Elton Daniel Leme
Abissal
Parte I — Poesias
Enfim nasce meu silêncio
Abertura
Carta na garrafa ao leitor
Há mais de 25 anos escrevo como que para expulsar de mim as palavras e colocar um pouco de ordem ao caos íntimo e externo. A poesia abriu os caminhos no processo catártico de se revelar ao mundo, mas sempre evitei timidamente isso. Compartilhei minhas obras com pouquíssimas pessoas e, mesmo criando meu blog, também não divulguei com quase ninguém.
Depois de alguns anos, comecei a escrever crônicas, destilando assim todo o fel amargo, as ironias e os sarcasmos, aprimorando meu orgulho presunçoso de um estilo mais refinado, ainda permeado de poesia sufocante.
Então muitos outros anos se passaram e eu já havia juntado centenas de crônicas e abandonado ao relento mais uma série de poesias. Esqueci desse empreendimento. Esqueci de quem sou.
Só recentemente decidi publicar meu livro, mostrando os passos embrionários de quem sou hoje. A tarefa mais difícil foi reler e organizar os materiais em blocos inteligíveis.
E assim retomo um caminho sem volta. Quero finalizar essa Gestalt para voltar a escrever, pois as palavras são como água, e seu itinerário é como o mar revolto. E eu volto a tomar o leme nas mãos.
Ao leitor, se essa obra chegou às suas mãos e foi percorrida pelos seus olhos, só espero que toque sua alma e liberte seu intelecto.
Dedicatória
Agradecimento mais do que necessário
Antes mesmo de nascer escritor, fui filho. E só pude parir essas palavras porque fui gestado, no corpo e na alma, por duas presenças fundadoras da minha travessia.
Ao meu pai, o alquimista discreto, que mesmo sem fórmulas exatas, transformou seu labor em base sólida para meus passos. Entendi, com o tempo, que o silêncio dos bastidores é uma forma de amor e que há ternura na teimosia de quem não soube cuidar de si porque estava ocupado cuidando dos seus.
Sua luta silenciosa, por vezes incompreendida, foi alicerce invisível da minha formação. Da sua força, aprendi o valor da persistência mesmo em meio às agruras. Das suas quedas, tirei lições que nem os livros souberam me ensinar. A ele dedico o perdão, a amizade e o respeito conquistados com o tempo. E também essa poesia insistente que me habita e que talvez ele, no fundo, tenha pressentido em seus próprios silêncios.
Hoje, o menino que te julgava é o homem que te admira. E cada verso que escrevo é, em parte, um esforço de compreender a tua alquimia.
À minha mãe, presença luminosa, farol em noites turvas. Ela foi e é o abrigo onde repousa minha esperança. Seu sorriso é pássaro que resiste à gaiola, sua ternura é capa contra o mundo.
Se hoje ainda creio na beleza da vida, é porque herdei dela esse dom de transformar as dores em delicadeza. Sua força não veio do grito, mas da permanência. Seu afeto não foi ostentação, mas raiz.
Foi ela quem ofertou a mim o dom da sensibilidade e me ensinou, sem palavras, que a verdade pode ser dita com o olhar. Vera é sua graça. Seu amor foi minha primeira linguagem e talvez por isso eu escreva até hoje tentando decifrá-la.
Hoje percebo que minhas palavras, mesmo quando duras, carregam ecos do que recebi de vocês dois. Ele, o rigor da dedicação e a constância teimosa. Ela, a generosidade das entrelinhas e o dom da empatia. E juntos, mesmo em desencontros ou silêncios, teceram o palco onde este livro pôde nascer. Se algum mérito houver nestas páginas, ele é partilhado com vocês.
Este livro não é uma obra isolada: é também um gesto de reconciliação com a história que me formou, uma carta em voz alta para dois personagens reais que foram e são maiores do que qualquer metáfora.
Vocês, de modos distintos e complementares, foram o princípio de toda essa linguagem. Este livro nasceu do silêncio, mas só foi possível porque antes tive tudo que precisava para ser feliz.
A vocês, minha palavra mais difícil e preciosa: gratidão. Aquela que, quando verdadeira, não precisa ser explicada.
Prefácio
Prefaciando a inquietude das palavras
Há escritores que escrevem por gosto, por ofício ou por hábito. Outros, como Elton Daniel Leme, escrevem por necessidade. Escrevem como quem implode em silêncio. Como quem escava, com as próprias unhas, as camadas mais fundas do ser, para extrair de lá uma centelha, ainda que turva, ainda que inacabada, de lucidez ou alívio.
Este livro não nasceu de um projeto literário, mas de um longo processo de escuta interna. São mais de 25 anos em que palavras foram sendo sussurradas, cuspidas ou transcritas por alguém que não conseguia se calar, ainda que tentasse.
As poesias aqui reunidas não pediram licença para existir. Elas irromperam, primeiro como válvula de escape, depois como trilha de retorno.
Elton, psicólogo de profissão e "poeta" por condição, carrega em seus versos a síntese paradoxal de quem vive entre a escuta do outro e o grito contido de si. Sua poesia não é feita de ornamentos, mas de travessias. Não é performance estética, mas escavação simbólica. A linguagem aqui não é apenas expressão, é matéria-prima do existir.
As seis partes que compõem esta primeira metade do livro não são compartimentos estanques. São estações de uma mesma jornada: da inefabilidade à intuição, do caos íntimo à epifania. Cada bloco se inicia com uma introdução prosaica, não explicativa, mas evocativa, como pequenos faróis na neblina. Porque o que importa não é compreender os poemas: é permitir que eles nos toquem, mesmo que nos desconcertem.
Elton não datou suas poesias, e isso não é um lapso: é gesto. Em cada uma delas, habita simultaneamente o menino silenciado e o homem que busca, o náufrago e o filósofo, o sarcástico e o sagrado. As palavras se confundem com sua biografia emocional, mas não se esgotam nela. São palavras que nos pertencem também, se ousarmos olhar para dentro.
Ao leitor que decidir seguir adiante, aviso: este é um livro que exige presença. Um livro que talvez lhe roube o fôlego ou o devolva. Um livro que começa com o nascimento do silêncio e desemboca, aos poucos, no rumor de um pensamento vivo.
E, se porventura a travessia poética lhe parecer densa ou rarefeita demais, não feche o livro ainda. Avance até a segunda parte das crônicas. Ali, o mesmo autor ressurge com outra pele: mais direto, mais sarcástico, mais despido ainda. A poesia torna-se crítica, ironia, indignação, mas nunca cínica. Porque mesmo na acidez, Elton ainda acredita no ser humano. E sua escrita é a forma de manter acesa essa fé fatigada, mas teimosa.
Este livro é, afinal, um convite ao mergulho, mas também um espelho. É garrafa lançada ao mar e também mapa do naufrágio. Cabe ao leitor decidir se vai apenas observar a superfície... ou deixar-se tocar pelas profundezas.
I
Inefabilidade e premência
Começo esse primeiro bloco de poesias, pois é isso que elas são — tijolos que formataram minha existência. Sua maternal presença me acolheu, mas também me entorpeceu entre trilhas de se perder.
Antes dos 18 anos, fui me tornando um peixe apartado do cardume humano, perdido em abissais profundezas do meu psiquismo.
Escrever foi a válvula de escape e elemento ordenador do inefável que me oprimia a intimidade. Encontrei uma forma de dar vazão às palavras e me admirei com o resultado de um caos tecido em forma de versos.
Ao mesmo tempo que fui engatinhando na escola de me conhecer, fiquei inundado de símbolos e conhecimentos adquiridos precocemente.
E o mundo foi me contaminando com seu mar de injustiças e de seres doutrinadores cagadores de cartilhas. Não é preciso dizer que me tornei uma esponja na enxurrada de informações que vomitavam para mim.
Mas o caminho de volta é outra estória, a ser contada muito mais para a frente desse livro.
Caro leitor, tente ser benevolente ao ler os primeiros rabiscos disformes de quem eu era. Essas primeiras poesias podem ajudar a descobrir se a sabedoria é algo que pode ficar guardada em uma gaveta, ou não.
Enfim nasce meu silêncio
Enfim nasce meu silêncio
Não como isenção ou inação
Tampouco para alarde ou anúncio
Mas como paz que clamava
Há tempos um átimo de alegria
Que os lábios tenham coragem
Os olhos não negligenciem
Os braços nunca sem cruzem
Frente à injustiça na treva densaAproxima-se a palavra viva
Manifestação real do caminhar
Arquitetura de um novo degrau
A serenidade vinda da certeza
Que em nós habita a beleza
Muito além da iniquidade
E dos ímpios trajes de orgulhoNasce o homem de si
De seu espírito etéreoMas haverá dia em que ergueremos
Nos ombros a pureza dos atos
O agir será pelo não agir
O amor sobrepujando a palavraVivificada pela alma
E calar-se-á frente ao olhar
Do silêncio que elucidaEnfim nasceu meu silêncio
Grito lancinante a romper a aurora
Engatinhando no chão da estrada
Tendo a certeza de que o mundo não é só meu
E que viver é fazer a vida acontecer
Fímbria de luz
A fertilidade repousa no agora num dócil semear
Seu vicejar independe de nossos olhos ansiosos
E só vemos a lentidão da aparência
Cobrindo a celeridade misteriosa dos bastidoresMeu archote alumia apenas as proximidades
Consinto que este é um limite
O descortinar ocorre na medida do andar
Novos caminhos vão se desenhandoO quão delicado é aguardar o instante
A oportunidade e suas respectivas possibilidades
Um trabalhar passivamente orquestradoEncontrar a rima pode depender da paciência
Mas por hora conduzo a prosa
Aguardando afoito a poesia
Atracado
Vivo porque ainda não cumpri o itinerário
Apenas busco o silêncio precário
Entre a multidão de palavras
Que desfilam em minha mente
Dum pensamento confuso e temerárioSe há a verdade da vida
Essa não compactua com a lógica mundana
Pois corre poesia em minhas veias
Densa como uma chuva forte
A desaguar em solo ressequidoVivo a agitação íntima e perene
E peço ao universo
Somente a indizível paz
Que eu possa sentir comigo mesmoMinha ansiedade engole o mundo
E meu exagerado modo de ser
Toma proporções estratosféricas
Que nem eu próprio entendoO navio está atracado
Aguardando as chuvas que o possam içar
Para deslizar na vazão
De correntezas indomáveis
Na lentidão da noite
Noite que se estende lentamente
Com seu silêncio definitivoE alguns ruídos monótonos
Mas agora tenho um pouco de pazPenso no que o mundo quer me dizer
Com sua agitação desenfreadaTalvez o cuidado com as coisas pequenas
E a atenção própria para uma batalhaPeço à noite um pouco da sua paz
Que me traga refúgio e inspiração
Pois sei que não posso me eximirEntão mostra-me uma luz
Um caminho no meio
Desta confusão que engendreiSei que tudo está certo
Mesmo sendo difícil de admitir
Ninguém escapa de viverA noite se estende lentamente
A noite se entende
E amanhã a vida...
Inspiração
Mensagem que surge
Aparentemente desconexa
Encaixa nos recônditos do coração
Nas reentrâncias da mente
Parecendo mero desencontro
Mas manifesta os eflúvios do peito
Trafega em ondas arrebatadoras
Que se espraiam para caminhos
De uma liberdade sem fimDeixo que as vozes se apaguem
Pois só trazem fórmulas gastas
Repetições vazias de afeição
Então emudeço frente à paz
Que vejo no teu semblante
Onde ficam estampadas as marcas
De uma disposição que transforma
Por estradas que serpenteamos
E dos passos que ensaiamos
O colossal ato de pensar
Resto comigo a pensar
Sobre o que é ao certo
O poder de imaginar
E que nos faz criar
Toda a vastidão em siQue nos situa na dimensão
Chamada eu
No campo denominado nós
Cessando os esforços
Ou impulsionando nossa vontadeCria ilhas ou constrói pontes
Fabrica suas delicadas peças
E forma um todo
Nadando na superfície
Ou mergulhando na imensidãoFico pensando comigo
Maravilhado e só
Misturado e mesmo assim
Com esta sensação estranha
Se tal pensamento é só meu
Plenitude
Deixa o pensamento surgir
Do silêncio emergir
Desfilando num eterno devirSons e tons de doce alento
Vibrações do sentimento
Completude e contentamentoSeja no momento aprazado
Um sol que brilha extasiado
A noite que abriga o ser iluminadoDedo que aponta a porta e a chave
Que nos conduz nessa nave
Ou planando qual fosse uma aveCarrega nos ombros a tua coragem
Dentre as ruínas ao longo da viagem
Que o seu alento não é mera miragemNo labor de sua capacidade
Nutrindo seu espírito de verdade
Reflete sua incessante liberdade
Prismas da imaginação
O poder de imaginar nos situa
Na vastidão denominada eu
Bem como no campo grandioso
Chamado humanidadeCriando ilhas e destruindo atalhos
Erguendo torres e cavando buracos
Misturando e separandoE seu efeito chega a se tornar físico
Criando pesadelos fabulosos
Ou pavimentando o caminhoTambém constrói suas masmorras e palácios
Pintando para si paisagens ou abstrações
É tão real a ponto de tocar uma fímbria de luz
E o insondável o guia na sua trajetória ousada
Não sou racional
Se o percurso te assemelha qual névoa densa
Cerra teus olhos tal criança em prece
Crê na concretude do que lhe acontece
Na singeleza daquilo que não se pensaSorvemos os fluídos benfazejos e cristalinos
Do rio de águas subterrâneas d'alma
Pro futuro corrigir todos nossos desatinos
E calar a palradora palavra que nunca acalmaAbsolutamente nada espera e nunca aguarda
Os pensamentos sucumbem na densa treva
Ante teu ato puro e intenso que te resguarda
Como a luz do conhecimento que te eleva
Hausto de vida
Silêncio que reconvida a me notar
Dissipando toda essa ancestral inquietação
A ouvir a minha vilipendiada intuição
Mensageiro discreto sempre a sussurrarSobre a beleza que jaz em quem a busca
Rompendo o casulo do medo que ofusca
Luzes que incidem em meus olhos frementes
Em cada paragem trocando minhas lentesOs sons ressoam com nitidez os sentidos amplificados
As rotas e fluxos incessantemente alterados
Cores da vida que eu só percebo agora
Sobre as cinzas pisadas daquilo que fui outrora
Escrito n'alma
Contraditório que sou
Insano me levo a sério
Sensível busco a indiferença
Triste teço piadasO mundo me observa
E se distancia se observado
De mim me afasto
Por não me estreitarJogo no lixo as anotações
Roteiros aparentemente seguros
E num improviso sincero
Abro o peito ao desafioResta-me apenas o sentir
A fugacidade da tradução
A ousadia de me conduzir
Da superfície ao mar abissal
II
Itinerários e descaminhos
Aqui, ao reler as poesias cobertas pelo pó do tempo e do meu descaso, percebo alguém que não se conformava e buscava seu próprio caminho entre tantas trilhas de se prender ou se perder.
E no caminho, geralmente, costumamos dar muita atenção aos passantes ou se fixar em nossos passos sem olhar ao redor.
Seja como for, estamos ouvindo as vozes ao longo do percurso e por vezes nos damos conta de algum aviso. As mensagens emaranhadas das poesias, dentre as linhas retas do quotidiano. E a vida prosaica permeada pelo absurdo e o assombro.
Estamos todos perdidos, mas todos nesse mesmo barco. Outrora era mais empático, mas não me entendia com profundidade. Hoje me compreendo melhor, mas estou recuperando a conexão com as pessoas e comigo mesmo.
Precisei parar para revisitar com calma o que escrevi, absorvendo as emanações das palavras e seu calor. Talvez tenha passado muitos anos exercitando a arte do autoengano.
Essa maestria de agora só me fez um especialista de coisa alguma, enquanto o ofício de viver talvez seja a maior contribuição que se possa compartilhar entre nós ainda humanos.
Eterno Peregrino
Restaurar a pureza primordial
Sem os laivos da maldade
Não é mera ingenuidade
É armadura contra a palavra mortalNeste regresso ao mundo natal
Há que se escavar com vontade
Perfurando o monólito da verdade
Até a partícula essencialDesviar a flecha letal
Dos bem-intencionados do mau
E lapidar tal habilidadeMirar ao fundo algum sinal
Ignorando intempéries e o final
Entre os enganos da realidade
Ponte
Sê cauteloso na construção da ponte
Que ousar alicerçar logo adiante
Sem se perder num ímpeto ou rompante
Mirando o que o teu farol apontePor mais que a vida lhe chame
A realizar feitos no mundo externo
Procura em teu íntimo o calor eternoAntes que a cera derrameO caminho é feito de passos
De armadilha e de laços
Siga diligente e prudenteErgue tua fortaleza dormente
Numa pedra que se sustente
Entre as fronteiras dos seus traços
Caminho que se repete
Palmilha em círculo de fogo
Num crepitar de emanações adormecidas
Pairando sobre um mundo de malogro
De esperanças compartidasO caminho era flamejante
Caminhar era apenas um sucedâneo
Para aquele ser sempre errante
Dum mistério subterrâneoMergulhar me trazia à tona novamente
Para ouvir os augúrios e os desejos
De um pulsar de dor emergente
Da angústia em seus harpejosMais uma vez o caminho se repete
E tal descrição ao final jogo fora
E aquilo que me compete
Solidão que me apavora
Cores internas
Corri mundo afora procurando
Mas somente corri
Sempre apressado em conquistar
Seduzir e se deixar atrairEsgotei a mim e aos outros
Também o mundo ao redor
Até que sobrou só meu tédioFiquei à mercê do tempo
Recolhido no meu canto
Disfarcei meu encanto
Sem esperanças fiquei
Porque tudo parece tão triste
E o que fazemos tão erradoSenti-me exaurido de forças
Por isso decidi fechar meus olhos
Para que eles não me iludam maisApenas quero sentir o que importa
O que meu coração me dizPorque as cores só reluzem
Quando tocam o espírito
Um olhar ou sorriso
Que despe nossa armaduraLuta contra o egoísmo e a auto-importância
Em busca dos mistérios
Que habitam dentro de nósCorri o mundo procurando
Mas foi só quando parei de correr que encontrei
Casulo
Há tempos vasculho augúrios
Minhas poesias e seus murmúrios
Lamentos e prantos tantos
Um canto pelos cantos
O tédio imerso em tristeza
A desconhecida certezaSou casulo adormecido
Ou algo bem parecido
Porta sem fechadura
Doente que evita a cura
Observando a roda cruel
Do passado que rompe seu véuAbraço minhas pernas encolhidas
Verdades que jazem escondidas
Num mundo que resta oculto
Sou um mero e pálido vultoE inútil é qualquer remédio
Que não me livre do tédioPois ou faço a mudança derradeira
Ou serei a vítima primeira
Da minha própria atrocidade
Da minha bela falsidadePor teimar em não fazer uma pausa
Para encontrar em minha qual é a causaDe ser um sincretismo de confusões
Fachada de eternas desilusões
Tensão entre as linhas da poesia
Fuga constante da realidade doentia
Tornei-me retrato transparente
Dum sorriso que não me deixa contente
Autodescobrimento
Espelho da vida
Olhos alheios
Máscaras que carrego
Versos que encarcereiPulo do trampolim
Em águas profundas
Emergindo apenas o eu
Seguro e confianteChego a confundir-me
Com aquilo que invento
Chaves que se encerram
Em paragens íntimasDescerro portas
Janelas que atravesso
Captando as nuances
Que colorem minh'alma
Traçando alguns versos
A partir dos versos meus
Apropriei muitos eus
Sem olhar para os céus
Ou a essência com seus véusTentei traçar a rota com simetria
E ser constante no dia a dia
E a direção se repetia
Buscando afastar a apatiaNo afã de lidar com o pretérito irreparável
Revisei as palavras com espírito renovável
E não obstante aos labirintos o mais provável
Foi tornar a realidade algo palatávelE então meu olhar se iluminou
Enquanto minha estrela me guiou
Presença qual poder de pássaro que ficou
Em cume alto repousouE despreocupado acolhi o assombro
Carregando a esperança no meu ombro
Resgatando meus restos do escombro
Dando luz as ideias que ensombro
Passageiro
Se constantes ventos soturnos
Atravessarem a espessura do dia
A vida será o momento aproveitado
Manifestado por ações e palavrasUm fio tênue e delicado
Que a sutileza do sol clareia
Faz o viver imenso
Desvelando o lado obscuro
Por lampejos intempestivos
Dilacerados pelo tempoA solidão então é fardo e fado
Caminho pois ao som do vento
Sussurrando altos ideais
E buscando apaziguar o egoEnxergamos a doença e a ilusão
Mas a vida continua
Tão perene quanto a relva
Como o orvalho da manhã
Inevitável e imperiosamente
Sem nos deixar desanimarNuvens cobrem o destino
Enquanto os homens descobrem
A arte de viver
Na transitoriedade e na permanência
Mensageira
Poesia insana e parida do meu cansaço
Corta o espaço por entre feridas
Através do vermelho sanguíneo
E do torpor dos meus delírios
De um rumor cheio de exatidão
Que trilha os abismos de fúria e ilusãoTalvez uma voz ecoada de paragens distantes
Conte sobre a sabedoria divina que nos mobiliza
Mas muitas filosofias desconfiam de um sussurro
Advindo de dentro do ser humano
Capaz de orientar seus atos
Qual estrela guia no céuMuitos seguem como demônios
De seus próprios instintos
Afoitos por uma chama de desejo
Outros à procura de uma ilusão
Para iluminar o caminhoEntre o berço e a covaCaminha a poesia justa e cruel
Que cria seus versos para cada um de nós
Tecida com nossos próprios pensamentos
Fazendo de cada um carcereiro
Ou pastor de seu próprio destino
III
Dualidade e antagonismo
Incrível como que as dualidades podem parecer tão próximas em certos momentos da vida, principalmente no início da estrada. Essa confusão apavora pela insegurança que as palavras carregam em seu bojo, misturadas com percepções derivadas dos sentimentos, afora o instinto e as sensações.
E assim os opostos caminham lado a lado, desde a semente até a árvore ressequida. A busca da verdade é cansativa e por vezes improfícua, mas o espírito busca a transcendência e a imanência, algo de perene que possa se ancorar.
As forças íntimas antagônicas lutavam contra si, para determinar sua supremacia. Ao mesmo tempo que sabia quem era, parecia que havia um elemento ignorado que precisava florescer firmando raízes.
As palavras brotavam de si como se provenientes de fontes externas. Talvez fosse apenas ele mesmo a ditar o vocabulário próprio do seu ser real.
Miragens íntimas
Sofria com antecedência
As mazelas da imaginação
E ante a evidência
Sobrou-lhe resíduos de resignaçãoEm vão tecia fantasias
De um futuro quase tangível
Suas mãos restaram vazias
Na colheita do invisívelPlausível era sua lógica
Sua dúvida era trágica
Era atroz a dualidadePartia-se em antagonismo
Na voracidade ou no abismo
A perpétua busca da verdade
Olhar implacável
A verdade nos olhos é irrefutável
Tapa as bocas falastronas
Interrompe a máquina do intelecto
Todos estacionam diante do seu brilho
Ante sua chama implacável
Recuam e desviam o olharNão ousam penetrar seus mares
Para não desapegar da incerteza
A coragem está dentro de seus círculos
A humildade na sua calmaria
A inteligência ou estultície não se escondem
E perscrutamos seu mistério puro e inefávelA curiosidade sonda e ronda
Por janelas e frestas que se revelam
Os olhos são espelhos
Explicitam a tristeza ou alegria
A convicção e a dúvida
Mostram a centelha e a ferida essencial
Ferida Essencial
Estranha angústia
Ânsia parida do peito
No seio do imperfeito
Do nada ao manifesto fazer
Do aparente não-viver
Estranha angústiaRespirar não satisfaz
Alimento só aquele da alma
Sem um pingo de calma
Um estar repleto de impaciência
Coração que esconde a ciência
Vida que revive e refazCoisa abstrata
Habita no vácuo do desconhecido
Objeto perdido
Vive de perfeição
Endireita o espírito na ação
Que a aflição arrastaPeito que bate
Um pulsar que emana de onde
Uma fonte mui antiga esconde
Não sabemos até quando
Eternamente se desvelando
Até que alguém o constateO mistério nos cabe
Ou escolhemos que sim
Ou não
Por isso eu vim
Ou talvez não
Ninguém sabe
A ideia é vida e morte
A ideia é o caminho
Que poder ser um labirinto
O pensamento o bálsamo
Ou inferno que sintoA ideia é a prisão
E o livramento
Ou minha redenção
Conforme o pensamentoA ideia é a virtude
E a arte de pensar
Às vezes nos ilude
Noutras o clarearNasce a ideia cristalina
Gera o verbo divino
Alimenta ou fascina
Determina o nosso destinoA ideia é a morte
E gesta a vida
Para quem é forte
E suporta sua subida
Castelo na areia
Como um grande mar em movimento
Onde se agitam o saber e o esquecimento
Contempla o interminável drama da vidaVida esta que resta em seu tormento
Para depois acenarmos com a despedida
(E saber que ela não foi perdida)Antes não ter obstáculos que a dificultem...
Mas como provarmos nosso valor?
Conquistar-se e ser o seu próprio senhor!Antes de tudo viver
Antes que os castelos afundem
Espalhados nas areias eternas e etéreas do amor
Tateando a plenitude
Brota do corpo o desejo
Forma que sinto e vejo
Obscura no seu querer
Onde possa aparecerForma da erraticidade
Semente da angústia e da saudade
O tanto querer do vício humano
Fuga do divino ao mar insanoTranscende em essência primeiro
Aquilo que o faz prisioneiro
Em si mesmo acorrentado
A sabedoria do que foi atormentadoEm seus pensamentos de correnteza
Quebra os grilhões da certeza
Da tua pungente incompreensão
E acaba com toda corrupçãoVindos do nada e distante
Assim caminhamos neste instante
Vamos seguindo ao incerto
Percorrendo por muito pertoOs caminhos da alegria
Na quietude que nos cria
Evitamos as asas da plenitude
A passos profundos de paz amiúde
Enigmas
Em imensidões virginais
Vadeiam meus devaneios
Que por demasiados súbitos
Rasgam a noite da esperança
Armam um teatro e dramatizam
Com mordaz seriedade
Arrancam um sorriso irônico
Dos lábios dos deusesA duração de tais estrelas
A medida dos meus dias
Contemplação e cântico
Raiz de meus versos
Mapa dos meus sonhos
Alarde das minhas visõesMinha fronte aclara desejos antigos
Apaziguados pelos pensamentos tecidos
Intrinsecamente inseridos
Pungentes em toda a trajetória
Retornam ao aconchego dos enigmasMinha ânsia de completude é voraz
A espera da essência misteriosa
A aurora instigante e feminina
Desconhecida e igualmente enfurecida
Prendendo-me a castelos libidinosos
Sublimando espaços e totalidadesEm braços delicados de toques inebriantes
Em olhos de curiosidade e domínio
Distribuo ilusões democráticas e fiéis
Na manutenção de tais mistérios
Recomeço
Asserena teu peito
Frágil figura
De hausto ofegante
Soergue tua fronte
Retém em teu semblante
Benfazeja alegria
Sustentáculo do esforço
Tensiona tuas fibras
Retomando o árduo caminhoRecomeça
Com toda tu'alma
E só não pensa
Em viver tua vida
Surdo ao coração
Envereda na simplicidade
Não queira ser nada
Importante é sentir tudo
Dentro de ti
Lei de cada instante
Fiel à minha lei de cada instante
Celebro a impossível normalidade
Após os rompantes da loucura
A insanidade da coragem persistente
De simplesmente ser eu mesmoSupero as ilusões cadentes
Sonhos de luz resplandecentes
Na singeleza dum único brilhar
De um ponto que se move
A busca louca por permanências
Quimera
Em lúgubre noite repousarei
Cessarei o idílio plangente para devanear
Não o mero sonho de quem imagina que ama
Mas daquele que tenciona se dominarHoje ao repousar extenuado em meu leito
Buscarei um adormecer minimamente consciente
Se acalmando ao silenciar o peito
Parando o diálogo pernicioso da menteQuando findar a azáfama deste meu dia
Penetrarei na escuridão da noite conselheira
Sentirei o peso sobejo e etéreo da poesia
Ao entrar na sua senda d'alguma maneiraChegaremos enfim ao mesmo lugar
O que importa são os caminhos do coração
Na espreita de si ou no íntimo sondar
Reverenciando a vida de vertiginosa amplidão
Dualidade e Antagonismo
O poder de imaginar
Nos situa na região vasta
Denominada eu
Bem como no campo imenso
Chamado humanidadeCria ilhas e destrói atalhos
Ergue torres e cava buracos
Mistura e separaSeus efeitos são físicos
Cria pesadelos e cristaliza
Ergue palácios e pinta paisagens
Desassossega e harmoniza
Peso onírico
Consinto que o mistério se apresente
Com a roupagem que lhe aprouver
Descortinadas todas as possibilidades
Entre este mundo e o de láIgnoro qual a morada real dos pensamentos
Peço apenas a lâmpada para as respostas
Que minha fronte se torne leve
Para não vergar sob o peso das certezasCedo algum espaço para a minha alma
Sem olvidar a carne que a enlaça
Mas deixo a mente expandir e elevar
A consciência qual um mar volátilE sigo por estradas que mal iniciei
E talvez possa abandonar
Entro nos impérios do sonho
Despido do que possa me ancorar
IV
Desumanidade e empatia
Talvez, nesse capítulo, se perceba mais a desumanidade do que a empatia. É possível que o poeta sofresse de uma enfermidade crônico-empática e qual uma esponja estivesse saturado do fator humano.
Em uma fase da vida, cambaleamos entre a misantropia e a esperança no homo-sapiens. Mas, a esperança é um vírus teimoso e pandêmico. No final, vence a realidade pungente e alucinante.
A poesia, por sua vez, é o que faz ser plausível a vida, ainda que estejamos nessa mesma nau humana, numa arca de animais que se julgam divinos.
Nunca datei os escritos. Não sei dizer se perdi as peças do tabuleiro. É dolorido ver minha estupidez ou ignorância infantil. E o pior é constatar que ainda subi apenas um degrau no mister de viver a vida.
A vida é esse caminho solitário e o exercício da convivência. Será que há algum aprendizado de fato possível? Enxergar a humanidade sem se contaminar. Espalhar sementes e erguer nosso archote. Sigamos.
Sombras de Humanidade
Vindo do nada ao tempo
Rasgou-lhe o vazio
Firmou-se no chão
Ergueu-se do ventreA brutalidade de sobreviver
O pavor de sempre sofrer
E da felicidade ameaçadora
Exigiu veracidade da alma
Dos desejos e das razõesE logo se alçou com destreza
O fracasso apoderou-se do homem
Pobre figura de sincretismos
Sem ponto de equilíbrio ou referênciaA tempestade o açoitou
Sentimental e de feições animalescas
Não se julgou capaz
De se desvencilhar do orgulho
Teve medo de errar
Do seu desmerecimentoSua modéstia ilusória
Crivou-o de sofrimento
Despertou-lhe falsa fé
Seu medo da pequenez
Remexeu suas víscerasEspelho contemplativo
Enxergou a hipocrisia
E a mediocridade
Acovardado não quis perder
Seu quinhão de moedas ilusóriasViu sua face a fremer
Num vácuo a se desfazer
Sofrendo a solidão de si mesmo
Cronologia das Dores
Gerações jazeram antes do fatídico agora
Sangue vertido dentro da arredoma de egoísmo
Milhares na inércia e na inépcia a evocar a hecatombe
Corruptos de todos os naipes chafurdando na cupidez
E ainda todos aqueles com medo da auroraComplexas são as causas do desamparo
Nossa história de lutas e mortes cruéis
Carentes de amparoSem esboçarmos o ato solidário
Por quanto somos a pulular neste orbe
Viemos de um só lugar e retornaremos inexoravelmenteArrastamos a fúria intrínseca do universo
De nossa vaidosa e centrípeta força umbilical
Tornamos a encetar a espiral da perfeiçãoQue poderá com os séculos distantes
Apaziguar as memórias do nosso cambaleante coração
Semivivo
Rodeado pela turba acéfala
Bilhões que pululam desenfreadamente
Lotando o depósito humanoPovoam este jardim terreno
Acrescem mais um elo
Nesta corrente de escravosPopulações gigantescas
Urgem por migalhas de vida
Filhos do desprezo nas filas do descaso
Corações mendigando afeto
Sorrisos que se anulam no cinza
Olhares opacos que são milharesSequer diviso alguém na neblina
São figuras fantasmagóricas
Numa tentativa patética de simulacro
Predadores travestidos de samaritanos
Destituídos de singularidade e cintilânciaPor isso busco a autenticidade que se camuflaMeu olhar canaliza o infinito
O aspecto irrevogável e premente do momento
Prismando possibilidades na usina dos sonhos
Cristalizando instantes
Nas veredas que se descortinam
Numa aprazível e pungente realidade
Semeador
Quem está sempre disponível
Certamente será dilapidado
Ao contar seus sentimentos
Sem ser solicitado
Dando a atenção desnecessária
Demonstrando a importância
Que sequer quer ser notada
Tornando o especial trivialidade
Sem despertar a presençaHá a possibilidade na inteireza
O convite para o conhecimento
A surpresa para quem almeja
E para quem prefere previsões
Melhor ocultar o que é reluzente
Para quem prefere enigmas
Basta deixar evidente
Se imaginarem de antemão
Só um sorriso lacônico
Premência
Correr atrás das coisas
Quando nada existe à frente
Estender os braços para o céu
Quando não há limitesLutar incansavelmente
Quando inexistem inimigos
Partir rumo ao incognoscível
Quando este sucumbe
Ante nossa estupidez
Eis o desnecessárioAndar ao teu lado
Sem propósitos compreensíveis
Notar a desimportância
Dentre a multidão de coisas "importantes"
Trabalhar em campos interiores
Quando a esterilidade permeia o entorno
Circunvagar o olhar
Quando o foco tonteia a visão
Apontar a imensidão
Despir-se de tudo mais
Eis o essencial
O riso do guerreiro
A seriedade ou comédia da vida
Para mim tanto faz
Acima dos personagens está a plateia
Além do bem e do mau
Mesmo que seja um picadeiro macabro
Ou então um hospital psiquiátrico
Ou eterna escola de repetentes
Ou palco de celebridades aposentadas
Ou de peregrinos aflitos
Ou sei lá o que somos nósNão somos mais importantes que ninguém
E nem nada sobre o pó que se ergue
Num mundo sem certo ou errado
Vislumbrando o belo e a feiura
Sondando a realidade crua
Rindo da loucura
Espantado com a lucidez
Pelas veredas do coração
Numa vida pura e implacável
Que não requer explicação
Fragmentos da noite
Noite onde inexiste o conhecido
Aos pobres e minguantes olhos humanos
Que remonta à escuridão primordial
Revelando faces de linhas sombrias
Remetendo à persistente tristeza
De expressões soturnasOs deuses desdenhosos riem
Com seus olhos baços e opacos
Qual peixes fisgados já mortos
E nos observam desgovernados
Qual insetos rasgando o negrume
Sobre matas obscurasSob o brilho escarlate da lua
Figuras curiosas surgem do invisível
No seu afã de pertencer à carne
E estranham este ser que transita e transcende
Entre a estupidez e a plenitude do mistério
Este ser chamado humanoQue não se sabe ao certo se sabe
Que ignoramos se ele deveras vê
Que não auscultamos seu ritmo
Que desconhecemos seu paradeiro
E não sabemos onde mora
Mesmo habitando no próprio espanto ou tédioNa noite tudo é escuro
Ainda que o fogo ilumine algumas árvores
Mas o desconhecido fulgura e assusta
Todos os portadores da velada consciência
Existem na luz dentro da escuridão
São fragmentos da noite
Figuras Paralelas
Forma esculpida
Mármore esbranquiçado
Horizontalmente perfeita
Rastros de brilhoRetira-me
Da toca obscura
Para olhar a eleita
Criatura puraPor detrás das pedras
Aparecem sorrateiras
Rastejando sua volúpia
Dentro de sua fendaRasgam o mundo
Qual gato selvagem
Atravessa florestas
De segredos váriosFiguras paralelas
Entre os mundos
E os muros
São lampejosDentro duma visão
Sombras rápidas
Que abraçamos
Mas que deslizam
Na paisagem brutalFiguras paralelas
Restamos perplexos
Dançamos no fogo
Tingimos as vestes
De um ser meio animal
Brincando como espectros
Entre demônios e santosFiguras paralelas
De olhos felinos e misteriosos
Feiticeiras por natureza
Adoram não fazer sentidoAnte a máquina negra da razão
Assustam o intelecto obtuso
Acariciando as barbas da ignorância
Epopeia
Conversas paralelas
Discurso sobre tijolos
O muro da ciência é labirinto
Infestado com teias de ilusãoO ser humano tenciona ser gente
Mas despreza seus irmãos
Com seu rosto metálico
E gestos maquinaisPara aliviar a dor
Esculpiu sua emoção
Num processo ilógico
Belo como outroraEnte apartado da Terra
Empunhou a espada
Mercadejou a poesia
Perdeu seu poder de vooEspargia alegria fortuita
Lançava moedas de luz
Agora escravizado por reflexos
Sua arte virou fezesOutrora víamos artistas
Agora só masmorras metafísicas
Onde proliferam doenças d'alma
Maneirismos e esquisitices bizarrasNa fábrica de miragens
Arquitetou uma realidade triste
Refletiu o homem
No espelho repartido do tempoPunhais manchados de sangue
Confundidos com a glória
O ser humano é algoz
Assassino cruel doutrosHeróis na sua mansuetude
Nos resgataram da abissal estupidez
Todos que se tornaram desumanos
Sem notar sua escassez de amorErigiram estátuas dos mortos
A palidez contrastou com as trevas
Elegemos um juiz invisível
Atroz e onipresenteA caneta riscou o livro e podou sonhos
Pôs cercas no ilimitado
Pulamos do oceano
Para o aquário das restriçõesO ladrão rezou para roubar
Mas só encontrou seres andrajosos
Corou ante os moralistas
E dormiu extenuado no solo da realidade
Olhos que espreitam
Soturnos olhos se esgueiravam embaçados pela fantasia
Ouvidos que captavam a gritaria e os tácitos acordos
Bocas capciosas que vociferavam impropérios
Semblantes sorrateiros e de metálica indiferença
Empanavam o que antes era alegria e qualquer cintilânciaDentre os pilares da pretensa sabedoria
As mentes tacanhas gozavam da razão adormecida
Esfacelando as visões do intelecto esfarrapado
Havia apenas ovelhas rebeldes e desconfiadas
Brincando do velho jogo de ter autonomiaEu fui infante e dancei a sôfrega música do descaso
Sorri entre as celas imperdoáveis do mundo
Fiz a mesma ciranda em círculos de escravidão e sorri
Para a sedução inescapável dos loucos arbítrios
E minhas mãos acenavam desvitalizadas para o desconhecidoPassavam sóis e luas e nuvens de saberes vilipendiados
Acerca de verdades entranhadas e relegadas
D'um mundo perene e implacável
Que acolhe risonhos ou tristonhos
Que despreza os vencedores e oprimidosOs raios solares fustigavam as costas dos escravos
Daqueles que não competiam e dos que se digladiavam
O saber iluminava as frontes carregadas e doridas
Na travessia das pontes de imorredoura esperança inatingível
Perseguindo os rastros de sombrias e antiquíssimas profeciasVia nitidamente e com loucos reflexos
O semblante brônzeo que vigiava escrituras
Encapuzado e carregando sua espada enferrujada
Taciturno detinha a chave dourada
Contemplava tudo isso dos seus jardins inventadosO tempo girava sanguíneo no firmamento
Na remota escuridão da minha consciência
Na fragilidade de meu coração conselheiro
Retendo em si sua efêmera condição
E a ousadia de conter a incertezaA vida era ainda batalha que se travava
Insolúvel e dentro de domínios misteriosos
Cercada por mil muralhas e fronteiras
Permeada por imperiosos e infindáveis desafios
Hermeticamente fechada pela obscuridadeVislumbrávamos as flechas envenenadas
Cruzando os olhares de inimigos ocultos
Mas estávamos enclausurados na monótona canção
Aspirando a escadas da eternidade
Sem vermos nossas próprias chagas moraisNão víamos nossa degradante condição
Tampouco o incômodo nos livrava da estupidez
Ou nos amparava das armadilhas de constante ilusão
Para enxergarmos as maravilhas intocadas
E enfim auscultarmos o pulsar íntimoProfundos foram os oceanos dantes navegados
As correntes e os afetos desvelados
As ondas revoltas que nos sacudiam do ápice ao abismo
Pois repletos estávamos de sonhos e de neve
Serpenteamos por escarpas dolorosas e anestesiadosIgnoramos a íngreme subida da vitória
Longínquas foram as curvas e insanos os atalhos
Imensos eram os desvios que não eram a estrada
No final da estrada apenas outro caminho...
O porto prometido não restava nestes rincõesÀ beira da procissão ressonavam violões
Serenatas mui tristes exultando o assombro
Convidando com a dissonância melodiosa
De volta aos recantos plácidos e silenciosos
Víamos grande séquito de seres que retornavamSenti grande tédio e murmurei a canção da monotonia
Caçoaram de minha teimosia e da estática posição
Eu preso à inércia assistindo à rotação dos planetas
No solo concretizado do obsoleto simplesmente olvidei
Eu era puro lamento e caí em desgraçaMas a amiga morte ainda não tinha me tocado
Os relógios marcavam a hora determinada
Do eclipse da humanidade
Entretanto sobrou a solar realidade
Obliterada pela lua negra do infinito e dos nossos desvariosO incomensurável beijou nossa testa calejada de milagres
E ajoelhados ante o incognoscível vimos um olhar divino
Que distante e sisudo chorava nossa animalesca condição
A ampulheta quebrada derramava a areia gelada
Que o vento deixou pulverizada na plenitude da imensidão
V
Imanência e transcendência
É possível ao homem transcender sua débil condição? Talvez pense que sim, mas é provável que apenas precise cumprir sua destinação. E essa tarefa, engendrada por alguém sentado em um trono, talhando em uma pedra que só vai virar pó com os milênios, é invisível aos olhos humanos.
Ninguém sabe ler os desígnios e somos enganados por uma multidão que finge ou crê ser capaz disso. Como transcender o cárcere? Como escapar desse escafandro de barro?
O ser humano é um animal e um pouco além disso, mas não se deslumbre. Das suas possibilidades apenas temos um vislumbre. E ele almeja o encontro, o afago, o assombro. Busca fugir da apatia e imagina, fugindo a esmo de si.
As pessoas ainda brincam com as palavras, sem que elas conectem com sua essência, seu saber, sua verdade. Quando eu era criança levava a sério essa mágica de cuidar das palavras, tentando descobrir seu conteúdo precioso. Agora que supostamente sou adulto, vejo que perdi o encanto ao deixa-las em gaiolas para serem admiradas.
E esse conversar consigo aquece um pouco a chama no peito. Quiçá eu tenha sido alguém melhor, mais próximo a algo humano. Preciso recuperar essa imanência perdida. Transcender ainda é outra estrada e me indago se algum dia cheguei na borda desse mar.
Fulgurante
Só quando o homem silencia seu diálogo interior
Ou quando é barrado na sua ilusão
Que consegue descobrir para que foi destinado
Que se permite escapar de seu rumo errado
Toma coragem e se pergunta
O que realmente tem importância em sua vidaAí então já não se importa com o que conhece
Nem percebe mais a pessoa que é
Muito menos sofre demais pelo que sente
Entretanto toma conta daquilo que pode fazer
Os limites que pode superarE qualquer sacrifício é pouco
Toda força é o primeiro passo
Sabe que seu trabalho é imenso
E seu amor é a potência que move
Sua liberdade faz libertar
E seu coração puro traz para si
Todas as condições de modificar
Aquilo que outrora era prisão
Mas hoje é chama que purificaO coração do homem pulsa
Ele já não se aguenta parado
Precisa agir
E as palavras são brasa no peito
Que agora é pequeno para guardar
O impulso forte
Que o transforma por onde andar
Enluarado
Com meu carinho abre-se a flor
Solta a beleza por inteira nua
És como o sol e todo seu calor
Eu triste como a minguante luaEm seu noturno e belo mistério
Que em sua brilhante aura irradia
Todo o esplendor de um império
Governado pelo dom da poesiaCom meu amor alarga-se a fresta
Entre a fantasia e a realidade
A sombra de outrora agora me resta
Tua presença nesta hora me invadeQuero pousar minhas mãos em teu rosto
Pois sou humano e poeta apaixonado
Deixo o encanto e todo o gosto
Versos dum coração enluarado
Brilho de outono
Procuro-te
Entre o pôr-do-sol
Píncaros inacessíveis
Crateras e profundidades
Tesouro armazenado
Segredado por tua vozNo sorriso que ofereço
Uma alegria emudece
Desaparece o orgulho
Sem promessas
Sinceridade singela
Um interesse puroÉ na crua realidade que piso
Comovido e surpreso
Preenchido com o invisível
Colhendo os frutos
Além da beleza
Vejo algo a maisUm alguém
Caminhante na ilusão
Tornando-se única
Singular num horizonte
Vasto e promissor
De doação e amor
Sinuosidade
Olhos com certa flama
Sem palavra emanada
Só mãos que afagam
Ante a promessa
Mera possibilidade
Carinho que dura
Caminho que curaDevassa a treva densa
Sorriso que desnuda
Destino que se abre qual flor
Quebra a estátua de mármore
Abraço que enlaça o poeta
E seus versos lamuriosos
Olhos de encontrarRompe o que é mero instante
Mãos de bálsamo
Senda que traga e pulsa
Por veredas desconhecidas
Purifica com teu fogo
Centrípeto desejo
De querer inextinguívelEm teu seio a volúpia
Que os ares sopram nos picos
Águas contornam montanhas
Itinerário ou destino
Alma que singra
Cântico de beleza
Errando por portos aprazíveis
Uma nova poesia
Escrevo nova poesia
Tosca e simplérrima
Às vãs retinas
Que nada desvelamEscrevi versos antes
Testemunhando a sinceridade
Tangendo frágeis fibras
Chancelando indeléveis marcasEscrevia versos outrora
Como quero agora
De pureza e delicadeza
Profundamente exarados em mimEscrevo versos neste momento
Nas raias do tormento
Vazio e escasso
Para adentrar num mundo possívelEscrevo versos novos
Mesmo que com palavras antigas
E com rimas pobres
Mas com sentimentoEscrevo o poema
Que em si erradia
A vida interior
Um universo cioso de completudeAnseio a mansidão d'alma
O bálsamo dos sons e imagens
Um toque que me vitalize
E pulse esse coração intenso
Odisseia do sentimento
O sentimento é destemido
Arma-se de coragem
Ante a carranca da razão
Segue sua intuição
Como numa viagem
Rumo a um reino desconhecidoO intelecto confirma os seus motivos
Que antes não atinava
Por pura teimosia
Apenas insistia
Na linha que calculava
Que o enquadrava no mundo dos vivosPulsante centelha que nos anima
Sem a qual a mente esvanece
Obedece só ao império da alma
Não age pela calma
Incomoda até que algo acontece
Não abdica aquilo a que a iluminaEm suas peripécias não anda só
Pois quer cantar aos ventos
E precisa de parceria
Para organizar seu caos e a poesia
Compartilhar os seus alentos
E renascer do pó
Poeta teimoso
Escrevo por insistência
Pois se abandono a ideia
Ela me persegue
A erguer a ponte
Entre dois universosMinhas linhas tortuosas
Na profundidade de poça d'água
São tentativas tímidas
De expressar o intangível
Só que me atrapalho entre elasConfio nas letras mentais
Que passam pela tela abstrata
Mas seus traços são suaves
De uma tinta etérea
A pairar em meus domíniosO que é meu é um tanto universal
Misturo as cores e os tons ao léu
E no final percebem o quadro
Em distâncias diferentes
Espero ansioso o espectador atento
Reflexo de oceano
Aprecia o raso e mergulho caótico
No intenso turbilhão dos oceanos
Miraculoso paradeiro de alguns seres
Nem gente e nem forma
Revestidos de uma alma de altivez
E da turbidez das profundezasContenho comigo um sorriso
Uma alegria meninaO segredo do peixe que nunca é enredado
Em seu fluir de liberdade
Não serei estrangulado
Dada minha dança escorregadiaQueria ofertar segurança
Só que o conflito das emoções
Surge me rasgando o peito
Como compromisso inefável
Partícula insondável e invisível
Sobre um pilar inquebrantávelEnsaio falar sobre amor
Mas gaguejo sem objetividade
Indigno que sou de pronunciar certas palavras
Preso n'algum degrau
Nos ciclos remotos de outrora
Travando a roda do tempoGostaria de dizer que não (mentiria)
Ou talvez que sim (assustado)
Parcamente me entendo
Menos do que eu posso sentir
Contemplo assombrado as cercanias
E aguardo o destino entediado e curioso
Onde um rio começa
Não sabemos ao certo
Nem onde ou quando um rio começa
Indeterminada fonte de sentimentos
Fisgados que somos pelos momentos
Dum gostar que simplesmente não cessaTalvez até antes pressentido
O sopro de sua iminência
D'uma delicada e preciosa presença
De um querer bem e ser querido
Além de tudo que se pensaNunca saberemos tampouco
Quando ou onde o mesmo rio termina
Desaguando qual saudade de um louco
Do mistério da noite e do muito que foi pouco
Dessa certeza que alucina
Um corpo que intenta
Vaso que encerra sabedoria inaudita
Modelado em paragens inacessíveis
Dum mistério entranhado em si
Para além da impossível gênese desse caosMáquina bruta arquitetada com delicadeza
Invólucro de centelha desconhecida
Flutuando no mar incognoscível
Enlaçado pela Terra amorosaComo um espelho d'água
Refletimos a diversidade e o perecível
A constância e a pujança do movimento
Fluxo incessante e fugazMinha veste rota foi forjada
Com desejo inextinguível e transcendente
Da fonte d'um corpo que intenta
A mercê de uma sombra a rir nos bastidores
Uma palavra
Palavra tão bela
Sussurra a mortal condição
Redescobre mistérios
Que no fim inexistemNão possui residência fixa
E a vastidão lhe guia
Num mundo igualmente incrível
Habitado por criaturas de segredosPara além do seu degredo
Palavra que cala e abala
Derrubando certezas e deslumbram
Todavia não dizem tudoInexiste a origem se não pensamos
O pensamento é escravo e carrasco
Ardiloso e requintado em suas tramas
Grosseiro e ignóbil quando despido
Da mística universal do infinitoPalavra que rompe correntes
Se esta é feita de ilusão
Extremada marca como fogo
Veemente ergue muros de desumanidadeHonradas na boca do erudito
Mas o sábio cospe em seu caminho
E a criança mostra a língua de desprezo
Podendo se mostrar rude e pungenteMuitas vezes tenaz e atroz
Ademais parece a outrem execrável
Alhures ferindo de asco ou fadiga
Podendo criar um sincretismo junto ao tédioAs palavras tangem a realidade e a fantasia
Formatam as mentes cativas
Criam vínculos e laços cegos
Parindo a poesia do vácuoConstroem castelos sobre nuvens
Cheias de sutilezas prendem a atenção
Podres por dentro cheiram fétidas
Ruminam e corroem o coraçãoTentando ser fatídicas e conclusivas
Embora se mostrem quase torpesAs palavras são belas em um minuto
Noutro repugnam e enfurecemSe esgueirando nos calabouços inconscientes
Muitas vezes vazias
E escamoteadas de hipocrisia
Sua falsidade cria volúpias e demôniosCom inúmeros sentimentos de vileza
Elas despontam no sol ou obscurecem a alma
Agradam aos ímpios e néscios
Confundem os ineptos e selvagensSó não enganam mesmo o olhar sempre cálido
E não olvidam nosso enfadado prosaísmo
Quando seu espírito é de matéria poética
Podem ostentar glórias e aprazer os crâniosMas não satisfaz um átimo da plenitude
Diminuem a felicidade que virou fórmula
Aumentam as guerras
Que aceleram as máquinasExiste a palavra se o homem
É morador respeitável do mundo que o cerca
Palavra aquela que nos cala
Que diz sem falar nadaQue esconde carinhosamente
Mas não se oculta no casulo da magiaA palavras parecem mais com a brisa
Como um carinho que não promessaUm sussurro indecifrável e esclarecedor
A palavra nos traz medo e angústia
Mas nos impulsiona avante na nave Terra
Ela é a nau inquieta com destino ao desconhecidoÉ a partícula do átomo da explicação
O quase entender e a quase vida
Fragmento do ser
E vislumbre da verdadeA palavra é o combustível da mente
O bálsamo do inenarrável
A palavra é mãe do tempo
Pintura sorridente dos quadros de humanidadeMatemática imprecisa parida do absoluto
Faz seu banquete da arte
Faz chorar todos os deuses
Emudece todos os poetasProvoca os seus cantores
A palavra nada no mar fundamental
Primórdio das filosofias
Sementes nos livros e nas estóriasA palavra quer ser luz
Mas somente com a ajuda do homem
Que é mais do que palavra
Podemos iluminar as ideiasPorque a palavra é criança
E o homem fruto do indescritível
E ambos como árvores
De raízes profundasPlantadas no solo do insondável
Não existirá arma mais poderosa
Do que a palavra
Quando estas cessaremSerão tão vivas
Qual chamas do fogo
E as águas do mar
Mais do que palavras
Desculpe caro leitor não conseguir estabelecer pontes, ou mesmo criar conexões entre os textos. Minhas sinapses estão eletrificadas pela embriagadora força da poesia. Talvez a transcendência almejada seja o fugir da apatia e da nossa prosaica condição. O olhar do poeta enxerga dentro do insignificante e do tédio. Mas quem sabe eu seja apenas um tolo como sempre?
Porém, é possível que eu tenha tropeçado em fragmentos de eternidade ou escutado um sussurro que falasse sobre coisas depositadas no armário do perene. Essa voz que confunde, sem saber se emana de rincões externos ou de compartimentos do eu.
Devo ter me confundido achando que sou essas vozes, pensamentos, vivências e encenações. Isso é perturbador mesmo! E isso a que chamo de personalidade poder ser tanto a teimosia sedimentada por fatores caóticos, quanto uma essência que não se dissolve com a morte.
Convido você a pular do trampolim sem olhar o que está abaixo. Não importa o que pensei ou senti ao escrever esse último bloco de poesias. O coração não é apenas um músculo, guardando algo que brilha e sobrepuja. Importa a mim apenas seu olhar como que fisgando as palavras e guardando em sua rede.
Você abriu a garrafa e lá estavam palavras proferidas pela alma. Eu não estive escrevendo todos esses anos. Estava apenas esperando alguém para conversar sobre o inefável.
Mesmerizado
Quando finalmente se encarar
Intimamente só verá chamas a arder
Um vazio profundo e pleno
Tal como um lago parado no tempoSentirá somente um tremor
Uma tristeza indefinida
Qual fosse um chamado do infinito
E tudo findará exatamente igualUma certeza absoluta reinará
Sobre este mundo ser uma farsa
Em que pouco sabemos de útil
E investigaremos além da ilhaQuando realmente se despir
O vento fustigará tua face
O mundo parirá a maravilha
Do seu ventre de mistérioQuando o sol raiar
Verá que todos os trabalhos são iguais
Todos os caminhos são iguais
O final é inexoravelmente o mesmoQuando finalmente chegar
Saberá que o fim não é promessa
Conhecerá os segredos
Dos meus olhos surpresos
Corpo e alma
Primeiro adejaram os corpos luminosos
Jornadeando rumo ao desconhecido
Inaugurando a palavra mirífica e cambiante
Preenchendo os espíritos com movimentoFinalmente acercou-se o gesto
Acariciado pelo frêmito da emoção
Incendiado pelos intempestivos desejos
Numa rota de obscuro silêncioE contempladas pela beleza
As figuras humanas resplandecem
No fascinante orbe azulado
Com sorrisos belos e trágicosSob a púrpura abóbada celeste
Caminham sérios e graves
Em busca do instante sublime
Mas suportando a limpidezNa busca incandescente do singularÉ inevitável sentir o halo de tristeza
Visto nosso desajeitado trato
Com as sutilezas e surpresasPeço sobremaneira que essa delicadeza
Não nos desvie daquilo que somosDas canções que nós compomos
E mantenha a chama do amor acesa
Essência
Dentro de todos nós
Dormita um princípio inato
Proveniente do passado
Remoto e longínquo
Donde nada recordamos
Mas sutilmente intuímosEsta intrínseca sabedoria
Encapsulada e atuante
Jaz em cada um de nós
Qual luz tremeluzente e distante
Mergulhada nas profundezas d'almaLá existe algo resguardado
Como se fosse o cerne precioso
Ancorado no solo intocado
Aguardando o romper de sua latênciaTal centro não se intitula
Este saber não se estipula
É o sentir que carece falarDo espírito em sua transparência
Essência da essência
Da luz a propagar
Sutilezas da Força
É fácil ser difícil
Emular suficiência
Emanar plenitude
Renunciar ao banquete
Ostentar leveza
Brilhar a frieza
Projetar força
E esconder o ocoBem como é fácil
Emergir o superficial
Revelar a obviedade
Iluminar os cegos
Hastear a hipocrisia
Gritar o evidente
Alardear o comum
E aguardar na filaDura batalha
Esforço de silenciar
Secar a fronte febril
Evocar a força sutil
Dar vazão ao inteligível
Confiar no inominável
Seguir o irresistível
E se arriscar
Ideia operária
O genuíno conceito
Parido da contradição
Paradoxo e convicção
Sobrepuja o intelecto
Conduz sem dirigir
Sem tentar extinguir
Sua ferida essencialO legítimo saber
Sabe da própria pequenez
Pungente saber
Qual pedra de moinho
Fragmenta os enganos
Deixando um fino pó
De conhecimentoAs ideias flutuam
Sobre o templo interior
Tímida luz de esplendor
Que tudo abarca
Encerrada dentro de nós
Que estamos dentro de tudo
E mergulhamos no seio do nada
Saber Residual
Ouvimos estórias romantizadas
Ao longo de muitos evos
Que narravam as peripécias
De certos agentes invisíveis
Que ainda hoje perseguimos
Em passos vacilantesIgnoramos as palavras vociferadas
Pelos humildes servos
Obliterados nos bastidores
Qual chamas se extinguindo
Na derradeira lenha
De um saber profundoFazemos muito alarde
Criamos nosso inferno
Interno depósito dos pensamentos
De ilusões que alimentamos
E apropriamos tal compêndio
De palavras alheiasE tudo são epifenômenos
Formando lagos de contemplação
Uma porta na mente dual
Por entre mundos paralelos
De um caminho partido ao meio
Dentre nomes e conceitosE essa ilusão foi sendo regada
Até que suas raízes venceram o cansaço
Suplantando a pungente realidade
Mas surgiu uma flor falsa e extemporânea
Dando apenas um fruto amargoEsgota-te enfim na energia desse carvão
Nessa dança efêmera
Retorna ao perpétuo e belo
Pureza que se doou
E devassa a escuridão
Limpando o caminho que se sujou
Fluxo d'água
Singulares que somos
Singramos nesse mar
A que tudo permeia
E seguimos ao léuHabitando o momento
Sem antecedentes
Nessa morada
De cercas provisóriasSomos uma gota
A indi(vi)sível partícula
Frutos diversos
Dispersos pela terraSomos a correnteza
Dos fatos inefáveis
Nos agarrando à margem
E fitando rostos familiaresBuscando quem esteja vivo
Para partilhar o desejo
Ensejo de mergulhar
Na fonte insondável
No firmamento
A mente é como o céu límpido
Algumas aves atravessam seu horizonte
Assim como os pensamentos fazem
Prestemos atenção ou nãoCada cenário traz uma imagem fluída
Escolhemos os elementos como foco
Com critérios muitas vezes misteriosos
Mas algo fixa o olharO ciclo perpétuo da lembrança
Registros e repetições
Desviando a vida do agoraO olhar a circundar
A comparação com outras paragens
Das vidas de outrora
Do inverno à primavera
Quantas as vezes que eu mudei
Do inverno à primavera
Nem eu mesmo sei
Quando a vida simplesmente era
Nada mais do que soltarQuantas as vezes que eu fiquei
Numa triste quimera
E por fim quase acreditei
Na vida qual longa espera
Dum impreciso e simples amarQuantos dias se passaram
Na insistência do sofrimento
Nunca mais os meses findaram
Ou se eternizou o momento
Duma nostalgia que transbordouQuantos dias se arrastaram
Por ficar assim tão desatento
Em se esquecer que ficaram
Para trás e em movimento
Memórias da saudade que restou
Ode insoldável
Na curva insondável
Entre a solidão
E a multidão
Toma a si mesmo
E ao mundo
Nas mãosE depois da atitude
O claro testemunho
Que o existir
É este momento
Ousado
Onde um ser incansável
Depõe o seu rumo
Sem ter outra arma
Ou outra paixão
Além da vida
Frágil e destemida
E da morte lenta
Mas não perdida
Partícula de esperança
Quando revisito minhas poesias
Perco a esperança
Que algum dia venha a tecer
Ao menos uma delasFaço minha parcela de luz
Cambaleante
Tento me nortear
Com meu fraco holofoteAntes ansiava afastar a angústia
Agora a quero íntima
Incomodando minha esperançaSigo sempre insatisfeito
Sempre hesitante
Cheio de incertezas e ainda de esperança
Em si
Carrega consigo o amor ao belo
Entre as sombras que lhe toldam a visão
Percorre os pântanos da sua rotina
Rumo à fertilidade do seu coraçãoAcalanta as suas criações
Cultiva o seu jardim
Bebe da sua própria fonte
Mergulha desse trampolim
Encerramento
Posfácio poético
Eis que chega o fim, ou talvez um contorno temporário. Porque as palavras, quando ditas de dentro, não conhecem ponto final. Elas reverberam. Vibram como um eco sutil no fundo do peito, mesmo depois da última sílaba escrita.
Essas poesias que agora repousam diante dos seus olhos não foram feitas para impressionar. Foram feitas para existir. São fragmentos de memória, sopros de angústia, lampejos de beleza e lapsos de lucidez. Não seguem uma escola. Não obedecem a um ritmo. São vestígios, ora de mim, ora de algo maior do que eu.
Por muito tempo, escrevi como quem não queria ser lido. Guardava versos em gavetas, esquecia palavras em cadernos antigos, silenciava minha própria linguagem. Como se a escrita fosse um gesto íntimo demais para o mundo. Mas chega um momento em que o silêncio se transforma em ruído e precisa ser compartilhado.
Cada bloco poético que você percorreu foi uma tentativa de organizar o caos. De dar forma à matéria bruta do sentir. De nomear o indizível. E se algo lhe tocou, ainda que levemente, então as palavras cumpriram seu destino, não o de explicar, mas o de acender.
Agora, é hora de outra travessia. A poesia, como todo rito, precisa de um limiar. E logo adiante, o verbo se transforma. A forma muda, o tom se adensa ou se afia.
A segunda parte deste livro traz crônicas, textos mais encarnados, mais sarcásticos, por vezes ríspidos. Mas a poesia continua ali, por trás de cada ironia, como uma brasa que não se apaga.
Talvez seja assim o viver: alternância entre verso e prosa. Entre lampejo e rotina. Entre aquilo que nos transcende e o que nos adoece. Entre o indizível e o dito.
Sim, assim nasceu meu silêncio, mas ele não terminou aqui.
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