Falo quase sem propósito, tentando me agarrar a algum elemento tangível. A coerência que tento transmitir é tão somente um desejo imperioso da mente, cuja supremacia fará sucumbir os últimos resquícios de humanidade.

O cérebro carrega em si compartimentos nebulosos e seu mecanismo de servidão cumpre desígnios insondáveis. Se há algo que ele não possa abarcar, não saberia dizer, entretanto a realidade acena para o caos inundado pela estupidez cotidiana.

A história, por sua vez, aponta para períodos que se alternam entre o descalabro e a falsa sensação de evolução. Não posso afirmar que o homem progrediu, pois seria uma mentira.

Minha descrença atingiu níveis alarmantes, ou talvez minha credulidade tenha rompido suas barragens e esvaziado sua cota de tolices. Gostaria de tecer comentários espirituosos, mas a sensação de ridículo me impede de prosseguir nesta empreitada.

A inteligência que me envaidecia outrora agora é motivo de vergonha. A vontade que tinha de ser compreendido se transformou em estupefação diante de inefáveis constatações. Tornei-me um mero galhofeiro a rir das próprias desgraças e da condição espúria do ser humano.

As palavras deixaram de me encantar, no entanto ainda tenho respeito por elas e não sou leviano em desprezar sua importância. Ao redor, tudo parece esvaziado, mesmo os sons parecem não querer dizer absolutamente nada. O barulho atordoa o pouco que sobrou do meu raciocínio e o caos embaralha minha visão ensimesmada. Continuo, portanto, enclausurado em mim e tudo sempre aconteceu dentro destes domínios de acesso íntimo.

A fenomenologia dos eventos nunca foi extrínseca, e sim reflexo de movimentações aprisionadas nos circuitos cerebrais. O desejo de falar e expor a sinceridade também em mim foi minguando, a ponto de perceber a inutilidade disso tudo.

Nesse momento, consigo apenas proferir palavras desconexas que, para mim, parecem fazer algum sentido, mas não saberia explicar para outra pessoa qual seria o significado.

Ocupo meus dias com tarefas e entorpeço meus sentidos nas brechas de tempo que me sobram. O imperativo do próximo evento me tolda a visão de algo mais abrangente (caso este algo exista). Organizo-me diante da minha escravidão consentida e sigo maquinalmente.

Quem eu era, não saberia mais precisar. Então, nem há o que recuperar. Por enquanto, a vida é algo despropositado, pois já me iludi demais.

Até aqui, não consegui estabelecer nenhuma conexão da existência com as palavras. Se há uma inteligência nos bastidores, está a sorrir zombeteiramente de nós. A tirania do intelecto nos traz uma confiança que termina na pungência do sofrimento e só nos deixa com um vazio e algumas palavras desconexas.


08

Ilhado em si

Chega um ponto em que o excesso de mundo satura. As vozes ao redor não nos atravessam mais, reverberam dentro como um eco distante e indiferente. O convívio esgarça, a empatia adoece, o olhar para fora já não devolve nada que nos devolva a nós mesmos.

Então, por instinto ou desespero, nos recolhemos. E não falo aqui de reclusão romântica ou sabática. Falo de um exílio involuntário, de um cansaço que se faz continente. Falo de uma ilha construída lentamente por ausências, frustrações, silêncios e expectativas que não se cumpriram.

Estar ilhado em si é mais do que isolamento: é constatar que, mesmo no centro de si mesmo, nem sempre encontramos abrigo. Há dias em que não nos suportamos. E noites em que dormir se torna a única fuga possível do espelho que insiste em nos mostrar.

Este capítulo nasceu desse lugar. Um lugar onde não há plateia, nem roteiro. Onde a intimidade é cruzada por cercas, e a consciência se debate entre a lucidez e o torpor. São crônicas que não pretendem confortar, apenas compartilhar o gesto de olhar o abismo sem pressa, sem filtro, sem desculpas.

Aqui, a solidão ganha contorno de linguagem. E o mundo, por mais áspero que tenha sido, ainda ecoa em cada palavra não dita. O poema a seguir é a embarcação que restou, prelúdio para as crônicas desse capítulo. Ou talvez o afogamento necessário para que a gente renasça, menos ingênuos, mais sensíveis (sem deixar de ter uma casca grossa) e radicalmente vivos.

Subiu para sua caverna Teceu para si um casulo Ao sair um dia com sua canoa Perdeu os remos e a bússola Naufragou fragorosamente E ao tentar viver consigo Fracassou vergonhosamente Ao tentar conviver com os demais Apenas demonstrou sua face patética De um ser miserável A andar apartado no planeta Onde pululam seres abjetos Contaminou-se com seu próprio olhar E porque viu a face esquálida Da humanidade pervertida Não conseguiu mais ignorá-la Perdeu o brilho em meio à multidão Acovardou-se no seio da poesia E não quis denunciar o feio Não lutou contra a injustiça Não disse o que queria Debateu-se dentro das cercas De sua intimidade incógnita Mas lá também habitava a verdade E para além de si viu algo Pairando em uma instância etérea Ouviu rumores que superava a realidade E a certeza que queremos enjaular E tomou um susto com aquela indiferença
Ilhado em si

Chega um ponto em que o excesso de mundo satura. As vozes ao redor não nos atravessam mais, reverberam dentro como um eco distante e indiferente. O convívio esgarça, a empatia adoece, o olhar para fora já não devolve nada que nos devolva a nós mesmos.

Então, por instinto ou desespero, nos recolhemos. E não falo aqui de reclusão romântica ou sabática. Falo de um exílio involuntário, de um cansaço que se faz continente. Falo de uma ilha construída lentamente por ausências, frustrações, silêncios e expectativas que não se cumpriram.

Estar ilhado em si é mais do que isolamento: é constatar que, mesmo no centro de si mesmo, nem sempre encontramos abrigo. Há dias em que não nos suportamos. E noites em que dormir se torna a única fuga possível do espelho que insiste em nos mostrar.

Este capítulo nasceu desse lugar. Um lugar onde não há plateia, nem roteiro. Onde a intimidade é cruzada por cercas, e a consciência se debate entre a lucidez e o torpor. São crônicas que não pretendem confortar, apenas compartilhar o gesto de olhar o abismo sem pressa, sem filtro, sem desculpas.

Aqui, a solidão ganha contorno de linguagem. E o mundo, por mais áspero que tenha sido, ainda ecoa em cada palavra não dita. O poema a seguir é a embarcação que restou, prelúdio para as crônicas desse capítulo. Ou talvez o afogamento necessário para que a gente renasça, menos ingênuos, mais sensíveis (sem deixar de ter uma casca grossa) e radicalmente vivos.

Subiu para sua caverna

Teceu para si um casulo

Ao sair um dia com sua canoa

Perdeu os remos e a bússola

Naufragou fragorosamente

E ao tentar viver consigo

Fracassou vergonhosamente

Ao tentar conviver com os demais

Apenas demonstrou sua face patética

De um ser miserável

A andar apartado no planeta

Onde pululam seres abjetos

Contaminou-se com seu próprio olhar

E porque viu a face esquálida

Da humanidade pervertida

Não conseguiu mais ignorá-la

Perdeu o brilho em meio à multidão

Acovardou-se no seio da poesia

E não quis denunciar o feio

Não lutou contra a injustiça

Não disse o que queria

Debateu-se dentro das cercas

De sua intimidade incógnita

Mas lá também habitava a verdade

E para além de si viu algo

Pairando em uma instância etérea

Ouviu rumores que superava a realidade

E a certeza que queremos enjaular

E tomou um susto com aquela indiferença

Elucubrações estéreis

A despreocupação não significa indiferença, mas sim o limite alcançado pelo cansaço proveniente da teimosia. Ao reclamar da impossibilidade de alterar os horizontes e da inevitabilidade do visível, ainda persiste certo fôlego masoquista para lutar contra as constatações.

Quando o silêncio começa a habitar meu ser, emerge a necessidade de observar com mais calma, tanto os eventos "externos" quanto as intempéries internas. Meu cérebro, acostumado e rancoroso, tenta suas últimas investidas para não perder a supremacia. Mas algo extemporâneo em mim permanece impassível ante os artifícios animalescos dessa máquina.

Sigo curioso para atestar se, por acaso, minha disposição de espírito prevalece frente às forças centrípetas do pensamento. Quero verificar se as condições de solo, clima e cultivo favorecem o crescimento da semente já plantada. Se eu for cuidadoso e não me preocupar, a vida se encarrega do cultivo.

Vejo que os animais não se preocupam, mas se ocupam ativamente, sem reclamar da natureza impiedosa, que também é provedora. Ser atuante não é tão fatigante quanto a extenuante epopeia mental que, afinal, não move sequer um átomo.

Quebrando a crosta

Só há um propósito: ser artesão de si. Moldar a realidade “concreta”. Forjar uma personalidade fluída. Preservar, no entanto, a essência do temperamento imutável.

Somos resilientes ao enfrentarmos as intempéries, mas flutuamos em sonhos rarefeitos. Certamente, há um preço por existir. E pela ousadia de ser.

Qualquer um que tome posição incomoda: por se elevar, por se rebaixar ou simplesmente por se igualar.

Persigo objetivos insignificantes. Modificar pequenos atos já é um desafio. Busco o caos com o mesmo afinco com que busco a disciplina. E assim a vida segue, lenta metamorfose irrefreável.

Sei que ando ansioso, tentando atrair os peixes para minha rede. Mas eles seguem as marés, os fluxos cambiantes. Minha parcela é pequena no grande concerto e preciso me consertar para seguir.

Nunca estive errado, exceto quando cogitei essa possibilidade. Estarei sempre certo, conforme meu arbítrio.

Aceito o que me rodeia e as inevitáveis teias que se entrelaçam. Não quero perder meu vazio, mas preciso jogar fora o que acumulei desnecessariamente.

Faxina mental

Alguns eventos marcam nosso psiquismo com o indelével sinal da dúvida. Bastaria deslocar alguns segundos na trama do tempo e talvez certas provações duras não ocorressem. O que nos impulsiona, irresistivelmente, como insetos em volta da lâmpada, rumo à catástrofe?

A mente atormenta-se diante dos sinais caóticos que não encontram uma concatenação plausível segundo a justiça terrena. Abandono essa ânsia por entendimento quando chego à encruzilhada do discernimento.

Ocupo-me com trivialidades, cercado por pessoas e sua azáfama cotidiana. Talvez eu tenha sido forjado para as pequenas coisas e suas insignificâncias. Minha cabeça parece que vai explodir ao tentar conter em si a grandiosidade. Foco na respiração e percebo: pensamentos desfilam em minha tela mental. Tolamente, insisti em me agarrar a esses elementos etéreos, sem notar o poder criador das aparentemente inofensivas descargas sinápticas.

Faço o pouco. Cansei dos esforços que não movem nem o ar, muito menos a ínfima partícula de um átomo. No máximo, posso tentar contemplar o automatismo de minhas funções biológicas, sem me apegar. Sustentar um pensamento talvez seja o único trabalho real que posso imaginar neste mundo.

Nada acontece fora de mim. Sou o que experimento nos vastos campos do meu interior. Sinto-me um pária, apartado por não compactuar com a falsidade dos desesperados. Prefiro a bênção da morte a apenas sobreviver sob a lógica da competição e da mentira.

São bilhões os jogadores intimados, e me recuso a jogar essa gincana bizarra e incompreensível. As implicações da recusa são o sofrimento e o escárnio. Desisto. Que as coisas simplesmente aconteçam. Querer é inútil. Mergulho na correnteza, para ver até onde vou descambar.

Pena incansável

Continuo escrevendo frases até o final da página, sempre reticente, vagando em abstrações, num devaneio infindável. Assim procedo por economia de espaço e também para esbanjar palavras, simplesmente.

Mas não as trato com desprezo: estimo cada uma delas. Alguns extrairão apenas displicência ou inutilidade, sem perceber quaisquer propósitos. Sinto-me bem assim, despretensioso, mas ciente da importância que há neste ato. Comunicar o sopro da singularidade, falar da ferida essencial, peneirar os metais preciosos dos momentos felizes.

Continuo escrevendo, até que os dedos cessem seu ritual persistente. É estranho perceber como os caminhos escolhidos pelas letras trazem ritmos, evocam imagens, iluminam pensamentos dispersos e geram ondas de sentimento. Parecia que essas mensagens não caberiam nas frestas tímidas do papel e achei que meu peito não suportaria o acúmulo das experiências que me sufocam.

Deixei os eventos desfilarem na retina e tentei, timidamente, confiar. Nem sei dizer o que me aflige, tampouco entendo o que me alegra com tanta singeleza. A complexidade que atingi me angustia, enquanto a simplicidade esbarra em mim com insistência e frequência.

Continuo escrevendo, para dar significado ao que vivo.

A estrada dentro da neblina

Parecia que a névoa turvava a estrada, mas era apenas a densidade do chão surgindo vertiginosamente dentro do elemento inconsciente e evanescente. Eu julgava andar sobre um tapete seguro, mas pairava no ar, sem saber me orientar. Não enxergava margens, bordas, o fim do horizonte fugidio, as fronteiras invisíveis, as cercas intransponíveis, os pontos do etecetera.

Emocionavam-me os sentimentos que irrompiam como chuvas internas; meus olhos cerravam herculeamente as comportas para não desaguar em fontes externas e seguir rumos subterrâneos. Meus pensamentos queriam vadear, criar vida própria, como costumam fazer. Mas ali estava eu, em minha eterna companhia, que nunca dava trégua aos embates da dualidade humana.

Uma força extrínseca tentava me coagir a abandonar o curso vislumbrado, por entre paragens cambiantes. Eram desvios, atalhos ilusórios, sinais atordoantes, imagens projetadas de um local incógnito. Ainda assim, um fluxo me guiava por um roteiro fantástico e me convidava a desfrutar dos vislumbres da viagem.

Nunca houve, nem haverá, um logradouro pré-definido. E não existe tarefa mais árdua do que manter uma direção deliberada enquanto se está distraído pela vastidão alucinante. A neblina havia se dissipado, mas eu acreditava ainda andar na escuridão. No entanto, não havia dado sequer um passo. Continuava sendo um principiante.

Ensaiei um movimento tímido. Comecei a caminhar, por mim mesmo. Aos poucos, notei que estava completamente só e falava sozinho. Então, passei a escutar o que dizia a mim mesmo. Nunca soube definir o que ocorria dentro ou fora de mim, mas os efeitos eram os mesmos. Era uma neblina. E eu sonhava com coisas tangíveis.

Decifrando a confiança

Um lago esconde suas profundezas sob a superfície de aparente placidez. Quem ousará molhar-se, para penetrar em seus mistérios de transparência e seus prismas de distorção?

Acima, o luar ofusca as trevas inamovíveis. Olhos espreitam na escuridão, olhos de curiosidade, medo e receio. Quem observa sente a presença perscrutadora, mas tenta ignorar o peso dos movimentos ardilosos de vigilância.

Fantasmas não conseguem empanar o brilho, mas tentam destilar seu veneno enfraquecedor. A lucidez é como uma lâmpada acesa para quem busca sua chama vivificante.

Sei que, por detrás das cortinas, as luzes estão apagadas; cochichos podem ser pressentidos. E por entre as frestas, há bisbilhoteiros. Ainda assim, tentarei ter a coragem de estar no palco e interpretar a mim mesmo.

Conheço de cor os argumentos dos críticos ferrenhos. Sei que, ao virar as costas, a hipocrisia será encenada para quem desejar partilhar da miséria diária. Um iceberg é discreto, entretanto sua imensidão permanece oculta.

Pulo do trampolim e afundo no abissal desconhecido.

A confiança que busco... não se apoia em nada além de si mesma.

Ontologia da ansiedade

Se tudo deriva do Uno, substância primordial e amorfa, de onde emanam todas as experiências e a aparência da materialidade, então houve um momento em que me particionei e me segreguei do restante.

Daí nasceu a angústia do devir, o imperativo de continuar, o empurrão do sagrado que me proíbe de estacionar.

Irritei-me com tantas ordens e com a ausência de explicações satisfatórias. Tentei esvaziar a mente, mas um medo visceral me dominou, exigindo a supremacia do corpo e lançando alertas assustadores. O hóspede em mim é, na verdade, senhor desta residência transitória, timoneiro da nau atormentada.

Preciso domar esse corcel intempestivo sem cercear sua sabedoria ancestral. Tampouco posso seguir criando monstros imaginários a partir de um futuro ainda velado. O pavor diante dos tijolos de um possível castelo lembra o medo infantil das sombras na parede.

Esse rumor da vida interior pode ser dor ou alívio, tudo depende do quanto conseguimos decifrar as ilusões. Quando me vejo ansioso e o corpo freme, é a alma que se agita como mar revolto, encapsulada em compartimentos de densidades diversas.

Quero emergir dessas águas turvas. Me resguardei demais, mas essa proteção não impediu que eu me confrontasse com o espelho.

O enxadrista atrapalhado

Minha cronologia sobre a Terra é o desenrolar de um épico repleto de fracassos e migalhas de certeza. Se, por vezes, a alegria estampa meu rosto, é por guardar em mim essa centelha inextinguível, na contemplação muda das belezas e na perplexidade diante do terror de viver neste planeta.

Uma ponta de tristeza me invade: a única prosperidade que amealho é a teimosia ferrenha do meu organismo lutando para sobreviver. Uma sombra paira sobre mim, lembrando a raridade dos momentos felizes, porém me agarro, com força, a esse átimo de brilho.

Quem sabe, num futuro indevassável, no pós-morte, eu me veja mais lúcido. Por ora, pareço ter levado um golpe na cabeça e vivo atordoado pela amnésia. Sinto-me como um empregado incumbido de uma tarefa sem instruções. Aqui triunfam os espertalhões e seu séquito de vilania. Eu, no canto, abobalhado, com o semblante típico dos derrotados reincidentes.

Indago qual lição deveria ter aprendido e os céus respondem com o mistério insondável do nada. Parece haver um código oculto nas entrelinhas. Na verdade, é meu espírito que sonha esta vida. Acredito tocar objetos, imaginar sensações, ser inundado por experiências. Se o objetivo fosse exercer controle, eu não estaria à deriva num barco de tão baixa navegabilidade.

Gostaria de receber um xeque-mate mortal... mas ainda há outro movimento. Enfim, estou vivo. E não sucumbi.

Parabéns para mim.

Areias fugazes

Os seres ditos humanos tentam, sofregamente, suprir suas intermináveis carências, pois não se concedem aquilo que tanto perseguem. Nessa busca por paragens estrangeiras, não percebem que outros também empreendem essa expedição perigosa. A indiferença ronda traiçoeira os caminhos de uma solidão impossível. Uns desabam na ansiedade; outros se petrificam na inércia. Escutam um velho disco, suas trilhas, arranhadas pelo uso contínuo e desleixado, embotam o som cristalino de gravações outrora fidelíssimas.

Em certo ponto, creio ter sido impelido a escutar canções que não me pertenciam. Na ousadia de espreitar as miragens da vida e vislumbrar o entendimento de mim mesmo, enganei-me com maestria, trilhando o caminho inverso. Acomodei os outros num quarto privilegiado da minha mente e dormi ao relento, na varanda. Tolamente, lancei ao léu meus impropérios, embora estivesse repleto de máculas causadas por meus próprios desatinos e por minha indiligência. Dei ouvidos demais aos doentes errantes e aos cenários do descalabro. Tornei-me um ser irritadiço e contaminei-me com as águas que sorvi das fontes alheias.

Lenta e sutilmente, comecei a me tornar aquilo que execrava. E meu repúdio virou alimento da estupidez dominante. Um alerta ecoou por circuitos internos, advertindo que o perigo se camufla com vestes inofensivas e às vezes habita onde menos se espera. Assim, recomeço minha trajetória. Domo meus pensamentos. Enfrento a indevassável escuridão das múltiplas dualidades do mundo. Equilibro-me entre a severidade de alguma disciplina e o temperamento arredio da criatividade, entre harmonia e caos. Um silêncio implacável invade minha consciência, pois esta já não pode mais dormir. Vigio meus passos. E só me preocupo com a pegada que fica impressa, instante após instante, nas areias fugazes.

Porteira numa trilha de barro

O derradeiro esforço de fechar ciclos é um luto e um parto. É necessário um renascimento simbólico para romper os grilhões do arbítrio relativo e os sedimentos da teimosia milenar. Por vezes, cristalizamo-nos no hábito de agarrar a dor e o prazer subsequente de reclamar dos sofrimentos. Escolher o bem tem seus atalhos e abismos nesta empreitada corajosa.

As mudanças, como as estações, não acontecem de forma abrupta, da água para o vinho, mas se escoam lentamente na morna indiferença. Repentinamente, um cansaço estranho se impõe, em confronto com uma disposição inabalável, permitindo uma vitória da lucidez. Uma vez definido esse estado soberano, sua manutenção se torna vital para a felicidade.

Tais guerras nos deixam dissociados e, paradoxalmente, submersos nesta suposta realidade. Em alguns momentos, assisto à vida como quem observa uma tela de cinema; em outros, sou convocado compulsoriamente a atuar numa trama tragicômica, sem script. Sou uma consciência que observa e altera paisagens. Percebo que sou monitorado e perco minha naturalidade quando os que me observam pertencem ao rol dos fantasmas quase vivos.

Paulatinamente, tento não me irritar com essas sombras sorrateiras e busco permanecer alheio à multidão corrompida. Renovo minhas forças. Restaura-se em mim uma parte intacta. Tenciono decifrar as imagens persistentes e já não me sinto tanto um escravo. Sigo o caminho que se apresenta. Atrás de mim, desabam as trilhas percorridas, desde que eu não vire o rosto para confirmar. Se eu não olhar para trás, sigo um curso.

Rasgando os véus

Perguntar ou repetir o que já é amplamente sabido revela apenas o desejo de escapar do brilho lancinante das constatações. Afastar o olhar não apaga o traço de nitidez que sobra altaneiro.

Será que ninguém vê esse movimento da luz, desenhando a continuidade eterna do agora? Apegar-se ao relance sem entender a transição ou a integridade do quadro é como tentar abarcar a completude com um fragmento.

Às vezes, a intuição atravessa as cortinas e obtém vislumbres da imensidão, janelas de possibilidades. Lutamos contra essas impressões e criamos uma armadura quase impenetrável, que nos insensibiliza tanto diante dos golpes externos quanto dos pressentimentos.

A ilusão de transparecer o que nos aflige não impede que sejamos descobertos em nossas intenções pueris. Há quem insista em manter essa farsa com atitude ridícula, aproveitando-se das nuvens escuras que empanam a limpidez dos intentos.

É o mesmo de sempre: falta de coragem, preguiça mental, correntes que nós mesmos forjamos. Quero voltar a ser ingênuo, livre das malícias pretensiosas, limpo deste convencimento distorcido.

Uma trilha de retorno se forma, para que eu retome o que esqueci no desprezado caminho de ser ou perdido nos descaminhos do querer.

Miragens da segregação

Conectando pequenos pontos, tento descartar os borrões que distorcem as imagens reveladoras. Acumulei cartilhas que explicam sistemas contínuos e regulares, mas sobre forças indevassáveis e indomáveis.

Interferi no fluxo natural e desalinhei aquilo que viria suave e inevitável. Indaguei-me sobre a confiança em mim mesmo e no que compete aos outros. Tentei dividir o indivisível. Tudo se entrelaça, desde os pequenos elementos até as grandes estruturas da concretude.

Algumas partes se harmonizam numa organização útil; outras, são agentes destruidores ou reconstrutores. Há também os que mantêm o que foi firmado pelas leis antigas. Eras se dissiparam na trama do tempo, e muitos saberes se perderam.

Diante da confusão gerada por teóricos reinvenções, somos ofuscados por lanternas alucinantes. O saber é disponível a todos, incrédulos ou crentes. Ninguém detém o monopólio do conhecimento.

Abri compartimentos trancados pela teimosia e ri do esforço inútil. Sondo, aos poucos, o que realmente desejo, além dos desejos falsificados.

Senda estreita

Aquele que deseja adentrar a senda estreita do bem deve fazê-lo em meio à avalanche do mal que prolifera neste planeta. Um impulso o impele irresistivelmente, ante a impossibilidade de contrariar a correnteza que o move. Por mais que tente camuflar sua bondade com ironias, olhos translúcidos denunciam forças superiores.

Busca explicações para suportar seu destino, para compreender mistérios intricados e descobrir se há, de fato, propósito no ser humano. Tenta extirpar de si o personalismo e a vaidade de acreditar que há em si um cristal delicado e inquebrantável. Violenta-se em vão ao cobrar respostas longínquas, quando em si mesmo guarda constatações singelas.

Sua luta parece ser pelo resgate de domínios perdidos desde eras remotas. Caem pétalas durante seu exílio, assim como os véus dos corpos que lhe sustentam a existência. Em diversos momentos da travessia, duvida se não vive um sonho, ou se manipula cordas à distância.

Neste momento, guarda um pressentimento: precisa desafiar o que acredita. Uma estranha calma se apossa de sua máquina carnal e as distrações se tornam golpes estrangeiros. A fragilidade das paredes se revela com mais evidência. Uma realidade maior desponta com raios ofuscantes e seus olhos se acostumam, lentamente.

Antes, folha ao vento. Agora, barco com leme e timoneiro. Escolhe alguns itinerários. Aproveita a viagem. Passa esgueirando-se por trechos sinuosos. Interrompe o curso momentaneamente para recobrar o ar. Continua como artífice dos caminhos etéreos. Atravessar tais passagens requer coragem. Os guias que bradam suas orientações e balançam tochas desaparecem ao serem convidados a acompanhar a empreitada. Apenas um pode atravessar a senda, se for um com o Todo.

Arquiteto de encruzilhadas

Não há trabalho neste mundo ao qual o ser humano mais se dedique do que sabotar a própria felicidade. Uma força colossal é aplicada na contenção do fluxo de autorrealização. O impulso natural de expansão é comprimido até tornar-se partícula mínima, instável como uma bomba atômica.

É um esforço sobre-humano não agir conforme a natureza íntima. Os outros animais não perseguem inimigos imaginários nem se agridem sistematicamente, o que evidencia a teimosia antinatural e patológica do homem. Esse estado de coisas criou um desespero surdo, coagindo todos à manutenção de valores deturpados, por medo de perder a ração diária.

Buscamos o entorpecimento ininterrupto, para evitar o confronto com nosso perpétuo hospedeiro. A máquina carnal é empurrada, mas o automatismo imbecilizante pisa no freio. Despendemos imensa energia e somos bem-sucedidos em fazer prosperar nossos próprios erros. E, se conseguimos isso, somos mesmo co-criadores da realidade. Podemos, portanto, pintar os mais diversos cenários.

Ao mirar para paisagens camufladas pelo descalabro, nossa visão se prende à atenção que dispensamos. Constatando as calamidades morais e os seres aturdidos pelos tumultos, tornamo-nos irritadiços e impacientes. Mas ao perceber essa transfiguração pessoal, desviamos ligeiramente nosso olhar raivoso e apegado.

Tropeçamos em obstáculos, amaldiçoamos inutilmente as pedras e voltamos os olhos para os passos íntimos que percorremos. E então percebemos: os tijolos assentados nesta trilha só existem no caminho que é nosso e de mais ninguém.

Falando com os mortos

Gostaria muitíssimo de me comunicar com os vivos, os ditos encarnados, mas até hoje só fui bem-sucedido em falar com almas penadas. Pouquíssimos foram aqueles com quem consegui trocar palavras inteligíveis, enquanto a multidão retocava a própria maquiagem fúnebre. A carência por compartilhar o universo particular, num mundo onde as pessoas andam com as orelhas tapadas, gera milhões de monólogos dissonantes. Estou cansado de ser chato e agir como imbecil. Talvez devesse assumir um semblante grave, mas sou um fanfarrão camuflando olhares de argúcia. Faço tão bem esse papel de idiota que acabo convencendo a mim mesmo.

Não há espaço para mim neste planeta, onde prosperam os cínicos. Quem me dera houvesse algo além do perpétuo “aqui e agora”, sempre fugidio, ou que eu pudesse enxergar as linhas do invisível. Possivelmente, sou eu o morto tentando contato com esta dimensão entorpecida em seus afazeres. Qualquer um que tente desmascarar os embusteiros é violentamente achincalhado. Não se pode acusar ninguém por andar nu, mesmo que esteja moralmente adornado com os véus tecidos pelos tácitos acordos. Se minha vida dependesse de fingir que recuperei a fé, feneceria de forma patética.

Quiçá a sobrevivência me arranque do meu pétreo desânimo e me obrigue a compactuar com essa trama elaborada por farsantes profissionais. Escrevo de forma autopsicográfica, com dificuldade. Não por falta de ideias, que brotam em profusão, mas por ausência de propósito existencial. Todos os meus esforços parecem inúteis. Driblo a morte na esperança de colher alguma explicação ao fim da jornada. Se há uma emanação criadora, mantenedora desta vida na superfície do planeta, desconheço as razões para que preserve minha mísera existência.

Entre todas as frequências e dimensões possíveis, há sempre falanges espreitando para me ludibriar. Talvez o plano do Éden tenha falhado e eu, distraído, me perdi no rebanho. Agora convivo com o suplício de ser patrulhado pela minha atormentada consciência. Não sei como resgatar a simplicidade. Tampouco como romper as algemas que me prendem à repetição. Essa seria uma lição valiosa, se eu não fosse tão estúpido.

À deriva em um mar de possibilidades

Enquanto as ondas me arrebatam, sinto-me desconectado de todas as demais coisas. Se assim não fosse, seria transpassado pelo vácuo e tornar-me-ia também o elemento água, esse ímpeto que eleva e sacode o marasmo da existência. Sigo caótico dentro da rotina esmagadora que inventaram com o intento de limitar e encarcerar.

Já não sinto tanta raiva dessas entidades que cismam em exercer seus poderes temporários. Há um amor que me inunda por dentro e sua soberania se impõe sobre esses transitórios exercícios de força. Sigo propósitos que foram esculpidos delicadamente em meu ser. Sou um serviçal temporário, à disposição dos anseios da minha alma.

Se acaso for tragado pela volúpia da morte, saberei que ofertei o melhor de mim ao ciclo incansável das noites e dos dias. Escrevo frases que parecem não advir do meu império, mas, sendo fragmento inseparável da criação vasta, aproveito para trazer minha marca original a este episódio de mesmices. Não posso deixar de seguir estas marés. Sou tragado por profundidades que me atordoam. Sei que devo exercer alguma parcela de controle nesta faixa estreita de atuação. Já não me oponho aos desígnios estranhos. Minha rebeldia resta apenas como marca da singular presença.

Volto a pisar este chão e a pertencer ao mundo suplicante dos afazeres diários. No entanto, vislumbro as infindáveis possibilidades reservadas aos filhos da eternidade cíclica. Nunca serei destruído, exceto pela timidez e pelo medo. Minha gratidão emerge de fontes primevas, e sorvo, calmamente, o cálice das aventuras que se aproximam.

Leio os sinais escondidos na rotina e já não sinto a voracidade de pertencer a lugares ou possuir coisas e pessoas. Sinto um encanto, misto de tristeza, próprio de quem não pode perder absolutamente nada, senão a si mesmo, pelo descaso recalcitrante. Aceito o curso temporário e escolho, com firmeza, aquilo que tracei para mim mesmo em dimensões além deste tempo fugaz.

Marionete com surtos de vontade

Não consigo completar uma frase, formular uma pergunta, muito menos organizar as ideias que jorram de fontes subterrâneas como se fossem tangíveis. Acelero meu carro com o coração oprimido. Ligo o rádio, mas o dial não fixa em frequência alguma, como se pedisse sintonia com algum canal íntimo.

Tornei-me um ser estranho, inacessível a mim mesmo. Aos olhos dos outros, mais distante ainda. Vago por paragens incertas. Pareço disponível... mas é miragem.

Não posso ocultar a luz, por isso disfarço minha dor no escuro que guarda todas as cores. Admiro pausas e pequenos vislumbres que enfeitam o tedioso cotidiano. Nenhuma surpresa positiva, apenas o desafio contínuo de encarar os embaraços e derrotas. Desconcertado, divirto-me com os jogos estúpidos programados pelos mestres da aleatoriedade, pois sei que, em algum momento, vencerei. Não posso dizer o mesmo da vida, a menos que o objetivo seja encarar com dignidade as humilhações dos exaltados imbecis.

Como é difícil acreditar em mãos invisíveis. Minha intuição briga com minha razão hipertrofiada pelos exercícios do intelecto. O xadrez da existência termina sempre com xeque-mate dado pelos cínicos e insensíveis. Não antevejo jogadas ou estratégias, apenas o maravilhoso inusitado. Peço esclarecimento. Mas quem poderá ofertá-lo? Só há um caminho: o que sigo. E não consigo desviar da minha própria estupidez ao percorrê-lo.

A noite se aproxima. E eu gostaria, apenas por hoje, de não pensar em nada.

Eterno peregrino

Em todos os lugares onde estaciono meu veículo carnal, sinto-me peregrino e minha alma reclama por paragens melhores. Um desassossego ronda meu cérebro, como vocábulo ausente diante de uma impressão inefável.

Minha dualidade imanente gera um ser esquizoide e débil, dividido entre o corpo etéreo que anseia pela morada original e a carcaça material que se arrasta como escafandro. Talvez seja bom manter essa sensação latejante, pois ela me torna melhor observador diante das miragens do mundo.

Arranho-me constantemente nas teias das percepções fugazes. Ao contemplar paisagens mutáveis, aproprio-me delas com um apego estúpido, fixando o fugidio como eternidade. Os sentimentos me aprisionam com imperativos repentinos, ora súbitos, ora sorrateiros, que corroem lentamente as estruturas sólidas.

Por isso sou estrangeiro em qualquer situação ou ambiente. Um amontoado de corpos e vontades, faminto por sabores que desconhece. Quando encontro repouso e desperto, o tempo já seguiu impessoal e gélido.

Não se trata de compreensão, nem de mim, nem do outro. O sol arde minha pele como lembrança constante do inescapável cenário em que estou. Ignorá-lo me ensimesma; cismar sobre ele me fascina. Equilibrar essas forças é a alucinante e irrecusável aventura de viver.

Excentricidades de um Demiurgo

Ver as coisas de forma holística não é possível se tentarmos juntar os cacos deste vaso, pois não há, de fato, "partes", sequer nossa individualidade, ferozmente defendida por blindagens psicológicas, permanece íntegra. Pensar sobre essa imensidão causa uma vertigem peculiar, pois o pensamento não cria nada além de quadros solitários. Acompanhando essa atividade cerebral, segue uma onda que altera os panoramas eclipsados pelas aparências de concretude, linearidade e sentido.

Devido aos inúmeros mecanismos autômatos em nossos sistemas corporais, em qualquer nível, parece que fomos moldados para agir sem refletir. Mas a razão argumenta que esses mecanismos são sistemas de regulação e manutenção, criados para que não interrompamos o fluxo que sustenta a coesão de tudo. Assim como a dança dos átomos e as órbitas dos planetas, seu funcionamento é incessante. Se um só elemento parar, todos os outros cairão, do macro ao micro.

Há quem veja nisso apenas escravidão, subjugação a ciclos cíclicos inquebráveis de uma divindade criadora. Mas poucos perguntam por que não é permitido apertar o botão de desligar. Quando adentramos esta experiência densa, sufocante e ofuscante, esquecemos a herança divina, a fagulha de potencial criativo. Parar a vida pulsante seria recusar a dádiva, renegar a postura amorosa de quem extraiu de si mesmo a criação sem perder sua completude. A onda se destaca do mar, mas fora dele, não é reconhecida.

A suspicácia do cronista

Escrever crônicas é um processo crônico que gera, no escrevente masoquista, a patologia da suspicácia generalizada. O cronista, seja lá que nome se dê a esse ser pretensioso, desenvolve uma suspeita doentia e enxerga farsa até por trás de uma flor, imaginando que o Criador a tenha feito como miragem.

De minha parte, me considero um excretor. Às vezes sofro de desarranjo verbal, incapaz de conter as palavras. Escolho e calculo frases com precisão, mas ainda assim pareço estar preso diante de uma pintura, acreditando piamente tratar-se da realidade última. Viro o rosto e percebo: estou isolado em conjecturas tolas.

Desconfiar é útil para não ser um eterno idiota; ao mesmo tempo, acreditar é condição *sine qua non*, mesmo quando a realidade reluta. Gostaria de ser esperto, transmitir ares de sagacidade, mas não me encaixo nem no culto à "malemolência" nem no disfarce do "politicamente correto".

Ter sempre algo a dizer ou escrever é maçante, especialmente quando meu psiquismo exige pausas forçadas, resultado do uso abusivo. Hoje, escrevo sobre o nada e o prazer de tê-lo como companhia.

Talvez o melhor seja comentar sobre as piadas do cotidiano, que escondem sabedoria ao desmascarar os tacanhos que se ofendem com elas. Vamos escarafunchar os pensamentos lançados ao léu pelos pseudo-intelectuais. O que sobrar entre as bugigangas teóricas pode, enfim, ser de grande valia para a funcionalidade da vida.

Sobre o inefável que me sufoca

A imutabilidade das provações que recaem sobre mim me traz a enfadonha sensação de impotência diante das intermináveis vicissitudes. O riso que estampa meu rosto é apenas o reflexo da repetição dolorosa da rotina, sempre camuflada sob novos estímulos. Sarcasmo e ironia são minhas únicas companheiras nesta jornada dos absurdos. Agora entendo, superficialmente, o significado da palavra resignação. Ainda assim, devo continuar atuante no mundo ilusório do fazer.

A visita esporádica da arte salva meu dia, impede que eu me petrifique sob o olhar robotizado das multidões. Minha sensibilidade permanece a serviço da turba animalizada. Cada um tenta morder um pedaço da atenção que ofereço. Não há paz. Nem possibilidade de aprofundamento. Querem escravizar minha alma, em vão. Sou liberto de toda opressão que minha percepção alcança. Bendigo, por contraste, a ignorância dos rios, suas curvas insinuantes na medida em que navego.

Às vezes, um desânimo profundo invade as cercanias do meu ser. Busco, então, o silêncio. Economizo frases, movimentos, intenções. Não suporto mais oferecer esclarecimento aos náufragos, quando eu mesmo sigo desorientado, à medida que penso ter encontrado pontes ou sentidos.

Busco, em meio ao caos quotidiano, alguma diretriz. Um esboço de propósito. Mas ninguém é capaz de clarificar sequer as trilhas obscuras. Essa falta de perspectiva se estende ao infinito, por todos os quadrantes do universo em expansão.

Acostumado que estou a jamais ser compreendido, alimento patologicamente essa tola pretensão. Oculto pensamentos sob o traje de “bobo da corte”. Lamento a inteligência que me aparta, até dos que ostentam epítetos de sapiência. Bato contra os muros internos da minha personalidade tosca. Mas a solidez da estupidez desafia qualquer fraqueza que transborda. Termino em reticências... pois ainda não aprendi a demolir os resquícios teimosos da esperança.

Os agraciados pela ignorância

Certa vez ouvi a frase: “Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos.” Fiquei abismado com a ideia de que poderes são despertados nesses privilegiados, como se fossem super-heróis que, após uma vida de mediocridade, ganham habilidades de semideuses.

Enquanto isso, sigo sendo alvo de bullying por divindades zombeteiras que se divertem com minha ridicularização íntima. Talvez esses escolhidos sejam tábulas rasas, aguardando inscrições de uma instância superior. Acredito numa inteligência por trás de tudo, mas, aparentemente, ela está de férias. Brahma, segundo os hindus, descansa após sete evos de criação.

Então não sou escolhido por ser capacitado, e sim os despretensiosos, agraciados por lampejos mágicos de fé cega? E os que se esforçam são descartados no ralo cósmico, por não pertencerem ao grupo dos escolhidos? Há algo demoníaco nessa lógica, se é que há alguma verdade nessa patifaria celeste.

Se possuo livre-arbítrio, por favor, deixem-me usá-lo sem interferências nefastas. Se alguma entidade está favorecendo meu trânsito neste mundo de descalabros, peço urgência, antes que eu parta desta morada decadente.

A vida, afinal, seria apenas um prelúdio para um desfile de espectros sublimados? Não desejo mais admoestações punitivas. Só peço ser atendido. E, se o for, prometo silêncio, um quase mutismo, para agradecer o milagre de um único pedido atendido.

Andando no meio dos lúcidos

Imensas forças habitam minha tosca morada e intentam extravasar pelos poros, exsudando o éter inaprisionável. Uma tensão antiga busca se externalizar no impulso criativo da ação irrefreável. Milhares de estímulos me dispersam entre brumas de ilusões persistentes, milagrosas e tangíveis.

Irradio poesia na multidão de vibrações prosaicas da realidade. Proferir discursos cômicos me parece mais nobre que os vociferantes. Destilo ironia como homeopatia contra a estupidez. Alguns tentam formalizar o tom sisudo para sacralizar a ajuda. Outros fingem amadoramente o auxílio em nome de um ideal vazio.

Prefiro o humor como refúgio da inteligência, ao invés das lamentações improfícuas. Não posso deter as investidas da maldade triunfante, todavia empunho meu escudo e a espada flamejante da palavra.

O olhar, também, não oculta o enfado nem o medo raivoso. Minha sina é continuar com meus propósitos inquebrantáveis. Busquei respostas. Agora que suas manifestações se apresentam pungentes, meu organismo se adapta, como um corpo combalido diante da revelação.

A princípio, esbravejei contra o vaso hermético da verdade parcialmente revelada. Quando a mensageira chegou, fiquei atônito. Sem compreender. Neguei com veemência. Depois, aceitei a possibilidade absurda... e sucumbi ao cansaço.

Quis despejar sarcasmo sobre o rebanho domesticado, mas foi em vão. Esgotado, aceitei.

Hoje, apenas sorrio. Desatinado. No meio da solene reunião dos “lúcidos”.

Queria estar errado

Não sei como me portar diante da dádiva. Um sorriso bobo denuncia minha inabilidade. Fico ansioso e tento, em vão, banir minha descrença repetitiva. Busco sentir-me merecedor ao esperar uma porção do banquete, mas parece que só me cabem as sobras putrefatas. Sinto vergonha da virtude que amealhei, frequentemente escarnecida pelo séquito dos imbecis. As probabilidades riem da minha expectativa. Meu coração bate num compasso de violência, atravessando minha carcaça animal. Meu cérebro pede trégua diante da sobrecarga de problemas insolúveis.

Devo ofertar minha cota de sacrifício, esconder a alma por trás do semblante robótico. Pedem minha anuência no contrato da hipocrisia e que eu dispare dardos de palavras ocas contra alvos invisíveis. Se não acreditam que participo, de bom grado, da torpeza desses jogos, sou descartado como esgoto. Já não aguardo ajuda. Só mãos ocultas podem me socorrer, quando eu estiver distraído. Apenas o elemento intangível e as fontes subterrâneas podem me reconduzir. Ouso ignorar a fé e a sorte, mas uma multidão grita alucinada, tentando me alimentar com essa ração vaporosa.

Um dia, sucumbirei à solidão, pois não sei conviver com as outras crianças do playground. O mundo cobra minha veracidade na atuação, mas não quero aplausos, nem lágrimas da plateia. Deveria escolher sabiamente o foco ou a dispersão, mas as chances somem assustadas como pássaros observados de perto. Reconheço: nada sei sobre mistérios. Tudo está posto à mesa. Queria uma estrela que me guiasse na escuridão, como todos desejam e encontram, em qualquer esquina. Mas o brilho interno não ilumina as trevas em que caminho e recuso-me a comprar lanternas dos embusteiros.

Minhas reações já não têm sincronia com o que foi milenarmente ensaiado. Sou desajeitado. Perambulo anônimo. Desconfio de coisas como destino e sortilégios. Se todos os empecilhos forem eliminados, talvez o sucesso se torne uma remota possibilidade. Se há sim e não, os dados da aleatoriedade podem me favorecer. Mas há um brincalhão me sabotando insistentemente e talvez, só talvez, ele seja eu.

Batendo à porta

Sou apenas um serviçal, subalterno vilipendiado. Serve aquele que tem algo a oferecer; ordena quem não se sente capaz. Há uma interdependência, uma complementaridade entre as pessoas, porém não vejo um gesto de reconhecimento, apenas máscaras de brilho falso e olhares opacos à espreita. Sinto-me um manipulador impotente. Só sei agir. Tenho vergonha de pedir a gratificação que julgo merecer, por medo de negarem ou me enganarem. A dúvida é difícil. Arriscar, perigoso. As palavras querem escapar da minha boca em tom de ameaça. Temo ser descartável, mas sei do meu valor.

Preciso flertar com o perigo. Ousar perder. Apostar no improvável. Minhas certezas já ruíram, mas preciso tentar. A esperança, de um lado, é patética. A pretensão, do outro, é cômica. Parece que alguns são favorecidos apesar das virtudes que não possuem. Queria uma oportunidade. Sei que sou impaciente, mas gostaria que ela viesse nesta vida ainda. Por ora, meu único desafio é dominar a arte da resignação diante da humilhação. Encolho as palavras para que caibam no meu peito confrangido. Dizem que tudo está em minhas mãos, mas a vida é como areia que escoa na ampulheta imensurável. Não tenho controle sobre absolutamente nada. E, ainda assim, teimo em achar que posso influenciar a intricada teia de eventos ilógicos. Amedronto-me diante da acomodação. Mas todos os meus esforços parecem se esfarelar diante dos olhos sedentos por conquista.

Ninguém parece enxergar meu valor. Talvez, um dia, eu consiga tocar um fragmento do meu propósito, quando desistir de tudo. Abandonar talvez seja salvação. Perder-se... quem sabe, iluminação?

Sinto-me esvaziado. Escolho as palavras, mas elas não me trazem alento. Não consigo colocar em prática nada do que acredito. A lentidão dos processos me atordoa. A vertigem da queda me alucina.

Espero que o cansaço freie minha presunção.

Insisto em não aceitar a realidade e sofro inutilmente. O segredo talvez resida no desapego que sucede o encanto, e depois mais um ciclo, e mais outro. Logo terei que acordar. E o mundo continuará implacável. Quero serenar minha mente. Mas minha alma... que ainda se debate.

Médium de si mesmo

Numa era marcada pelo charlatanismo generalizado, com raros exemplos de esforço e honestidade intelectual, vemos pessoas "estudando" e sondando fronteiras espirituais na busca por comunicações esclarecedoras (ou não). Penso que todo cuidado é pouco.

Se esses espíritos já foram, um dia, entes encarnados como nós, qualquer mensagem ainda passa por filtros e é deturpada pela cretinice humana. Portanto, o melhor é checar por si mesmo!

Fenômenos que mesclam duas entidades tornam a individualidade algo confuso, tal qual a multidão ignara que se mistura à manada e absorve seus eflúvios mentais. Ninguém sabe onde um começa e o outro termina, nesta suruba cósmica e material.

Da minha parte, quero balancear e satisfazer três "partes" essenciais: corpo, mente e espírito. Qualquer privilégio ou descuido em uma delas causa nossa ruína e é fator de inépcia.

Decidi que quero estabelecer contato apenas com minha alma, deixando a porta fechada aos inconvenientes tangíveis e à multidão astral mendicante. Serei, a partir de agora, médium de mim mesmo. Exercitando a mediunidade de incorporar a mim, no genuíno ato de tentar ser original e natural.

Estarei bem no meio de algum lugar. Residente da única morada que não devo abandonar. Quando e quanto deixei os outros me invadirem, foi isso que drenou minha alegria de viver. Preciso expulsar esses demônios astrais, devolver os entulhos mentais e voltar a viver minha única e possível realidade. Companhia perpétua: assim considero minha existência teimosa.

Desagregado e dormente

O horizonte já não é perspectiva. Estou ancorado numa ilha, e só a tristeza me resta como último reduto. Fujo para um mundo onde apenas poesias e melodias conseguem alijar as coleções inúteis que adquiri neste universo de embusteiros.

De minha parte, não quero ludibriar ninguém e amo sofregamente aqueles com a mesma ingênua pretensão. Meu medo de perder a partícula de felicidade que amealhei enfraquece diante da eminente possibilidade de fenecer e, talvez, conhecer enfim o propósito que me move nestas paragens estranhas.

Vilipendiado e incompreendido, sigo um rumo solitário. Apenas alguns sorrisos mitigam minha dor. Meu choro deságua incógnito. Os outros personagens só captam meu sorriso bobo e improvisado. Sinto uma inefável sensação e quase não consigo me expressar com coerência.

Queria poder agir contra o que acredito, mas é impossível. Lá fora, o sol desponta timidamente, e eu fico trancado em casa tecendo minhas próprias teias de ilusão. Não quero mais explicações alheias: tudo me parece um vácuo a tragar as experiências dos segundos que se esvaem, repetidamente.

Frequentemente reparo nos meus passos e percebo minha respiração discreta. Quem me observa agora? Gostaria de andar distraído, sem ser notado, sem carregar essa coisa que chamam de consciência. Ao largo da estrada, um enigma me afronta e minha fronte pende sobre o abismo. Sei que tenho um coração, um guia nestas trevas densas.

Não pedirei ajuda. Se houver quem consiga me enxergar, lerá minha alma com a serenidade necessária para me resgatar da nulidade em que me encontro. Resta-me tanger as fibras do meu ser, para despertar ou adormecer. Já não sei. Uso as últimas reservas de força para descobrir se ainda pertenço ao mundo dos “vivos”.

Da imutabilidade

Um tema sobre o qual não saberia discorrer apenas com o intelecto é a amizade. Dizem que a única coisa que podemos escolher são os amigos. Mas eu diria que nunca escolhi nenhum deles. As coisas acontecem naturalmente, por afinidade, sem começo claro, sem fim definido. Se uma amizade chegou ao fim, é porque talvez nunca tenha existido de verdade. O tempo escoa, mas não esvazia os espaços ocupados no peito.

Prezo muito a amizade, embora seja tímido para exaltar sua importância, ou para receber o afeto ofertado despreocupadamente. Certamente, uma parte muito grande em mim é sentimento, encolhido entre as paredes de muitos pensamentos. Tudo me leva a crer que não há esforço consciente capaz de construir pontes tão sutis, senão a leveza de ser quem se é. Não meço palavras e sou aceito. Não prendo o sorriso… e esqueço o resto.

Quando, numa mesa, a conversa se torna séria e os semblantes se fecham diante da aspereza do mundo, percebemos a inevitabilidade dessa viagem mútua por paragens selvagens. Ao notarmos que todos estão num jogo, identificamos os aliados ao nosso lado e os inimigos como miragens persistentes. Somente meu íntimo não se altera na roda inexorável da vida, pois há algo que emerge incólume entre as mudanças de cenário, as vicissitudes incessantes e meu humor cambiante.

Comecei essa descrição de amizade de forma simples, e agora percebo que me perco nas palavras, numa complexidade talvez desnecessária. O que mantém este meu afeto por todos aqueles que amo é um princípio que atravessa a inteligência e repousa apenas na lealdade.

Sei que falo de coisas ininteligíveis e mal arranho a superfície desse metal raro… Mas amigo é ouro num mundo povoado pela opacidade dos que não brilham.

Fractais aleatórios

No mundo, há uma grande rejeição da transparência, embora os vidros tragam a clareza dos cenários avistados. A sujeira que embaça as janelas pede o mistério da limpeza e usa a esponja da curiosidade. A luz forte das verdades ofusca os olhos desacostumados e fatigados. A opacidade traz uma segurança momentânea, onde vemos apenas alguns vultos que se movem e imaginamos estórias épicas.

Com as palavras ocorre algo similar: quando retiramos todos os elementos desnecessários, resta incólume a simplicidade da mensagem objetiva. Com o olhar, nada podemos fazer para escamotear nossas intenções. A leitura que fazemos das ondulações destes lagos é nítida, sem subterfúgios ou complacência ante a corruptibilidade humana. Por isso, muitos desviam a retina do confronto revelador e colocam cortinas que tapam as janelas do coração.

Assim, busco sofregamente elementos que apontem o caminho da autenticidade, sem pretender que o autoengano desapareça. As imagens que dançam à minha frente clamam por serem consideradas reais, embora sejam miragens projetadas pelo Arquiteto Supremo. Eis que a claridade e a limpidez permitem que projetemos quaisquer elementos na tela virgem do aparente espaço.

Admito que o gesto sincero, forjado pelo genuíno intento, não é de merecimento geral. Há que se conquistar as opiniões alheias legítimas, do mesmo modo que cavamos o poço da dúvida para obter a fórmula incipiente do esclarecimento. Trago estas frases à tona, difusas e misturadas, turvas e densas, sem a pretensão de ofertar ordem mental ou lucidez.

Neste exercício de fazer sentido, me sinto extremamente fatigado e sem a destreza necessária. No entanto, dentre as sombras que enxergo, sei da luz que principia seus movimentos.

Auscultando o pulsar

A cada dia que passa, percebo melhor tudo aquilo que não quero fazer, no vão propósito das tarefas que executo rotineiramente. Sinto que não desejo ajudar meu próximo, tampouco quero ser ajudado. Apenas gostaria de fazer as coisas sem a intenção de fazê-las. Tenho uma função. E muitas disfunções. Somente isso.

Fico cada vez mais circunspecto. E, paradoxalmente, anseio me mostrar tal qual sou, sem subtrair nem somar nada ao que compõe minhas ferramentas humanas. Não tenciono melhorar ou mudar, pois realmente me cansei desta baboseira filosófica, organizacional, religiosa. Fatalmente, sou/estou assim.

Escuto rangidos internos, como gavetas emperradas sendo forçadas ou dobradiças exercitadas novamente após séculos. Outrora soube quem fui e, estúpida e gradativamente, fui encharcando o lado incandescente da minha personalidade.

Uma brasa ainda persiste no peito e a angústia também. Uma dor causticante que incomoda até que eu preste atenção aos seus avisos vitais e teimosos. Rasgo todos esses mapas que me deixaram atordoado e sem norte. Não há sequer território. Procuro apenas o reconhecimento que me faça sentir vivo e não apenas um farsante existencial.

Não quero ser congruente ou razoável. Não quero ser consistente ou consciente. Sou um animal sentimental. Um ser senciente. A cada dia que passa, me pergunto com mais intensidade: o que realmente eu quero? O grito abafado das entranhas. As estranhas solicitações da alma. O que clama meu zelo é uma parte remota que me intima a seguir os desígnios para os quais fui forjado. Sigo no horizonte de ilusões persistentes, que esvanecem num rastro pretérito e abrem pequenos focos de luz no negro caminho desconhecido.

Animal acuado

Tentarei ser sucinto nos intervalos, mas me é penoso sintetizar pensamentos que transbordam em imagens poéticas, refletidas numa prosa vilipendiada. Penso apenas em dormir e mergulhar em paradeiros insólitos, inóspitos. Num piscar de olhos, despertei. E quase recusei continuar essa coisa que chamam de vida.

Os arquétipos do médico ferido e do palhaço triste não superam minha cômica personagem: o terapeuta incompreendido. Sigo a jornada, talvez por teimosia, talvez por patologia. As únicas surpresas que recebo são as do fracasso inesperado e dos recordes inauditos de burrice. Os interlocutores não me deixam completar uma única frase.

Alguns fragmentos precisam ser repetidos reiteradamente, porém vejo que a simplicidade não pode ser processada pelas mentes obtusas.

Percebo que, mesmo ébrio, não perco a consciência nem a inteligência. Já a nuvem da confusão... jamais se afasta dos estúpidos. Os cretinos reinam, por enquanto. E sou súdito desse séquito de orgulhosos tiranos.

O mundo é palco de sofrimentos, onde padecem... os que ainda ousam buscar a verdade.

Mensagem chancelada

Foi na simplicidade que me aprofundei, sem julgá-la como esforço rudimentar. Minha arrogância foi dinamitada por exemplos palpáveis, e minha inteligência, empobrecida pelo próprio desuso.

Nossas pequenas patifarias cotidianas revelam o estágio infantil da evolução, ao mesmo tempo em que tentamos ostentar uma pseudo-maturidade sisuda, imitando os supostos elevados. A verdade é tosca (no bom sentido) e auto-evidente, mas somos mestres em negligenciá-la.

Nos esforçamos para evitar a avalanche de tudo o que percebemos com clareza. Não dá para negar. Apenas tolos concordam entre si: ambos fingem não perceber aquilo que “grita e salta aos olhos”.

Toda minha presunção em buscar status superior se dissolve quando noto que a humanidade (eu incluso) ainda não sabe praticar as lições básicas da convivência. Agimos sem filtros, nem da razão, nem do coração.

A complexa trama que urdi na memória é uma biblioteca desorganizada. Alguns volumes se destacam, mas só porque outros permanecem empoeirados. O peso que outrora me esmagava, agora cede espaço a um saber simples e funcional.

Erro em quase tudo, sob os julgamentos da razão. Mas nas sombras do sentimento, encontro confirmação. A ciência comprova, aos poucos, o que o coração já sabia. Refiro-me à sensação posterior a um pensamento verdadeiro, não à coceira atrás da orelha que diz: “não faça isso”.

Quero, sinceramente, aprender primeiro com as pequenas coisas. O reino da complexidade pode esperar.

Auspícios da poesia

Auspícios da poesia. Sussurros longínquos, nascidos num mundo subjugado pela hipocrisia. Companheira infatigável, que, mesmo soterrada pelas sombras da iniquidade, permanece incorruptível frente às barbáries humanas, sem perder sua centelha de beleza.

Traz certo conforto quando o homem está aterrado ao próprio peito, sem absorver as miragens tentadoras ou se misturar às partes alheias.

Oferta a angústia, para que ele não se esqueça da sua natureza escondida.

A perfeição repousa na sua pureza, por recusar tudo que possa adulterar sua constituição primeva. Sua mente laboriosa e indisciplinada sempre foi o empecilho existencial. Desvencilha-te de tal inconveniente! Não busque ancorar em portos distantes e invisíveis. Acalma-te.

O espectro largo da tua sensibilidade é capaz de sondar o que está oculto por trás das cortinas. Não quero mais aceitar o que está tão à vista dos meus olhos, por causa do império de um mundo visual. Tudo que busca supremacia é perigoso e a história comprova isso sobejamente.

A poesia sempre trouxe bons augúrios, mas o ser humano a interpreta ao seu bel-prazer, às vezes, com os artifícios de sua mente tresloucada. Quem é capaz de ler os traços que deixei, então habita o mesmo universo que eu. A tentativa vã de se comunicar com alguém não logra êxito se, antes, o propósito não for o de conversar consigo mesmo.

Alguns presságios, em forma de pensamentos oníricos, trafegam em minha tela mental, advindos do mar da inconsciência.

Quero ser inundado pela fonte da poesia que atravessa a minha alma.

Desconfianças incipientes

Estamos sempre trafegando por vias nebulosas. Tudo parece uma tênue linha retesada, prestes a estourar. Tal qual o universo, talvez tudo brote do caos. Se há inteligência, ela se oculta timidamente nos bastidores.

Não convém empolgar-se com possibilidades, nem se desesperar com turbulências. A chance, afinal, surge do aparente nada. O pensamento fixa imagens passageiras e não consegue conter as águas do desejo.

Em vão nos atormentamos. E, repentinamente, nos alegramos por insignificâncias. A única constância é a da aleatoriedade, a repetição sutil do embaraço quotidiano.

Minha mania é juntar frases e buscar, inutilmente, uma síntese das ambiguidades. Enquanto articulo ideias, sinto que não faço sentido, até que o fim se aproxime.

Suporto a realidade intragável e persisto no duelo contra os ignóbeis e suas artimanhas toscas. Tentam impingir a farsa do aprendizado. Mas não aprendem nada. Apenas repetem, variando as formas.

O mundo não é uma escola. Talvez seja um hospício, onde também se treinam os poucos que ainda conservam alguma lucidez. A disciplina me enfada, sufoca meus impulsos primordiais.

O intelecto me trai, não me auxilia em nada, num universo de embusteiros que se vangloriam de sua falsidade. E eu também sou um pouco hipócrita. Finjo me importar com todos. Mas só me importo com poucos. Poucos que ainda se mostram humanos. Preciso sentir, urgentemente, que continuo vivo.

Nem sei por que resisto tanto a interpretar um papel, já que o faço com maestria ineficaz. Felizes os que mentem bem. Que forjam atitudes. Que simulam preocupação mesmo sem resquício algum de afeto. Crer cegamente na bondade apenas por desejar acreditar... não nos faz bondosos.

É preciso estar atento ao senso implacável de informalidade, esse que permeia todos os recantos cósmicos. Se só existe a vontade pura, sem máculas ou desvios, então o intento se transforma em ato irrepreensível.

A primeira etapa: acreditar em si. A segunda: desconfiar... mantendo, ainda assim, a postura da confiança. Preciso de um objetivo. Qualquer motivo que me mova. Não há razão preestabelecida para viver. Seguimos por automatismos e atavismos. Identifico isso, mas não nego sua força.

Desmascarar os embusteiros pouco serve, exceto pelo prazer de sacudir estruturas apodrecidas. Começarei a observar melhor os quadros que desfilam em minha retina. E a atuar sobre minhas próprias criações, sem o apego à ilusão.

Tecelão de casulos

Almejo por atenção no abismo da minha intimidade quase-impenetrável, mas sou desajeitado sempre que recebo qualquer manifestação de zelo.

Todo o léxico que amealhei de forma portentosa é abandonado num átimo. Perco as palavras diante de um simples olhar de interesse. O inefável me invade, e tento rebater suas ondas intensas. Não consigo sequer formular minhas dúvidas, muito menos concatenar ideias diante dos chamados do meu coração enclausurado.

Ninguém foge mais de si do que eu. Sou perito na arte de criar blindagens. O chumbo que reveste minha carapaça de orgulho é um peso enorme.

Crio artimanhas sutis para solicitar ajuda, sempre de forma indireta. Que ser estranho sou eu: sentindo-me indigno, e ao mesmo tempo desejando o que está tão próximo. Este afã paradoxal, entre expectativa e fuga, é a eterna dança entre o medo e o prazer.

Escrever, para mim, é como orar. Mas o faço como uma criança revoltada, quando deveria clamar por uma intervenção mais sábia.

Como não consigo lidar com os elementos tangíveis, que suponho passíveis de interação, busco também uma intervenção divina, das plateias invisíveis. Há conselheiros, é verdade. Mas no caminho, há também quem aponte para as bifurcações da perdição.

A desconfiança é boa. Mas estou saturado de andar no vácuo da descrença. Sei que a maioria é composta de embusteiros, em diferentes níveis de consciência. Ainda assim, alguns dotados de sensibilidade estendem os braços. Como pirilampos na escuridão, esses pequenos brilhos conseguem redirecionar nossos olhos.

Mas, novamente, desvio palavras e intenções para dentro do casulo.

Sinceramente, sei que não estou apartado, nem por ser especial, nem por me considerar desprezível. Estou inserido num contexto, embora insista em me ver como ilha inóspita e longínqua.

Certas forças ainda dormem em mim. E a única que não posso comandar é a que me cerca.

Minha parte é ínfima dentro de um grande concerto dissonante. Só a natureza parece possuir mecanismos que se encaixam, menos a esfera humana.

O que entendo por personalidade está esfacelado. Nem sei dizer, afinal, qual é exatamente meu temperamento. Desconfio de mim e isso não é de todo mau.

Confio nas capacidades, nas habilidades... mas não vejo nelas grande relevância. Fui aparelhado para executar e sustentar a obra e não para viver uma vida de satisfação.

Preciso voltar-me para dentro. Pacificar este frágil ser que sou.

Transpareço força e equilíbrio, mas é apenas ilusão, vinda da dureza de minha carcaça.

Falta-me o ímpeto de agir... a partir de alguma instância que verdadeiramente sou.

Imperceptível

A maior tristeza é aquela eclipsada por longos evos, vilipendiada por uma multidão cega e atordoada.

Cambaleante, ando pelas fileiras da indiferença, entre aqueles anestesiados pelo desinteresse. De um lado, minha autoconfiança cresceu. Do outro, minha crença na humanidade despencou vertiginosamente.

Os chamados humanos tornaram-se espectros desprezíveis, excetuando os poucos que se revelaram tangíveis à minha sensibilidade. Se eu pudesse conviver com a linha da mediocridade, talvez encontrasse algum contentamento. Mas a maioria não consegue sequer alcançar tal “excelsa condição”.

Harmonizar-se com esse cenário e estar em paz consigo mesmo é tarefa árdua, até que se aceite sua inevitabilidade.

Quem me dera encontrar um lugar no mundo. Mas estou apartado de todas as moradas. Tenho que fingir que não estou sombriamente entediado, por trás de um sorriso empático e enigmático.

Ninguém adivinha o que se passa nos domínios conturbados onde perambulam minhas emoções, entre reflexões complexas e sombrias. Sou admoestado pelo séquito dos imbecis, que detestam a solidão dos pensantes.

Ridicularizar alguém superior é o maior divertimento dessa patota de cínicos. Aceitar a humilhação é a única opção. Assim como aceitar a supremacia dos idiotas que dominam o planeta.

Sofrer por causa dessa solidão é como chover no molhado.

O cortejo da estupidez não cessará antes de milhões de anos de trevas. O progresso é uma marcha lentíssima, porém inexorável.

Como sou tolo por não aceitar a miséria vaidosa das massas. Tento, em vão, não submergir neste charco de pusilanimidade e hediondez moral.

No contato com a burrice sedimentada, começo a me contaminar com o torpor secular de não raciocinar. Abro trilhas entre a barbárie da inépcia e os falsos adornos dos pseudo-intelectuais.

Não sei por que ainda teimo em ser compreendido, ou reconhecido, por tais criaturas. Preservo alguma honra, alguma dignidade. Mas não posso partilhar tais tesouros.

Quem me dera pudesse falar da minha melancolia. Nem sei como nomear essas sensações inefáveis.

Abarcar o que me cerca, sem sentir a pequenez do barco no mar esplendoroso, eis a utopia da mente. Perco-me em abstrações inúteis.

Logo mais, um novo dia possivelmente raiará. Embora conheça a opressão da rotina, sei também da sua evanescência.

Conheço a banalidade dos planos. O rascunho do amanhã. O corpo quer dormir, pois a alma anseia por uma pequena folga.

Quero inebriar-me com a água, o vento, o fogo. Que o dia me traga pequenos acepipes psíquicos, pois a grandeza, porventura, causaria indigestão.

Quem sou eu... sem a sombra gigantesca da minha tristeza?

Desorientado

Procuro por minha alma, que errante perambula noutras cercanias. Busco meu tesão, eclipsado pelas incessantes mazelas da vida. Estou aporrinhado com tantas pessoas desinteressantes e suas intermináveis elucubrações estéreis. Meu riso é amargo, e tento camuflá-lo com a dúlcida presença da incerteza, que brota de rincões intocados e ignorados.

Gostaria de pacificar meu ser e, paradoxalmente, abalar as estruturas ancestrais deste tosco protótipo humano que sou. Sangro por dentro, pois o incômodo me corrói e arranha minhas paredes internas. Pobre sombra, desvinculado, observo-me fora deste desengonçado boneco animalizado.

Há uma sentença exarada em minha essência pétrea que não retrocede e teima em confrontar o dogmatismo celestial. Agora, perdido e ilhado, nem sei por onde começar minha busca frenética por mim mesmo. Desconheço quem sou, e a possibilidade de ser o inverso do que ostento causa-me um medo visceral e, ao mesmo tempo, estranhamente almejado.

Minha gentileza me enoja, dada a minha indiferença fantasticamente ocultada. Num mundo de truculentos, onde a inabilidade permeia as relações, não vejo por que agir assim, senão por minha doentia e inconsciente vontade de reconhecimento.

Minha sina é o não pertencimento eterno. O interminável vagar por lugares insondáveis. Os vislumbres me assombram, trazem pedaços da realidade impalpável. Ao acordar, duvido se ainda estou vivo. Não sei se a repetição me ensinará algo profícuo, além da tolerância reiterada.

Talvez seja um teste, até que eu não me perturbe mais com a constante esculhambação do universo e a tortura extrínseca, deliberada ou impensada. Esqueci-me de quem sou, ou nunca soube deveras.

Quiçá o tempo esmigalhe minhas ínfimas partículas e revele a estrutura basilar que molda meu ser. Sigo o determinismo inescapável de minha bestialidade, como se tivesse sido forjado para fugir dela.

Não sei qual propósito me guia nesta terra de ninguém. Ando atordoado. Nem sei se algum dia pisei com firmeza. Queria dar respostas concretas, lidar com a dureza dos edifícios... mas me desmancho como areia. A espuma que me molha é o que ainda me dá alguma coesão.

A ousadia me espreita na escuridão. E apenas vejo o brilho de um olhar feroz a me fitar, com frieza impessoal. Meu medo é um desejo latente. O mundo pode me cercear. Mas só a morte logra me laçar, ceifando meu lampejo tímido de vida.

Não há tanta generosidade no mundo... senão a oportunidade de lamber as gotículas de esperança orvalhadas no sofrimento.

Queria oferecer algum alento. Mas durmo nos cantos, ao relento e não tenho garantias de despertar.

Novo capítulo

Sempre é possível iniciar uma nova página e deixar de lado os compêndios velhos e gastos. Reescrever é importante. Mas reiniciar... é mais fascinante. Sobretudo quando se vislumbra a trajetória infinita.

O fim é ditado pelo próprio escrevente ou por fatores que lhe escapam por entre os dedos, interrompendo a capacidade de imprimir pensamentos. O começo abre caminho com simplicidade, como archote que ilumina os primeiros passos.

Os capítulos que surgem, com autoridade de uma vida incompreensível, trazem o amargo da revolta e todas as sutilezas com que se tentou reverter o inevitável.

Mas as novidades, quando se aproximam, carregam um hálito familiar. Só há o agora e a possibilidade de fazer o melhor... ou a preguiça do depois. Sei que o hábito da reclamação ainda arrastará correntes atrás de minhas ironias. Mesmo assim, um traço de comédia resiste nas brumas do passado.

A alegria que se esboça em meu semblante é prelúdio de algo bom, que desconfio estar chegando. Não pensei nisso, mas algo vibrou nas cordas do meu ser. Abro o peito e sei: estou certo. Sempre estive, exceto quando duvidei.

Do incômodo nascem as chances. Sempre desconfiei que do caos brotaria um traçado consistente e repeli a razão que apontava a ordem nas falhas.

Meu otimismo é tímido. Minhas primeiras frases saem toscas. Estou aprendendo a caminhar de novo. Como é bom emergir do marasmo das certezas tristes!

Embora tudo seja provisório, acolho os novos horizontes. Já não me importo com o que dizem sobre o fracasso. Não fui forjado para a pequenez sórdida dos subumanos.

Hoje, fatos insignificantes me trazem universos. Ignoro projeções futuras. Tudo, agora, é agradável e confortável.

Atravesso a tempestade sem pestanejar. Continuo com as obviedades. As palavras rebuscadas me abandonam nesta nova empreitada.

Vejo o fim da página. Sorvo da caneca da embriaguez. Tudo continua na mesma faixa da imprevisibilidade.

Então, o que mudou, de fato?

Não consigo acreditar que bons ventos não estejam soprando. Vou arriscar. A ousadia é o que dá significado à vida.

Ou é o que eu quero... ou desafio a divindade. Não aceito alternativas. Escrevo. Determino. Vou me deitar.

Quem sabe o amanhã se apresente com limpidez. Talvez não. Quem sabe?

Começo. E ao acordar, recomeço, no rastro do infinito.

Prosseguimento

Dar continuidade a um processo que começa a vicejar é bem distinto do impulso dos recalcitrantes. Uma força numinosa precisa sobrepujar os hábitos arraigados para relembrar os insights que repousam intrinsecamente. Prosseguir é um dos maiores esforços do ser humano, seja na senda das bem-aventuranças, seja chafurdando em lodaçais de sofrimento.

Sustentar um pensamento exige força hercúlea, a hipertrofia pelo exercício da repetição. Uma semente guarda o embrião do futuro possível, latente na intimidade de uma inteligência transcendente.

Ouso explicar, em vão. A sensação que sutiliza e extravasa a corporeidade talvez seja o que nomeio por amor. Uma doação inicial. Um cultivo. E, de mim, espero ser bom jardineiro.

Só penso nas palavras depois, encaixando-as nas frestas do que vivi. Os sentidos antecedem à razão, sem razão aparente. De repente, um alerta ressoa, vindo de rincões interiores, contra as miragens da suposta concretude.

Tenho dificuldade em estabelecer conexões. Fujo do usual como quem procura sentido entre as rachaduras do discurso. Tento construir mensagens pragmáticas, mas descambo em obscuridades que, no âmago, trazem lampejos de ideias.

Mesmo que costure pensamentos tortuosos, sigo por uma linha que flutua no espaço que meus olhos e mãos alcançam. Possivelmente, não haja escolha, a não ser seguir o rumo inexorável ditado por meu companheiro encarcerado, nesta cela carnal que insisto em chamar de “minha”.

Ir adiante é imperativo do impulso vital, esse movimento perpétuo. A morte da vida seria o cessar da dança e do criador que nunca parou de criar. Criaturas de si, até a infinitesimal partícula, tudo pulsa.

Tenho uma veste provisória e, por ora, vou vesti-la. Usarei os adornos que me encantam. Que o vento seja aprazível nos campos que eu atravessar. Prosseguirei, ante o inevitável. E quem sabe, na síntese, o êxtase exploda.

Farei pausas. Estacionarei para vislumbrar ou descansar. Mas nada é estacionário. Adormecerei, como uma árvore secular que regredisse à escala de uma semente.

Expandirei as fronteiras fictícias da mente. Tudo é consciência dissolvida em experiências que se fingem distintas.

Sigo uma programação. Mas ela terminará um dia.

Sou uma nuvem passageira. Um vento me conduz por espaços intangíveis. E me abandonarei às asas protetoras que amparam os viajantes, assombrados e maravilhados. A noite renovará toda luz vindoura.

E prosseguirei. Novamente.

Expectador solitário de si mesmo

Vejo-me envolto num guante eficientemente urdido. Debato-me em vão, por não aceitar este périplo existencial. Encarei, parcialmente, a mirífica verdade desta tragédia cômica, mas recusei aceitá-la. Aturdido, hesitei em atravessar a jornada humana ordinária.

Agora, atravesso o período pós-confiança, onde a melancolia colateral brota da impotência frente à imutabilidade das exterioridades.

Confrontei, adrede, o império da estultice, o que também foi uma tolice minha. Rejeitei o fluxo. Não quis me beneficiar das águas que seguem. Quanta presunção em querer paralisar engrenagens invisíveis, contemplar o incognoscível.

Posso tangenciar os raios que me assistem, mas não consigo assimilar a alucinante luz que dissolve toda força agregadora. Ainda tento mover as peças com pensamentos. Mas o xadrez exige arrastar e, às vezes, derrubar.

As nuvens cruzam meu olhar ensimesmado, e não posso interromper seu trânsito. Aceitar é ainda uma tarefa difícil. Dói ver as imagens se repetirem na grande tela dos acontecimentos globais.

Além dessas baias, só sonho com dimensões que escapam à frágil cognição. Estou aqui, mas minha mente divaga. E os devaneios me tornam um homem que não pertence a este mundo.

Reclamo da concretude das limitações e elas não retrocedem um milímetro sequer. Não quero caminhar com o rebanho, mas conheço o chicote do escárnio e vivo retornando ao fim da fila.

Jactava-me de alguma autopercepção. Mas não via minha arrogância, essa que, de fato, não altera nem a poeira da estrada.

Meu desânimo talvez nasça dos esforços vãos. Minha personalidade parece moldada para habitar noutras esferas, quando não serve a este habitat.

Tornei-me etéreo e diáfano para suportar os afazeres. E, ao mesmo tempo, inflado e plúmbeo pelo senso de autoimportância e minha seriedade desmedida.

É impressionante notar como nos distraímos com certas coisas... e nos compenetramos com outras, de importâncias duvidosas. Simples feitos ganham proporção imensa quando a emoção assume o leme.

Certos fenômenos brotam em profusão, mas não rompem a anestesiada psique atrofiada pela repetição teimosa.

Faço reflexões só para mim. O incômodo é meu. E sou doentiamente possessivo com minhas criações bizarras.

Tentarei produzir alguma beleza, para locupletar-me com a simples e milagrosa vantagem de ser transeunte da vida.


09

Rompendo o casulo

Há dores que a gente apenas sobrevive. Outras, a gente escreve. Escreve não como catarse, mas como tentativa de tradução, do que já foi, do que sobrou, do que ainda pulsa, mesmo que em silêncio. Cada texto se torna então uma espécie de lago reflexivo às vezes nítido, às vezes turvo. E, ao relê-los, não raro nos espantamos com o que fomos capazes de esconder entre as linhas.

Este capítulo nasce desse espanto. De perceber que, por muito tempo, nos perdemos entre os iguais. Que sorrimos nos lugares errados, calamos onde deveríamos gritar, e seguimos tentando parecer inteiros quando tudo dentro já estava em ruínas.

Mas há textos que funcionam como vapores que emergem trazendo à tona o que foi deixado no fundo nesse lago. Objetos esquecidos da alma. Ciclos não encerrados. Mágoas esculpidas em pedra. E então compreendemos: o que parecia cotidiano era, na verdade, o aço de uma armadura cuidadosamente construída.

Rompê-la exige mais que coragem. Exige cansaço. O tipo de cansaço que já não permite fingimentos. Que já não quer mais narrativas polidas, feedbacks motivacionais ou reuniões sobre cultura organizacional.

Os escritos que seguem são sobre isso: O momento em que o casulo racha. E mesmo sem ter asas ainda prontas, o desejo de recomeçar já é maior do que o medo de permanecer contido.

Até agora Cada página escrita por mim Foi um parto cerebral Uma operação no coração Radiografia da alma E após muitos anos Reler com calma Cada uma delas É como um soco no estômago Uma droga alucinógena Perdi-me dentre os iguais Cri e descri Cultivei a esperança Esculpi estátuas das mágoas E cai no charco da humanidade Cada texto me trouxe o passado Refletido no presente Trouxe em suas ondas Objetos esquecidos E ao vapor das dores vilipendiadas Foi preciso recapitular Enfrentar quem fui E acolher essa pessoa Fechar portas e ciclos Encarando o que ficou para trás Foi preciso me reinventar Para poder viver E ser a versão de mim mesmo Mas me negligenciei Por muito tempo E agora não há muito tempo mais Mas ainda há chance de recomeçar
Regresso de bom grado ao cárcere

Meu instinto organísmico de preservação me impele a resistir teimosamente aos incessantes rompantes de aniquilamento da vontade. Minh’alma cansada dormita neste receptáculo de mecanismos autônomos e ditatoriais. Não conheço outra paz além da ilusão psicológica e intelectual, desprovida de qualquer auxílio que não seja o da narcotização do corpo.

Minha personalidade desmancha-se frente às frágeis estátuas que se tornaram os seres racionais. Esforço-me para parecer tangível, tentando transparecer o semblante de quem pertence.

Caminho camuflando a depressão adquirida na longa sensação de vidas acumuladas nas brumas do tempo. Sorrio apenas aos que reconheço como cúmplices de sina semelhante. O eco de meus pensamentos é o único diálogo possível.

Acostumado que estou a não receber atenção, qualquer menção de interesse me parece apenas uma fugacidade disfarçada de hipocrisia domesticada. Quando sou eu a oferecer o olhar, pareço desajeitado, quase intruso.

Busco uma quietude impossível. Talvez alguma meta mínima e concreta possa apaziguar minha sede por propósito. Nada do mundo abstrato parece valer o esforço, então esboço consolo no gesto de me moldar ao que gostaria de ser. Embora isto não tenha real valor, talvez reacenda a vontade de viver. Algo em mim permanece aces, uma chama tímida e teimosa.

Não estou em paz comigo porque ainda vejo desarmonia demais do lado de fora. Talvez tema vasculhar o encanto. Quiçá o espanto me remexa. Voltei, e mesmo desconfortável, sou eu de novo. O cárcere ao menos me é familiar.

A benção dos náufragos

Abençoados os desorientados que tropeçam diariamente em seus próprios erros. Amaldiçoados os que se irritam ao tentarem desviar da convicção dos equivocados.

Bem-aventurados os que vivem no mar das incertezas. Desventurados os sedimentados em suas pequenas verdades.

Nobres os que sempre enxergam a senda do aprendizado. Pobre de mim, que considero ter chegado ao limiar do conhecimento e confronto furiosamente a ironia do acaso.

Meu esforço hercúleo é força diminuta ante os imperativos extrínsecos. Sou conduzido e jamais direcionei nada, embora estivesse ao leme fingindo domínio.

Talvez o propósito seja aceitar o que é estabelecido. E ninguém sabe se a dócil aceitação é a chave que abre outras possibilidades.

A paz não é desse mundo

Do mundo, não se pode esperar paz ou alegria, são impossíveis, impraticáveis. Na intimidade, podemos persegui-las, mas a farsa coletiva é insustentável. A mentira defendida a muitas mãos repousa em colunas de barro, fincadas em chão de areia, sustentada por esforço histérico. O prazer que rompe o horizonte é passageiro; o perseguido, inatingível.

Do alto da torre, busco contemplar. Mas sou sempre instado a descer para os pântanos da humanidade. O eterno caminhar. A satisfação no andar. A angústia que me rodeia, a tristeza que sutilmente clama minha atenção. Os sorrisos, armadilhas. A ironia, fator constante que testa minha paciência.

Até quando aguentarei as afrontas diárias? Não sei precisar. Quem é só impulso ganha complacência pela legitimidade do ato. Quem é só atuação, ganha anuência dos que compartilham a nefasta necessidade de interpretar.

E eu caminho num limbo, entre duas dimensões, ridicularizado, carregando o semblante fantasmagórico.

Maternal presença

Elemento materno que me enternece o ser por sua completude e pela angústia que pariu minha singularidade. Mal consigo expressar a ternura que me vai n’alma, pois o sentimento está hermeticamente selado em meandros iluminados do meu coração. Não ouso ostentar tal brilho diante das trevas do mundo.

Tal amor é puro, intocado por quaisquer teias que o intelecto tente engendrar. É meu raio de sol, a profundidade do meu mar, a coragem do meu voo. Talvez devesse compartir isso que é íntegro, porém de mim não se desprende sem se esfacelar. A emoção torna inefável tal empreitada de externar a verdade ininteligível.

Quisera conceber algo de superior, mas só consigo aquilatar a divindade na mãe. Não me digam que o religar possa acontecer, pois o amor se desprendeu daí e vive a pairar nos rincões do meu peito. Se há uma razão para que a vida aconteça em seu fluxo incessante, é a peremptória presença desse ser dadivoso e que emana a vivificante centelha do seu olhar.

Mãe, mitiga em mim as dores da vida e apazigua minha fronte para enxergar a simplicidade do caminho! Anda comigo nessas sendas, que a felicidade pode me sorrir vez em quando.

O vazio pós entendimento

Pergunto-me se alguém observa meu percurso neste planeta, se há olhos atentos aos meandros da minha alma. Pareço compreender as pulsações alheias, enquanto me torno invisível. Sigo um fluxo que desagua em lugares ignorados, como quem atravessa a vida em compasso de espera.

Não sei se escolhi algo de fato, ou se fui arrastado por um compêndio randômico de experiências. Talvez precisemos repetir certas dores até que elas se inscrevam, a ferro e fogo, na alma. E tudo isso, no fim, parece-me desnecessário. Um engatinhar rumo ao abismo, que finda num piscar de olhos.

Aproveito o instante em que me sinto vivo. Tento manter a paz em meio ao tumulto. Não sei o que o destino me reserva, pois me acostumei com a frustração. A iminência de conquistas me causa ansiedade, e qualquer sucesso se desfaz em minhas mãos.

Faço piadas da estupidez alheia e começo a me libertar da autoesculhambação. Já não me vejo como verme rastejante, mas busco coragem nos confins de minha alma errante. Começo a desejar a solidão e que ninguém ouse me compreender. Quantas tolices desejei desde que mergulhei nas entranhas deste estranho animal!

Últimos suspiros

Estou rompendo os últimos estertores, minha voz é débil instrumento de manifestações rudimentares. Cansei-me de brigar para que o óbvio escape das trevas dos bastidores.

Estou exausto do eterno movimento de ceder espaço para os equivocados e ineptos. Quase não respiro, ao reter meu sopro de vivacidade; quando exponho todo o meu fulgor, a inteligência cai na vala da mediocridade. Desdobro-me em inúmeras atividades inúteis e desgastantes, sem nenhum reconhecimento.

A paciência já não é uma prática que eu consiga executar. Falar o que penso traria um alívio para mim, mas nenhum outro benefício. Talvez eu esteja perseguindo uma utopia ou esteja simplesmente delirando.

Sinto-me ultrajado e humilhado, enquanto os vagabundos e preguiçosos conquistam suas vantagens. Não sei dizer se é possível cobrar algo de quem não pode ofertar nada além da aporrinhação. De locais deploráveis não brotarão louros de glória.

Por sendas tortuosas

Minh’alma dorida só escuta ecos de si mesma. Por que foi avistar outras em pleno voo e se encantar com os rastros deixados? Quis alterar rotas alheias e desviou-se de sua própria trajetória. Encontrou olhares perdidos, aos milhares, mergulhados na tristeza ou no escárnio, que agradeciam por aquilo que nunca fez... e amaldiçoavam a ajuda ofertada.

Viveu num mundo às avessas. Seguiu cambaleante, mas firmou o passo quando preciso. E sempre ouviu o compasso do coração. Feriu-se por confiar em demasia e caiu nas garras da descrença. Só a surpresa seria capaz de arrancá-lo da gaiola.

Faltava-lhe a ousadia, que já não cabia nas cercas precárias. As peripécias da vida apenas o desconcertavam, pois abalavam sua razão ferrenha. Não sei se o sacrifício guarda algo de sagrado. Vejo apenas o triunfo daqueles que ultrajam os valores perenes.

Se há alguém zelando por mim, prefiro ignorar este fato. Perceber o auxílio de mãos invisíveis faz com que eu atrapalhe tudo. No fim, sou responsável por tudo. Somente os presságios ruins se concretizam. Aguardo, ansiosamente, que algo me contradiga.

As nuvens auspiciosas pairam e passam céleres. É estranho imaginar que não sou eu o agente realizador... que algo, milagrosamente, faz por mim, através de vias ocultas.

Resquício de humanidade

Uma pausa no meio da loucura e eu na procura por pistas que me tragam de volta a mim mesmo. Talvez busque a cura, mas certas marcas são irremediáveis e indeléveis. O saber apenas recrudesce, podendo até revolver, mas jamais ser extirpado.

Quão ridículo sou, ao perseguir coisas fugazes como a ordem e a paz. Não basta contemplar a banalidade é preciso submergir em suas águas turvas para recobrar nossa parcela perdida.

Precisamos separar o que é divino daquilo que é mundano, pois é na realidade tangível que vivemos. Sobre outros planos, nada sabemos ou esquecemos provisoriamente.

Tento me desvencilhar dos pensamentos e da imaginação laboriosa, pois talvez eu seja o avesso. Não devo correr atrás do desejo, mas preciso vivê-lo com a intensidade própria de um ente humano.

Há tempos sou doutrinado na esperança estapafúrdia de vivenciar o além, mas tal domínio sempre estará distante. Venci os entraves da clareza, agora me resta superar o medo da loucura e da ridicularização.

Distraído

Percebo as sutilezas que me rondam. E elas gritam à minha sensibilidade. Poucos desconfiam que estou antenado a tudo. Mas me falta o interesse. Minha sina é a de ser compreensivo e incompreendido.

Meu fardo é ajudar os outros a subir a escada... sem jamais ser amparado na minha ascensão. Parece não haver ninguém que interceda por mim, tampouco alguém que eu possa acessar.

Eis meu drama. Exagerado, talvez, para os que só veem o superficial vitimismo.

Sou juiz severo e carrasco atroz. Infeliz morador de uma jaula.

Confio em mim. Mas não acredito na realidade opressora que me cerca.

Vejo um circo de maldades onde triunfam oportunistas. Aqueles que erguem os tijolos, apenas para que os parasitas habitem as casas prontas.

Vivemos num aquário. E mesmo assim, não vemos o cenário cristalino. Tampouco o horizonte.

Percebo. E quero me entorpecer. Só para anular essa consciência inextinguível.

Mas fugir de si é impossível. A consciência não pode ser destruída.

Mesmo que sejamos impelidos a nos distrair... ela sempre volta.

Fábula da não-diretividade

Ainda não descobri como andar pelo mundo sem deixar pegadas, ou como tecer abstrações puras sem trazer à baila as intenções implícitas. No extremo oposto, vejo o desfile dos intelectos camuflando os intentos de poder, e os oponentes tentando desmerecer as manifestações de inteligência. Há um ódio velado à inteligência, e um desejo profundamente eclipsado de depreciá-la. Assim se dá a ascensão do império da estultícia e da malandragem.

Os bons estão aparvalhados dentro das cercas, enquanto os maus assaltam as ovelhas com seus compêndios esvaziados. Os simplórios confundem simplicidade com tosquice, trocando a essência por uma superficialidade imbecilizante. Palestrantes almejam medalhas e querem proferir suas diretrizes com lentidão sufocante, preciosismo puritano, verborragia crônica e pílulas de sabedoria homeopática.

Há também um sincretismo destas facções rivais e um grupo dissidente que prega o virtuosismo com verniz de hipocrisia e equilíbrio de falsa leveza, ocultando instintos vulcânicos. É impossível não deixar marcas, impensável agir sem melindres. Quando busco agir com singeleza, tentam dissecar estruturas com a metodologia da mumificação. Quando dou uma pincelada de crítica, recebo admoestações para voltar ao chão dogmático das escrituras basilares.

Quero beber direto dos seios da esfinge, dos mistérios da fonte. Não desejo mais conselhos paralisantes. Estou verdadeiramente fatigado do termo aprendizado. A palavra evolução, tão repetida por pseudocientistas populares, só me causa doenças agudas da desconfiança. Esforço-me para não somatizar meu ódio e repulsa, senão explodiria, enquanto o mundo gira.

A tolerância não basta. É preciso paz em meio à guerra surda. É importante silenciar durante a balbúrdia dos tolos. Ouço, lá fora, o ribombar de um trovão e apenas este som portentoso desejo escutar. Quero cultivar as sementes da minha mente no solo do coração. Agir pelo não agir, mas deixando pegadas na realidade.

Rebaixamento cognitivo

Sinto que estou emburrecendo. Não sei se isso é realmente possível ou apenas uma percepção deslocada. Observo que meus textos andam encolhendo, talvez pela síntese do desassossego, talvez pela escassez de originalidade. Ainda assim, não falta matéria-prima para tecer minhas críticas ácidas e irônicas.

É provável que o desânimo tenha invadido meu corpo, ou melhor, que minha alma tenha se evadido. A repetição desgastante e a variação do mesmo se tornaram constantes nas temáticas que me assombram.

Dizem que as palavras têm força. E imagino o poder da palavra escrita.

Sendo assim, estou fadado à ambiguidade desorientadora, ao antagonismo voraz, à angústia perene, às dúvidas causticantes e a toda sorte de tormentos existenciais. Sinto que estou involuindo.

Desconheço meu propósito neste cenário limitado, tampouco como preservar a dignidade, a honra, a inteligência e a sensibilidade. Embrutecido, escondo a arte dentro da rocha vulcânica que sou.

Da inexorabilidade ao redor

O quanto me isolei, não sei precisar, pois estou cada vez mais incrustado dentro da minha concha. O mundo tentou me puxar para suas teias de efeitos visuais, de estímulos sonoros e de contatos sinestésicos, todavia viso recluso dentro de mim.

Tudo que eu possa experienciar desaba inevitavelmente no abismo que me tornei.

Não sei se há retorno, pois preciso reaprender o convívio com outros seres que se tornaram insuportáveis para mim.

Talvez eu que tenha me transformado em uma pessoa intragável, pois meu julgamento é pungente e meu olhar inquiridor é inconveniente para a humanidade.

Gostaria de escrever novas páginas, recheadas de esperança e ingenuidade, mas não creio que eu consiga se não renascer em vida.

Há em mim um incômodo persistente e chato que clama por coisas inefáveis.

Há algo que pede que eu não encoste meus pés na terra, mas talvez sejam as entidades demoníacas travestidas de representantes celestes.

Tudo no mundo pede para que mergulhemos na areia movediça dos instintos. Se aqui estamos e não podemos fugir, provavelmente devemos sentir na pele o que nos foi designado.

Enredado por Fantasias

Exceto na palavra escrita, tentarei esconder minha tristeza por detrás do sorriso entusiástico do fingidor otimista. Apenas eu estou vendo o que se passa nestes rincões abandonados do meu interior, e essa visão de desolação basta para mim. Não quero apontar o dedo em riste para mostrar minha paisagem de miséria pessoal. Estou inapto para viver aí fora, não me acerto comigo aqui dentro. Minha alma não cabe neste invólucro e quer escapar desta morada por timidez e cansaço.

Não há surpresas na vida, senão o assombro de não haver surpresas. Acostumado às intempéries, não espero que o sol venha a brilhar para mim enquanto está ocupado demais com os outros. Abandonei quase completamente a esperança, o pior dos vícios humanos. Abraço o agora em sua palidez e frieza, caminho na companhia fiel do acaso. Sou um construtor de paredes, já que não fui competente ao criar pontes. Não sei o que é merecimento, quando só observo o pagamento vultuoso dos preguiçosos e desonestos. Só sei que, de agora em diante, quero afastar meus olhos deste cenário de esqualidez moral e mesquinharias espirituais.

Desligo-me da miséria humana para lançar o rosto na direção das coisas belas, a tal ponto de me vestir com a realidade que percebo. Por acaso, não fiz o mesmo com todas as coisas calamitosas e sombrias? Noto que me faço contraditório e me equilibro no antagonismo feroz dos conceitos, porém abandono essas roupagens inúteis.

Pouco a pouco, me convenço de que meu esforço de acreditar no que me faz bem e a transmissão dessas pequenas felicidades é certamente verossímil, impregnado que estou pela teimosia de contrariar essas almas inóspitas.

Sorrio frente às coisas mais banais e das fantasias que ornamentam as almas mais feias.

Louco iluminado

No silêncio da noite, o louco risca um fósforo dentro de seu dormitório envolto na penumbra e se espanta com a chama evocada pelo atrito compulsivo dos dedos. Apenas havia acabado a energia elétrica novamente no hospital psiquiátrico, após não pagarem a conta do mês.

O brilho incandescente do fogo assombrava e encantava simultaneamente o desvairado homem, não por medo do escuro ou do desconhecido.

Nos dias de sol, começou a repetir o mesmo ritual de queimar os palitos para ver se produziria o mesmo encanto suscitado naquelas horas de trevas indevassáveis. Inútil esforço de sua parte, nas manhãs conhecidas e de imagens sempre disponíveis.

Começou a ficar matinalmente apático e ao entardecer excitado com a possibilidade de conhecer novos meandros de seu quarto. Logo cedo colocava óculos escuros e evitava a claridade ofuscante dos raios solares. Era agora um ser de hábitos noturnos, iluminando a escuridão e brincando de descobrir e redescobrir.

Uma vez, ao aproximar uma vela no espelho, viu seu rosto há muito esquecido por entre as esquisitices de seu comportamento e os hábitos que se cristalizaram.

Desde então, emudeceu e todos os outros começaram a o enxergar como maluco incurável, mas ele próprio só se importava com o pano de fundo da realidade, com os contrastes entre luz e sombras.

No barulho interior de sua cabeça ele aprendeu a desligar o interruptor e ficar acomodado, vislumbrando imagens caóticas, apreciando o vazio das horas e admirando as habilidades dos sãos.

O ermitão

Há quem prefira o conforto das palavras e todo o mistério nelas engendrado, mas, embora eu ame sofregamente a poesia contida nelas, não me satisfaço mais.

Escrevo apenas para não fenecer, quando o que mais quero é a emoção abrasadora e inefável.

Talvez a necessidade do entendimento seja uma doença que desenvolvi nos meandros do meu cérebro teimoso. Não há razão para se querer tal tolice.

Pensando bem, por que alguém iria querer tal abstração perniciosa?

A madrugada rompe minha tristeza e não há quem leia, nem os símbolos gravados no pó, nem as marcas inscritas na minha nudez. Há quem prefira a teia platônica das ideias, umas empilhadas sobre as outras tentando fazer sentido.

O texto acaba aqui. Sempre assim. Tudo o mais é um acréscimo desnecessário, artimanhas para prender o leitor entediado da vida. É um esforço para terminar em reticências ou para tatear o nada.

Há quem prefira outra coisa, mas eu tenho muita vida guardada aqui dentro. E isso dói! Não tenho medo. É na verdade outra coisa, com outro nome.

Não é medo. Não entende? Com quem estou falando? Falei comigo todo esse tempo?

E se alguém ler essas linhas vai me julgar como um louco.

Arbítrio da aceitação

Aceitar a si mesmo incondicionalmente é tarefa difícil, frente ao imperativo sinistro de ser o que os outros gostariam que você fosse. Como em um acordo tácito, aprendemos a nos portar e a mentir — descarada e disciplinadamente. Além dos vários estereótipos que marcam nossas frontes como brasas, nos discursos empregados e papéis encenados, ainda assim o aparente é a sentença dos avaliadores preguiçosos.

O medo do “que o outro vai pensar” parece coisa à toa, pela insignificância da rotina, mas seus efeitos são nocivos. Abandonamos nosso centro de decisão, onde prevalecem nossos sentimentos, e deslocamos sua importância para território estrangeiro.

Quais são os anseios da sua alma? Por que, de fato, você se sente prisioneiro? A procura pelo legítimo é valiosa batalha. Recusar o brilho enganador é aliviar o fardo imenso de um peso imaginário e cujos efeitos se mostram mais palpáveis do que a concretude aparente deste mundo de montanhas intransponíveis.

Ainda hesito, como se fosse castigado pelo impulso natural de ser quem sou realmente. Um sorriso estampa meu rosto, e demonstro certa vergonha por esta atitude sincera. Tenho receio de tantas pessoas “sérias” me censurarem.

Minha delicadeza ainda sobrepuja a força do meu comportamento genuíno. Quando quis mudar, mudei de lugar. Agora, tenho que regressar, não há outra morada em que eu queira repousar.

Aceito que sou assim: um animal que pensa e sente, num ímpeto de vida.

Alguma coisa tem que dar certo

Alguma coisa tem que dar certo! Breve, nos melhores cinemas deste planetoide, um filme que narra minha peripatética trajetória de vida. Um thriller de suspense (cujo fim é uma tragédia), drama cósmico-existencial, humor sarcástico extremo, terror inexplicável e ação eletrizante sem resultados felizes. Enfim, uma história que poderíamos classificar como ficção, se não fosse a pura verdade.

O enredo gira em torno de uma marionete que teima em manipular suas próprias cordas, numa ousadia inaudita. Sua afronta é punida com escárnio celeste, e seus esforços infrutíferos comprazem ao seu maestro. Sua vida é um marasmo repleto de triste previsibilidade e desgraças inesperadas.

Em busca das origens de seu infortúnio, empreendeu uma viagem aos confins das explicações e retornou com duas hipóteses sinistras: ou sua desventura se explica pelas leis cármicas de vidas anteriores (onde foi um algoz celerado), ou é apenas reflexo de sua burrice congênita e incurável.

Hollywood é um pálido império frente a esta produção monumental. Porém, a bilheteria de meu filme é quase nula. Os espectadores ficaram divididos entre os que choraram com os suplícios inimagináveis e aqueles que riram até as lágrimas com as trapalhadas deste engraçado (e péssimo) ator. É um daqueles primorosos roteiros que terminam com a dúvida. Ninguém entende o que aconteceu, muito menos aprecia o final da trama de complexidade inefável.

O protagonista ganhou um cachê inacreditável: uma dívida eterna e uma fama pior do que a do traidor mais desprezível. O diretor deste épico? Uma personalidade megalomaníaca, cheia de fúria contra aqueles que não foram eleitos, ou que ousam contrariar suas excentricidades.

Alguma coisa deu certo

Após escanear o universo em busca de uma oportunidade num espaço-tempo-contínuo da realidade paralela, pensei comigo: “Não é possível que, nesta imensidão atordoante, não exista algo para mim, enquanto tantos labutam freneticamente neste formigueiro humano.”

Trafegando tropegamente em meio ao caos dos favorecidos e abandonados, percebi que não seria plausível que as dádivas fossem distribuídas de forma tão injusta. O banquete está disponível, tanto da miséria quanto da riqueza. As chances flutuam, e cabe a nós estender o braço e apanhar essa esfera de possibilidades.

Corria e corria alucinadamente, entorpecido pelas visões externas, sem perceber que tudo ocorria apenas no território negligenciado do meu eu *interno*. Minha sombra se expandia além do meu corpo, e as pessoas viam apenas meu sarcasmo, meu orgulho e minha revolta, para além das minhas palavras sedutoras e manipuladoras.

A terrífica sensação de estar comigo mesmo me impelia ao desejo improfícuo de fazer trabalhos que não me competiam. Queria ajustar engrenagens delicadas e só atrapalhava o curso dos ponteiros. Paulatinamente, com o auxílio da dor e da burrice recalcitrante, abandonei este projeto.

Depois que consegui o que queria, notei amplas possibilidades (que sempre estiveram lá) e não quis mais “mexer os pauzinhos” ou “descobrir o caminho das pedras”. Retornei para onde não deveria ter saído: de mim.

O que preciso fazer? Pergunto a mim mesmo. Há inúmeros caminhos para mim, devassados na trilha da intimidade.

Emudecido pela dor

Lá fora, brilha um sol risonho, refletido nas águas plácidas como se nada pudesse macular a beleza da superfície. Mas aqui dentro, em regiões abissais, me recolho inalcançável. Em meu íntimo, sentimentos revolvem em redemoinhos silenciosos e intensos, ignorados e negligenciados. Trancafiadas em compartimentos secretos, as emoções clamam por espaço, mas restam vilipendiadas pela incompreensão e pela ausência de escuta.

Tornei-me inacessível, um enigma até para mim. As palavras rareiam, e meus pensamentos se tornam tênues filamentos prestes a se romper. Espremo minha alma, esperando que algo de essencial escorra pelos olhos ou pelos lábios, mas apenas gotas tímidas e solitárias caem. Não deixarei que meu coração se parta, mesmo que a razão desfaleça ante os escárnios do destino.

Meu choro é como a água escondida nas montanhas, correndo em silêncio sob a terra. Leio os rumos com um olhar solitário e observo, quieto, as sombras que me acompanham dentro da escuridão. Elas, pelo menos, não me cobram palavras.

Angústia pacífica

Um profundo pesar assoma no horizonte dos meus sentidos, extraindo de mim o sentido para aquilo que faço em meu tirocínio. Noto que o desejo de ajudar os outros vai minguando, enquanto cresce a busca por motivos que sustentem o que faço.

Na realidade, creio que nunca existiu tal intenção, se não na forma de manipulação, chantagem emocional e uma procura doentia por reconhecimento. Verdadeiramente, não me importo com a vida alheia. Apenas me tocam as vidas por quem nutro amor, mas sou impotente diante dos problemas que não me pertencem.

Minha habilidade no trato empático com os seres humanos encobre meu enfado em ajudá-los. Minha compreensão, quando elevada, só me leva ao raso discernimento de outrem. Cada vez mais busco a solidão. Acreditava que estar rodeado por uma rede de contatos me faria influente e me angariaria vantagens. Agora sei que só a quietude pode me acalmar, ao observar pacificamente os riachos que passeiam no meu íntimo.

A inteligência já não pode mais me auxiliar nesta empreitada, pois o compartimento em mim que pede socorro é de incerta localização. Começo a prestar mais atenção em mim e a retirar a desmedida força que dei aos outros. Fecho a porta para os agentes invasores e abro a comporta para as águas aprisionadas.

Cada vez menos tenho interesse no que as pessoas dizem, principalmente os mergulhados na piscina turva da mediocridade. Parece que assisto às palavras capciosas ou despropositadas de um lugar distante, dissociado da farsa que insistem em chamar de realidade. Tento não me impactar com cobranças absurdas, pois querem compartimentalizar a vida e analisar seus pequenos fragmentos.

Noto que a razão pela qual me movo neste mundo é a de dar sentido às coisas sem sentido, pois nada, em si, carrega objetivo algum. E tudo é olhar para o horizonte, incessantemente, por enquanto.

Letargia psíquica

O copo transbordou com o excesso de conteúdo. O corpo expurgou seus agentes deletérios. Farejei no ar um quê de embuste, travestido de ensinamento. Ao passar a lente das minúcias nos discursos professorais, encontrei micróbios dos gêneros da tolice, da maldade, da confusão, da ignorância e do medo.

Sei que, muitas vezes, a intenção é bondosa ao querermos transmitir alguma lição a outrem. Mas será que aprendemos com as nossas próprias? Cada vez mais me sinto um miserável a semear no campo do conhecimento. Aguardo um momento antes de perguntar algo, e ultimamente desisto precocemente desse intento.

Tento aplicar o que aprendi outrora, mas, checando o prazo de validade, percebo que expirou para a incessante continuidade do agora. Se algo em mim está assimilando alguma coisa, certamente não é meu cérebro. Bocejo, como se expelisse de mim o ar alheio e nocivo tragado inocentemente.

Noto que esta farsa chamada realidade é fortemente sustentada pela humanidade, para que não desabe tragicamente e não nos entreguemos a uma risada irônica. Defendo os mentirosos, desde que soltem um sorriso sardônico indicando o imperativo da situação.

Somos sobreviventes de um mundo predatório, mas nossos algozes estão travestidos de pessoas clementes. Repudio a malandragem, mas não vejo como me movimentar no meio de tantas pessoas astutas, estúpidas ou espertas.

Gradativamente, volto-me para dentro de mim, como um casulo, e percebo que, de fato, só estou aqui. Afasto todas as imagens que me desagradam. Quero contemplar as paisagens bonitas, como numa longa viagem.

Sem Título

Ela não vê o brilho dos próprios olhos, pois, ao olhar no espelho, enxerga apenas a tristeza estampada. Quando não pensa em si, simplesmente *é*. Seu sorriso, quando emerge despreocupado, acalenta os momentos de aspereza e vácuo. Talvez o medo do desamparo seja, na verdade, a hesitação em amparar a si mesma, como fonte daquilo que necessita para ser feliz. Mergulha em profundezas maculadas que obliteram a visão de sua natureza, e continua conduzida pela violência do sobreviver e pela delicadeza do permitir. Antecipa e profetiza (desnecessariamente) as mazelas, diante das imagens de miséria que assolam a humanidade.

Sente que seu sopro vital e seu protótipo de ser humano são um desperdício, no fluir lento do relógio e no tédio das possibilidades aprisionadas. Nestes momentos em que ignora sua singularidade, nenhum fator extrínseco abala suas convicções. Um dia, a mesma força que a protege de perceber suas próprias riquezas também blindará sua alma contra as investidas da maldade. Desprendida da nefasta influência de si mesma, poderá vislumbrar que a negação do bem não apaga a sombra protetora que a conduz persistentemente. Seu espírito sussurra de remotas paragens dizendo que não pode ser contido. O choro que deságua são vertentes de um potencial enclausurado.

Ela não vê sua essência, ainda que projetada nos olhos alheios, todavia, ela se imprime na sua legitimidade mordaz. Suas opiniões são a síntese de um pensamento pungente e não explicam como findou na dureza de suas conclusões. Ao percorrer, com cuidado, as trilhas desbravadas, posso entender o raciocínio, gerado na tempestade de suas ideias. Crê ter navegado todas as causalidades e adotado todas as rotas, mas não analisou as águas revoltas de seu mar íntimo. Aproximo-me dela sem tentar domar suas forças caóticas e deixo que tudo se apazigue por si. A fidelidade do meu sentimento é — e não é — uma escolha, nas engrenagens que fazem meu coração funcionar. Uma estrela cintila sem saber da própria luz. O amor é enternecido na contemplação de sua bela distração. Meu carinho é algo que guardei, perene nos mistérios de sua origem.

Fagulha

Perco-me em devaneios e na perplexidade implícita de buscar a imagem divina que nos habita. Paradoxalmente, fujo do êxtase ao mesmo tempo que almejo me embriagar com seus encantos. Há uma ternura que talvez me acolha... e uma voracidade que, quem sabe, me perca.

Como prever o fascínio? Como antecipar a surpresa? Talvez desvie o olhar só para não revelar o quanto estou intimamente enredado. Não sei se seria mais perigoso teus olhos me prenderem ou os meus te capturarem — ambas as hipóteses me assombram. Sou um sonhador. E, um dia, abandonei minha faceta mais bela ao relento das desilusões. Mas quero retomá-la.

Quero reencontrar a trilha da felicidade. Procuro um anzol que me puxe das profundezas e uma alma cuja linha afunde com coragem e loucura.

Sou arredio. As únicas iscas que me fisgam são a beleza e a sedução. Tento proteger-me da paixão com o manto da cautela, mas sei que é inútil. Tenho coragem para flertar, mas execro a inépcia disfarçada de sensibilidade. Melindres, moralismos, pudores... tudo isso me embrutece.

Amar exige prontidão, entrega, disposição. Dispensa os excessos de cálculo. Por um instante, deixei-me levar pela tua luz e escorreguei na sinuosidade do desejo. Foi um breve desatino. Um lampejo. Um incêndio.

Mas os assustados pululam pelo planeta, sempre à beira do quase. Fico sem saber que linguagem falar, se a da simplicidade cortante ou da sofisticação vertiginosa.

Ficou em mim o abraço ofertado, o carinho represado, o olhar que não consegue esconder o que sente.

Ainda espero. A esperança é um vírus incubado. E todo o esplendor dormita em mim como um vulcão.

Meandros do raso

Tropecei numa poça d’água e não notei que sua cor turva escondia agentes insalubres ao psiquismo. Desprezei essa superfície, sem perceber que estava preso a tal microuniverso. Julgava-me um mestre da profundidade, instalado em meu precário submarino de análises complexas. Vi que as pessoas continuam a ser as mesmas bactérias que povoavam o planeta há bilhões de anos, no combate violento pela sobrevivência, espremendo-se em diminuto espaço. Eu estava no lamaçal, e julgava estar no cristalino oceano. Escavava a terra formada na secura do desencanto e lancei um olhar tímido fora da cova que abri, por conta das movediças paragens da ilusão.

O cansativo desafio de se proteger proativamente dos agressores, em vez de cumprir nosso tirocínio com a devida tranquilidade da consciência, é a porta para o medo e a maldade. Há um guardião interno que surge como epifenômeno, para defender nossos domínios sagrados; domesticar essa força é enfraquecer o animal em nós. Uma luz também esparge de nossa fronte, desde que abandonemos os receios advindos da autopreservação. Preciso compreender melhor esse mundo de trevas e criar alguns anticorpos, mas preferencialmente devo produzir vacinas, a partir da profilaxia da bondade.

Para sair deste insalubre ambiente e voltar ao mar primevo, devo aceitar a responsabilidade de limpar o caminho até a saída. Eis a resignação necessária: compreender para se desapegar. Quem critica os críticos não passa de um mero criticador. Nesta natureza predatória, precisamos também atacar. Fomos programados para usar esses impulsos instintivos, para não ficarmos presos nos arcabouços mentais da inércia. Não estou acima desta turba de ignorantes. Sou um grande orgulhoso, contaminado pelos invasores que gentilmente convidei com minha ingenuidade.

Cumprir os propósitos imediatos e grosseiros, eis o caminho para maiores empreitadas. Mister se faz lavrar a terra com o suor e cultivar suavemente a partir das vicissitudes. Um diamante carrega em si o brilho, mas também a dureza para sua conservação. Atordoado pelo raso e pelo profundo, sigo caminhando neste mundo de realidade implacável e inegável.

Além dos bastidores

Não há outro mundo além daquele que se vê por detrás da janela. Além do horizonte, existem apenas espelhos. Ultrapassando os limites, o incognoscível acena, fugidio.

Vozes ecoam, imagens desfilam, sensações resvalam. São experiências que só podem ser vividas em um contexto espacial e especial. Precisamos da pista e do veículo para transitar. Necessitamos do aquário como habitat de sobrevivência. Sem ele, não há mundo das formas, plasmado pelo mundo das ideias.

A ideia antecede à vitalidade, que paira, expectante, entre nuvens, aguardando acesso aos seus domínios.

Tentarei reunir disposição para encarar o inevitável encontro comigo e as interações com outras personagens. Por ora, fico dividido entre o fingimento da aceitação e o irresistível desejo de desmascarar a atuação fajuta.

Péssima escolha é desafiar a maioria dos atores. Dirão que a realidade é aquilo que acreditam, o que cabe em sua teimosia.

Acima da turba, o diretor assiste, distante, figura esquizoide e perversa. E, soberano, está o arquiteto em seu trono, esculpindo filigranas ignoradas por aqueles que só reconhecem o espetáculo das irrelevâncias.

Do inexorável à paz arbitrada

Nada parece ser suficiente para acalmar o tumulto do meu coração. Distrações se acumulam e se infiltram como ladrões no templo da consciência. Milhões de estímulos me puxam para fora de mim, sabotando a serenidade, sequestrando o foco. Em meio ao ruído, escuto vozes demais, externas e internas e perco o fio do meu próprio centro.

Deixei-me conduzir por desejos que não eram meus, na vã tentativa de moldar o mundo ao que idealizava. Mas só existe influência recíproca, ondas que vibram em ressonância ou atrito. Somos portos habitados por afetos que permitimos ancorar. Em mim, ainda mora uma ferida aberta que insisto em tratar com aceitação.

Escuto o rangido do peito como quem escuta uma porta prestes a ceder. Busco ser imune ao mal, mas não desejo repelir o bem que me visita, mesmo que manso, mesmo que tímido. Aceito o inevitável, não como quem se resigna, mas como quem silencia para compreender.

O barro da incerteza

Sob as ilhas aparentemente isoladas, há um mesmo solo compartilhado, onde partículas insondáveis se aglutinam em silêncio. Não há como deter o fluxo da transformação, nem cristalizar a percepção do agora.

Vivo a perscrutar e devassar os bastidores da vida, mesmo sem dominar os mecanismos da crença ou da descrença. Sigo em frente, tentando organizar o caos em frágeis esquemas mentais, como se fosse possível aprisionar o mar num frasco.

Vejo os símbolos ancestrais desfilando diante da humanidade confusa, fascinada, amedrontada. Sou um entre os mutilados da alma, parte do cortejo de personalidades que esqueceram seu propósito. Ando sem direção e paro como se pudesse deter o tempo. Cansado, quero apenas calar as palavras e conter o trânsito tumultuado das ideias.

Meu corpo clama por sentir, mas o medo da intensidade me anestesia. Ainda assim, há algo em mim que busca o extraordinário escondido nos dias comuns. Descubro, pouco a pouco, que minha voz, aquela que ecoa mais fundo, sempre foi minha resposta. Já não sei se sou o observador ou o observado. Apenas continuo buscando experiências que me tirem do torpor, do barro de onde vim e para onde volto.

Somos todos feitos da mesma lama ancestral, moldados pelas intempéries e lapidados pela dor. Perder o encanto foi o preço da sobrevivência. A separação foi um artifício para ocultar o essencial: que toda diferença é apenas disfarce. A unidade se esconde no disfarce da multiplicidade, e a criação repousa onde tudo parece disperso.

Atado

Resistente e arraigado é o vírus da esperança inoculado neste receptáculo carnal. Sobrepuja fome, prazer, poder e sobrevivência. É o bastião da humanidade, tentando controlar as variáveis imponderáveis.

Formas zombeteiras e oportunistas hospedam-se nos seres humanoides. Ignoramos se é simbiose ou parasitismo sistêmico. A harmonia cega é o que torna o otário funcional.

Perceber é sofrer. Ver interfere. Até sombras tremulam quando observadas. O perfil irritadiço avistado é animal arisco. A personagem distraída carrega um pouco de paz.

Abrir a caixa das engrenagens é convite à angústia. Ovelha serena, pastoreada por olhos distantes, alimenta-se das pastagens de ilusão.

Aceitação e contentamento sustentam os felizes. Desgarrados e revoltados atolam-se nas periferias. Os humildes apenas sabem: o desconhecido opera.

O ousado irrita o demiurgo. O que nada espera, recebe tudo. Mas a expectativa é doença crônica. Possibilidades são miragens.

O cativo que se debate não muda seu destino. O conformado ganha regalias. Quem não se importa, é exaltado. Os demais, pisoteados.

Vivemos sob a égide da fuleragem generalizada. Recusar-se ao banquete é sentença de escárnio. A encenação compartilhada é o ápice da alienação.

Sou boneco fora dos padrões do projetista. Não podendo ser destruído, sou ridicularizado. O destino tece suas teias quando a presa está cansada demais para resistir.

Olhar marcial

Quem sustenta o olhar por mais de um segundo diante do outro, vislumbra redemoinhos de emoção, redes aprisionadoras, camadas translúcidas de verdade — um universo de informações inefáveis. Talvez por isso, tantos fujam, vacilantes.

Os meus não são olhos de combate, mas carregam o peso do julgamento. Minha mente devaneia por paragens inóspitas, onde apenas cintilações de inteligência vagueiam. Ainda assim, minha acuidade visual capta nuances sutis, e minha alma tateia as delicadezas invisíveis. Busco e fujo do contato, expectador ansioso, receoso.

Embora marcial, meu olhar é também abrigo. Carrega o afago da sinceridade e braços prontos para acolher. Mas o preço é a solidão, pois atrai pedintes e repele mestres. Os que preferem o engano mútuo me evitam, temerosos de verem-se refletidos sem disfarces.

Só entorpecido, o olhar suporta a crueza das constatações. Só diluído, ele mitiga a dureza da lucidez.

Mais do menos

Não entendo por que ainda tolero os intermináveis monólogos de almas empobrecidas, as convicções repetidas de rostos esmaecidos, as preces rígidas de bocas desbotadas. As pessoas estão perdendo sua cintilância, aquilo que as tornava originais, singulares. Raramente se percebe alguma ressonância cognitiva: proliferam apenas ecos.

A dúvida dos justos contrasta com a certeza inabalável dos estúpidos.

Desde tempos imemoriais, o ser humano tenta doutrinar os outros, para exercer, de forma sutil ou atroz, seu ilusório poder. Muitos consentem. Outros se aproveitam, fundando impérios de oportunismo.

Se há uma ética gravada no âmago do ser, existem aqueles que não conseguem burlar seus ditames... e há também os que se comprazem na esperteza da adulteração.

Nesse mundo de dores recicladas, não se pode ser feliz. Talvez, no entanto, caiba certo contentamento. Talvez reste ainda alguma ternura a ser cultivada.

Aguardo um desenlace, uma mínima comprovação. Enquanto isso, sigo atormentado por enxergar a realidade como ela é: cruel e sem disfarces.

Dúvida companheira

Palavras represadas desejam jorrar. A volúpia adormecida se inquieta. Os arquivos esquecidos se reabrem.

E eu, eclipsado por uma lua de angústia, sigo tentando me libertar dos grilhões do apego, das coisas que não sou.

Falo com minha alma longínqua... e só ouço sussurros. Sinto-me esfacelado, negligenciado.

A espera tortura minha imaginação e consome a combalida esperança.

Meu pedido de socorro é tímido. Vejo sorrisos, ouço adeuses, mas nada me convence — parecem todos anestesiados dentro da manada. A crença sólida demais me soa suspeita. Anseio pelo contato com os perdidos, inquietos, indecisos... mas só vejo a felicidade encenada.

Tento exibir força, equilíbrio, bom humor, mas não sei se convenço. Meu coração, ignorado.

Minha sensibilidade, percebida por poucos. Ainda me importo com tudo o que já desmoronou. Para mim, é um fardo perceber as nuances alheias, enquanto abafam os gritos que ecoam, silenciosos, em minha alma.

O coletor de entulhos

Impossibilitado de escrever, empreendo tal mister com incoerência. A paz que viso não é este marasmo ao qual estou preso, nem produto deste mundo. Arrasto-me na ideia e sua incompletude. A angústia me habita, impossibilidade de termo ou resolução.

Nada sei a priori. A alegria em mim é esboço e a vejo desajeitado. Meu olhar nubla em meio ao cenário sufocante. O que tento evitar preenche meus pensamentos obsessivamente. Almejo a tranquilidade própria do rebanho.

A força de vontade e a habilidade de atuar nos bastidores apenas me imobilizam ou me repelem. Começo a crer em absurdos tais como destino e sorte, diante dos exemplos patentes que ironizam meus esforços. Talvez existam agraciados.

O sarcasmo ocupa minhas desconfianças, com raciocínio inconteste. Cansei-me dos bilhões de falsos professores e profetas. Cheguei a um ponto que não consigo conceber algo por aprender e retroceder já não me é possível.

Resta-me a aplicação e o aprimoramento do que é sabido. Não consigo juntar as peças em uma unidade plausível e clarificada. Confundo-me com os pensamentos que brotam em profusão no vazio que me circunda. Quero abandonar esse peso inútil para respirar.

Velho alquimista

Miraculosa força que transforma as vidas humanas entre ciclos de nascimento e morte. Eu era um garoto e a imagem de infância que me vem à mente é de um homem teimoso, mas hoje vejo que só a teimosia move o mundo. Se não fosse isso, eu seria então um fracasso ainda maior enquanto ser humano.

Talvez a palavra mais adequada seja dedicação, confundida erroneamente com chatice. E simplesmente fez da família a sua rotina, sempre posicionado nos bastidores e incompreendido. Deixou os cuidados de si para depois, cuidando primeiro do bem-estar dos seus. E o tempo corroeu suas entranhas. E o convite inebriante do álcool lhe prendeu com seus tentáculos. Assim, entorpeceu a mente para afastar a tristeza e a solidão de si.

E ao seu redor todos estavam tentando lhe ajudar, mas só o culpavam. É porque não enxergavam a dor arraigada em porões soturnos e silenciosos, tampouco a doença sendo instalada dentro de si até ser petrificada no futuro.

E eu rompi os muros de casa e fui buscar meu futuro, para construir uma morada qual eu tive o privilégio de ter. Tive alicerces invisíveis que moldaram meu caráter. E aquele que era figura de crítica, criticado, mas um pai, hoje é amigo. E aquele que era criança, hoje ainda busca ser homem de verdade. E a alquimia do tempo transubstancia tudo com um vento que corta as paragens.

E as mágoas de antes, já superadas, viraram adubo e só geraram flores de uma beleza regada pela poesia da vida. E a existência é assim, uma aventura que vale muito a pena ser sentida na pele até os ossos. Hoje o velho alquimista está sentado em sua cadeira, escrevendo no seu caderno fórmulas que não servem para nada.

É só para deixar o tempo passar mesmo! E os embates travados são só porque nós lutamos apenas por quem e pelo que é importante. E eu sou só um tolo, tentando entender e executar essa estranha alquimia.

Veracidade

Ela é como se fosse um sol irradiando toda a vivacidade e seus olhos são a vastidão do mar incontida. É certo que a luz traz o clarão ofuscante e o fascínio do brilho, mas também atrai os seres trevosos e carentes destas emanações. Mariposas curiosas, insetos atordoados e toda uma nuvem de inveja são pulverizados com sua pureza e repelidos pela sua aura dourada.

Sua presença sempre foi de alegria, porém os revezes traiçoeiros minguaram um pouco a existência e embarcaram a sombra da melancolia. Peço a proteção dos elementos invisíveis e a cubro com a capa do meu amor, para que a rapacidade dos miseráveis de coração não empedre sua ternura e sensibilidade.

Seu ímpeto é de veracidade, na dor e na ventura. Sua estação é de primavera, vicejando sempre o desejo de ser livre e plena. Vera é sua graça e gracioso é seu perfil de sensibilidade e delicadeza. Seu sorriso não consegue ser sufocado e sua voz não pode ser estrangulada, quando no seu seio repousam aspirações grandiosas.

Talvez, por tudo isso, tenha conseguido meu ingresso neste mundo e eu não viria a ele se não fosse por ela. Não viria a este mundo pantanoso e de almas espúrias, sem o farol da tua presença. Sinto que o verme que sou aos poucos sofre uma lenta metamorfose para o esplendor de um ser alado. Queria evitar que as ondas das vicissitudes te atingissem, porém sou impotente para tanto.

Sua força é maior que a minha, pois antecede minha trajetória curta neste charco de pusilânimes. Você é coragem e esperança, mas não para este mundo povoado por gente mesquinha. Cuidado com os olhares espreitadores da vilania que te circunda e afasta com tuas mãos de luz o vapor deletério. Mantém sua honra e integridade nas horas nebulosas da vida.

Faz tua prece e nos inclua nela, pois sou incapaz de proferir palavras com minha mente tumultuada. Abra a porta pra mim com a singeleza e o olhar contente, que todo o resto se dissipa nas brumas do passado. O que veria se contivesse a totalidade do encantamento e o que verá ao atravessar o umbral da dúvida?

Quebra sua crisálida e mostra ao mundo suas cores, que a vida é transitória e fugaz. Depois, visita minha casa na janela de horizonte vasto. Quero apenas caminhar na praia e serei sempre a criança nos quintais de variados cenários.

Meu peito arfando pelas frases que escapam como passarinhos. Complico para explicar o simples e para que possa expulsar todo meu afeto. Só a gratidão amorosa pode expressar uma parcela do meu sentimento. Se você se visse como eu a vejo... Um dia Vera verá.

Verossimilhança d’alma

Sou mais eu quando ajo com o ímpeto de sê-lo, de modo impensado e íntegro. Quanto mais retoco o esboço primevo, mais perco a pungente convicção das inefáveis sensações.

Ao me demorar nas elaborações e contornos de sofisticação, afasto a multidão e resta eclipsada minha essência sagrada. Talvez por puro charme eu aproxime e repila, mas talvez também por medo de me mostrar de fronte ao expectador.

Meu rascunho é minha obra-prima — matéria-prima que circunda meu amor com efeitos de luzes ofuscantes. Esqueci-me de que sou pai de minhas criações e de todas as cores que empresto ao desbotado cenário do cansaço e da tristeza.

Considerei reles o que jorra de minhas fontes inexauríveis, ou esqueci os frutos inequívocos da beleza por andar sobre os solos erosivos dos corações. Em mim, existe um universo. O que sou agora é uma pintura efêmera.

Aos poucos, fui ficando carrancudo diante do espelho e irritadiço ao reparar as repetitivas mazelas de um povo que se empobreceu, pensando que o que via era meu. Ledo engano dos que se contaminam com a espúria doença dos olhos desvairados.

Testemunhei o cortejo dos fantasmas que esbarravam em mim, mas ao retirar a poeira que cobria meus olhos ensimesmados, enxerguei o belo que reside n’outrem. Ainda sobrevivem a inteligência e a sensibilidade, personificadas em algumas pessoas.

Há alguém que compartilha algo comigo, quando cedo um pouco do que me encanta e me permito fascinar pelas paragens aprazíveis. Possivelmente, alguém que não se veja como incrível e forte.

Finalmente, minha empatia descobriu uma parcela de mim, ignorada ou negligenciada. Continuo o mesmo ser temeroso, medroso de me aproximar da plenitude e de tocar o desejo. Mas caminho para fora da zona letárgica.

É bom perceber que ainda tenho pulsação e que a curiosidade me instiga. Tento não ter expectativas, apenas ser aquele que vive. Faço um sinal sutil, pedindo ajuda — envergonhado de confessar. Vibro com a possibilidade de ser notado.

A motivação para seguir é tão somente minha capacidade de sonhar, ainda latente. Errei por perseguir a suposta realidade e suas verdades extrínsecas e extemporâneas.

Tudo está disponível, embora eu ainda tenha medo e me porte com timidez. Há portas que se abrem por fora e outras por dentro, com suavidade. No limiar da entrada, uma força que invade e não se importa com nada.

Imagino um poder que me atiça e desperta o que sou. É assombroso. Incompreensível o mecanismo que movi e cujas engrenagens invisíveis movimentam situações em dimensões além da mente.

Transcendendo o invisível

Sinto ter que ferir susceptibilidades, mas não existe tal coisa que teimam em nominar de transcendência. Quase que palpável, é tão somente a ignorância. Penso que você não pode ignorar tal fato insofismável. Fizeram você crer em tais tolices desde tenra idade, o que o transfigurou em uma pessoa estulta, adulto infantilizado. Aos poucos, sua personalidade foi forjada para te levar a crer que o insondável pode ser perscrutado.

A corrupção fez com que alguns seres se imbuíssem de um conhecimento inexistente, quando sequer vislumbraram tais percepções. Jamais houve pessoa que trouxesse alguma informação privilegiada de quaisquer dimensões imaginárias inventadas ou aventadas. Sei que desapontei você, mas minha intenção foi a de incomodar. Você não é especial e eu tampouco estou em condição de me considerar assim. Esse conhecimento é vital para a manutenção básica da vida, pois finca nossos pés no chão congelado da realidade.

Tampouco, o surrado conceito de utilidade consegue ser aplicado às nossas habilidades, tendo em vista as conveniências de um mundo configurado inteiramente para interesses. O interesse é tenaz e nunca cede às evidências, mesmo em face dos mais peremptórios raciocínios. Por mais amedrontadas que estejam, as pessoas fogem do esclarecimento se este não lhe convir.

Tendo em vista nossa ininterrupta e sistemática doutrinação, fomos ensinados a desconfiar de nossos sentidos e passamos a acreditar em coisas intangíveis e extraordinárias. A busca pelo mestre, a procura pela estrela guia, o vasculhar dos compêndios de sabedoria, em suma resumem esforços vãos e estéreis. O único resultado desta alimentação etérea é o efeito nefasto sobre nosso organismo fragilizado. Quando olhei para trás e depois de me enxergar no espelho, pude então aquilatar o valor do conhecimento que amealhei e o quão estúpido fui.

Desculpe leitor, pois vejo claramente a decepção em seu rosto. Quisera trazer palavras de doçura inebriante, mas só carrego o fel de constatações angustiantes. Mas penso que só a desilusão pode trazer o acalanto e despertar a criatura enjaulada em seus devaneios. Portanto, se te trouxerem soluções metafísicas como se fossem dádivas, fique deveras preocupado. Também não acredite em mim, pois talvez eu tenha me tornado um ser esvaziado e amargo, apartado da existência.

Minha vida despropositada não é referência para ninguém, pois apenas ocupo um espaço provisório neste planeta. Muitos adoram o papel professoral, mas eu sofro o tormento de ter que sustentar esta encenação. Para mitigar minhas dores, busco brechas de autenticidade, porém nem sei precisar se este esforço é legítimo.

Não sei dizer qual seria minha real forma ou essência. Busco traços de beleza em qualquer coisa que pareça singular, dentre os painéis discrepantes do descalabro. Insisto ainda com minhas divagações perturbadoras. Não há mistérios, atalhos ou revelações. Apenas existem obviedades que desfilam frente à nossa cegueira deliberada e contumaz. O hábito só nos transformou em seres adoentados e precisamos entrar em convalescença para voltar à vida.

Dissociado

Nesta noite sonhei com a poesia arrebatadora e com a longa estrada de agruras da vida. Despertei, além da angústia, balsamizado por sua presença marcante e delirante. Nunca estive só, mesmo quando vilipendiado no pântano da “humanidade”, pois o halo dos versos me encantava com a beleza e com o precipício.

Por outro lado, sempre me senti solitário dentro do casulo de fantasias que teci, e foi ela a única e singular companhia que percebi no fluxo cambiante e no marulhar dos acontecimentos. O marejar dos meus olhos não prenuncia tempestade aparente, mas invade minha nau com as águas internas do inefável.

O leme que controlo é apenas o ajustar de direções por entre as turbulências e imprevistos sucessivos. A previsibilidade se restringe às mazelas que contaminam a rotina com o hálito da desesperança.

Consigo me comover com tolices e insignificâncias; o extraordinário me entedia com sua aparição fugidia e pouco relevante. Por isso, apenas as fortes ondas podem me mobilizar, petrificado que estou na cegueira dos elementos invisíveis. Sinto o calafrio do abandono há tempos imemoriais.

Acordei com a prosaica sensação do quotidiano que se repete de modo torturante. Sei que a lírica harpa da poesia tenta me reconduzir e me acolher em seu colo com enternecimento. Acontece que o cinzento cenário me empurrou para o artificial chamariz dos prazeres fugazes. Fui ficando entupido com inúmeras porcarias e, no final do expediente, sentindo tão somente o deprimente estado estufado do limite.

Reconheço que busco lenta e sutilmente a autodestruição. Quanto descuido! Outro fator degradante é minha intenção nebulosa de ajudar e de trazer transparência. Talvez seja minha vaidade buscando reconhecimento.

Desmistificar alguns segredos de bastidor é bênção apenas para iniciados em grandes mistérios. Simplificando o conceito, teríamos a famosa doação de pérolas aos suínos. A clareza e objetividade também ofuscam a multidão cega e aturdida.

Por tudo isso, a poesia me faz ver beleza em grotescos rincões e acabo sendo confundido com um tolo ingênuo e inepto. Por um lado, consigo suportar a existência com o sopro dos poemas; por outro, a feiura e a maldade concretas ferem meus olhos fatigados. Agir com impessoalidade aumentaria minha tristeza.

Não consigo sair deste labirinto que criei. Mal tenho forças para terminar este texto intrincado e suas linhas malsãs. Peço perdão aos parcos leitores, pois todas minhas palavras são pedidos velados de ajuda. Meus sonhos, igualmente, são tentativas de me resgatar e me guiar na escuridão intensa.

Indômito

A vida está repleta de rasuras, e não conseguimos enxergar o fundo branco do papel. A poesia me invade traiçoeira, justamente quando me julgava morto para a existência.

A cada momento, algo toca minha sensibilidade, embrutecida pelo tirocínio da razão pétrea, e já não consigo manter o foco sobre meus passos dispersos e displicentes.

Oscilo entre elementos que julgo dotados de concretude e a fina camada das ilusões que alimento metodicamente. Alguns raios ofuscam meu olhar enviesado e, a todo instante, novos horizontes se descortinam por entre fímbrias de luminosidade repentina.

Guardo anotações antigas e me sinto mais leve ao descartar o pobre preciosismo. Permito-me instantes de acomodação e fico contemplativo diante do turbilhão que revolve meus pensamentos frágeis. As respostas chegam em doses homeopáticas, como um tratamento prescrito a um convalescente renitente e resmungão.

O hábito é tudo aquilo que vesti com propriedade, ou por teimosia, fazendo dos meus dias um misto de suplício e marasmo. São inúmeros os condicionamentos e tentativas de hipnose que nos inoculam o veneno da normalidade, amortecendo os sentidos já atordoados.

A própria natureza parece ter nos equipado com limitações de toda ordem, do código genético aos impulsos nervosos. O propósito sádico impingido a nós talvez seja o de escapar dessa rede de miragens e das armadilhas ancestrais. Ou, quem sabe, seja apenas a simples aceitação das limitações intrínsecas e extrínsecas.

Talvez o único propósito consista em sentir-se bem enquanto se caminha, tendo a consciência perpétua como companheira inseparável. Com ou sem falhas, a existência é perene e opera com mecanismos ilógicos ao nosso entendimento. Somos nós que buscamos encadear as visões caóticas em quadros de discernimento e lucidez.

São momentos de claridade em que percebemos estar presos a um autômato, dirigindo remotamente os movimentos que iludem com sua aparência de precisão e racionalidade.

Não sei se algum dia me recuperarei desta amnésia profunda. Tenho a nítida sensação de já ter visto este filme. As mitologias remontam a situações similares, as mesmas lutas por liberdade e domínio. A cópia cíclica dos eventos. A roda da vida repetindo-se e desbastando a brutalidade.

Por fora, um brilho que não me engana; por dentro, uma busca pelo prazer que jaz no esquecimento. Preciso me inclinar novamente aos impulsos naturais do meu ser e à exuberância que ainda pulsa. Já declinei demais, renunciando ao que me move.

E só há um combustível para a ação: aquele que queima com emoção e beleza.

Retorno ao sentimento. E percebo, enfim, que ainda vivo — em mim — adormecido.

Farrapo humano

Porta-se tal qual um pândego em sua franqueza, porém seu pragmatismo eclipsa sua sobeja tristeza. Debate-se para preservar algum laivo de dignidade, mas esquece que tal empreitada é vã e fantasiosa, neste mundo que humilha os que se exaltam. Ninguém enxerga seu sorriso na chegada, tampouco seu pranto ao cruzar a porteira.

Anda sem eira nem beira, entre os paradoxos que se desmancham em cismas e inquietações. Não quer transparecer sua fraqueza, por isso se veste com o rude traje da ponderação. Suas dúvidas são seus andrajos, sua dívida consigo mesmo. Falta-lhe o elã vital, a disposição para movimentar suas pás de moinho, a motivação para quaisquer coisas, um propósito simples para viver.

Um incômodo persistente o acompanha e sua teimosia lhe figura como afronta, ainda que desconfie que pode ser apenas o cumprimento inexorável do destino. Desconfia que sua escrita é mecânica e que sua alma passeia em paragens longínquas. Ninguém percebe o fluxo cambiante e revolto do seu coração.

Guarda sentenças certeiras em seu semblante, estranguladas na garganta antes que se exteriorizem. Não fala nada, no afã de que alguém note sua angústia. Age com hombridade, na esperança de que alguém reconheça seu ímpeto natural.

Quanta tolice! Seus pensamentos a vaguear em correntes etéreas de inutilidade e na fugacidade de seus sonhos pueris. O mundo lhe oferece apenas o escárnio, apenas o escarro. Os espreitadores aguardam seu vacilo, pequenos deslizes para “comprovarem” que sua ciência é menor que as leituras sagazes do oportunismo e da negligência diária.

Talvez um dia tenha a coragem de lutar por suas ideias, já que a proteção não existe. Só há a provação a obstaculizar a virtude. A vida precede a resposta, que só oferece o ar de sua graça no fim do percurso. Quem sabe fale da sua dor ou cante com voz canora? Quem sabe emudeça, no contemplar do silente lago?

Quando estaciona para algum descanso, deseja em seu íntimo o desafio que lhe resgate do trânsito acelerado da turba dos confusos. Planta suas sementes, mas nunca verá em vida a frondosa sombra almejada. Sempre incompreendido, sufoca com seus próprios sentimentos. Aguarda uma palavra, mas o vácuo lhe sopra a fronte.

Espera que um dia sua blindada estrutura possa explodir. Conhece as letras ígneas e seu poder de tocar a alma, porém seus lábios estão cerrados. Ele é o pálido espectro do que sou, movimentado pelas ruas escuras e inóspitas, aguardando algum contato real.

Não há expectadores

Aguardo uma voz alvissareira que mitigue o meu fardo e alivie minha ancestral resiliência. Pergunto-me quando cessará a lição, quando findará a missão, pois julgo ter me desgastado demais neste guante.

Sou pobre espectro, que não sabe o que é melhor para si. A vida geralmente nos contradiz quando estamos em paragens transmutadas pelo tempo e que sopram nossas areias internas. Frágil existência encarcerada no escafandro carnal.

Minha pegada é plúmbea, meu corpo pétreo, minha fronte férrea e meu olhar marcial. Meu escárnio é apenas a erupção da sobeja dor. A piada disfarça meu lancinante olhar, que de soslaio ainda penetra os ocos recipientes, os falsos trajes da hipocrisia.

Os momentos que alteram vertiginosamente as rotas são raros, percalços no percurso. Em sua maioria, os processos seguem uma lentidão imensurável. Nosso prazo de validade não permite transcendência nem metafísica: a morte nos ceifa ante a proximidade do elemento intangível. O consolo é resguardar o mínimo de dignidade.

O ser aturdido argumenta que é pálido ponto no primeiro degrau da escadaria celeste. Não sei se é falsa modéstia. Sua arrogância o imbuí de poderes que não possui. E eu fico paralisado diante da estupidez imutável, do personagem canastrão que não abandona sua encenação.

Vejo a situação dissociada, talvez na quarta dimensão, como sombra que paira em nuvens de melancolia. O tempo é exíguo para conter o excesso que transborda deste navio, mas tudo que foi perdido retorna à sua pátria. Gota e mar, corpo e vácuo, dançando no sincretismo dos elementos primordiais.

Busco a síntese, mas ao avistá-la meu peito aperta, minha garganta estrangula. Vejo vestígios do todo cobrindo o horizonte, a perplexidade anunciada pela aurora. O dia cobra minha atuação, mas me debato nas possibilidades que brincam comigo. A chance sempre pende para o fracasso, pois me vejo num charco imundo de almas adoecidas.

Este é o mundo dos inversos, onde os corajosos são os derrotados. A nobreza é achincalhada pela vilania triunfante. Tolos os que dizem que o planeta é formado por uma maioria de seres bondosos.

Não consegui trazer uma mensagem edificante ou entusiástica. Espero que o cansaço vergue minha espinha, para que minha mente e meu coração tenham um momento de distração e a sorte entre sorrateira.

Concerta-te

Volta teu olhar a ti mesmo e, espantado, perceba os evos passados na longínqua viagem extrínseca. Veja, em teu negligente descuido, que algo ficou abandonado em paragens inóspitas. Mesmo assim, não prefiras buscar a atenção anelada em domínios alheios, mesmo que acossado por inúmeros carentes profissionais ou preterido por todos os demais. Uma multidão aturdida clama por cuidado e vasculha quem possa ter por guia certeiro em tempos trevosos.

D'outro lado, os avarentos espirituais apenas acenam do alto de uma geleira de imparcialidade, para não ferir o idealizado livre-arbítrio e defender o fenômeno pusilânime da não interferência. Não escutam deliberadamente o estado democrático dos imbecis, onde todos possuem a liberdade para o engano e o autoengano sem preconceito algum.

Após longa reflexão, resolve desprezar o uso equivocado do termo "conserto", pois isso traz a marca ontológica da mácula. Esquece o conceito de aprendizagem, pois além de trazer em seu bojo os cadernos de mestres canastrões, também carrega a cruel entidade professoral designada por "vida" e sua disciplina metafísica. Evidentemente, as lições aplicadas são apenas para os casos malignos ou de contrariedade infantilizada. Esquece a tolice que denominam evolução, pois só há adaptação e aproveitamento.

Concerta-te com o antagonismo dos entes mundanos e sua empobrecida dicotomia, fruto de seres preguiçosos e indolentes. Mas não sejas negligente com aqueles que se esforçam para polir seus metais reluzentes, pois é apenas um embuste da forma de armadilha cintilante.

Mistura-te em consonância com o irremediável, mas sem te contaminares. Não contes teus planos ou pensamentos para além do círculo da amizade e confiança. Não dê esmola aos fortes, nem pérolas aos miseráveis. Fala o que pensas, baseado em tua própria cabeça. Simplesmente ouve e aceita as ideias alheias, sem toma-las por tuas, e com crivos apurados.

Sai do casulo para evidenciar a beleza e a sabedoria. Conversa com todos os planos da inteligência, onde reinam desenhos organizados e estéticos. A desarmonia em si é tão somente uma projeção do pensamento mal arquitetado.

Persiste na labuta imperiosa de modificar lentamente as engrenagens que movimentam as lentes de eternos observadores. Representa os olhos que narram maravilhas para as mentes embotadas e ressequidas. Sê perene em teu caminhar e conserva a essência sempiterna e irretocável.

Acrescenta alguns contornos e cores, e sê aquele que desliza com mão firme na tela em branco. Silencia e dialoga com o criador, num pacto de amor.

Tudo a perder

Chegando defronte a um muro, nosso pseudo-herói estacou, sentindo a extrema fadiga causada pelo peso psíquico que carregava. Ao esmurrar com violência a parede, sentiu irradiar a dor inconteste.

Tal sensação não poderia ser outra coisa senão a constatação brutal de que ele era um ente real deste mundo.

Perguntava-se por que, cargas d’água, dera ouvidos aqueles que afirmavam ser esta existência algo além da concretude esmagadora.

Estava confuso, quando tudo lhe compelia a viver as coisas tal qual eram. O engodo fora instalado em si desde a tenra idade, num simulacro bem urdido da realidade.

Talvez não quisesse ter visto que todo ser humano é visceralmente um ente que chafurdou no lodaçal da mentira. Certamente, sentia que algo extrapolava as fronteiras da explicação, mas tal metafísica estava distante da compreensão satisfatória.

Sua mente era um campo fértil, mas fora consumido por pragas devastadoras e sorrateiras. O homem percebera que estava conspurcado por toda sorte de ilusões que aceitara de bom grado, formando a argamassa do paredão que agora enfrentava. Não havia outra saída senão regressar.

Todo saber que amealhara até então tornara-se um fardo sobejo, do qual estupidamente não queria se desvencilhar. Fazia parte de um todo, mas para viver, estava só consigo.

Não queria perder, quando a derrota, neste caso, seria sua maior vitória. O abandono não poderia se dar paulatinamente, mas a recuperação da legitimidade viria, vagarosamente. Não entendia por que recusava sistematicamente o novo, em troca de sua expectativa doentia.

Queria parecer são, quando a patologia do fantasioso corroía verdadeiramente seu sistema físico. Haviam destrinchado seu ser em estruturas vaporosas que ele não podia tocar com as mãos.

Acreditava que alguns tinham o poder de visitar localidades atemporais e extrafísicas, e de bom grado creu que também poderia.

Ignorou o poder fantástico da mente, que tanto criava pontes quanto ilhas. Não atinou o quanto havia se tornado um ser tolo e pretensioso.

Estava combatendo em campos invisíveis, enquanto era esmagado por pés férreos. Recusava-se a enxergar a estonteante luz, mas decidiu abrir seus olhos, enfim.

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